terça-feira, 20 de novembro de 2012

A HIPERINFLAÇÃO NA HUNGRIA

Hiperinflação – Hungria (1945-1946)
                                                                                  © 2012 Marcio Rovere Sandoval


Fig. 1 - Cédula de 100 milhões de B-Pengö (P.136), equivalente a 100.000.000.000.000.000.000 de pengös (cem quintiliões de pengö - 1020) da Hungria, emitida em 1946.

A cédula de mais alta denominação já emitida é da Hungria, no valor de 100 milhões de B-Pengö (P.136), emitida em 3 de junho de 1946 no período de hiperinflação após a 2ª Guerra Mundial. Como o B-Pengo equivalia a 1 trilhão, o valor correspondente é de 100 quintiliões, ou seja, 100.000.000.000.000.000.000 (1020).
Estas cédulas não apresentam numeração. No reverso temos o prédio do Parlamento Húngaro em Budapeste.



Fig.2 - Cédula de 1 bilhão de B-Pengö, equivalente a 1.000.000.000.000.000.000.000 de pengö (um sextilião de pengö - 1021) da Hungria, impressa em 1946 e não emitida.

A cédula com mais alta denominação já impressa (não chegou a ser emitida) é também da Hungria, também com data de 3 de junho de 1946, correspondente a 1 trilhão de B-Pengo (P.137), ou seja, 1.000.000.000.000.000.000.000 (1021).
Estas cédulas também não apresentam numeração.
  
A inflação húngara em números (1945-46)

Emissão Pengö (1945-46)


15.05.1945
                        500 Pengö

15.07.1945
                     1.000 Pengö (103)
mil
15.07.1945
                   10.000 Pengö (104)
Dez mil
23.10.1945
                 100.000 Pengö (105)
Cem mil
23.10.1945
                 100.000 Pengö (105)
Cem mil
16.11.1945
              1.000.000 Pengö (106)
Um milhão
16.11.1945
            10.000.000 Pengö (107)
Dez milhões
18.03.1946
          100.000.000 Pengö (108)
Cem milhões
18.03.1946
       1.000.000.000 Pengö (109)
Um bilhão (6N = mil milhões)

Emissão Milpengö (1946)
Milpengö = um milhão (106)

29.04.1946
            10.000 Milpengö (1010)
Dez bilhões
29.04.1946
          100.000 Milpengö (1011)
Cem bilhões
24.05.1946
       1.000.000 Milpengö (1012)
Um trilhão (6N = bilhão)
24.05.1946
     10.000.000 Milpengö (1013)
Dez trilhões
03.06.1946
   100.000.000 Milpengö (1014)
Cem trilhões
03.06.1946
1.000.000.000 Milpengö (1015)
Um quatrilião (1) (6N = mil bilhões)

Emissão B-Pengö (1946)
B-Pengö = um trilhão (1012)

03.06.1946
            10.000 B.Pengö (1016)
Dez quatriliões
03.06.1946
          100.000 B.Pengö (1017)
Cem quatriliões
03.06.1946
       1.000.000 B.Pengö (1018)
Um quintilião (6N = trilhão) 
03.06.1946
     10.000.000 B.Pengö (1019)
Dez quintiliões
03.06.1946
   100.000.000 B.Pengö (1020)
Cem quintiliões
03.06.1946
1.000.000.000 B.Pengö (1021)
Um sextilião (6N = mil trilhões ) (2)


(1) A grafia quatrilhão é de uso informal. Esta regra é válida para os que se seguem.
(2) Não chegou a ser emitida.

Clique no número da cédula para ver a imagem do anverso. (sites: Numismundo e BanknotesGallery). As imagens dos reversos também podem ser visualizadas nestes sites.


Para compreender as tabelas:
Primeira coluna: P. (“P” de Albert Pick, criador do Catálogo World Paper Money) seguido do n° da cédula neste catálogo.
Segunda coluna: data de emissão da cédula.
Terceira coluna: valor da cédula
Quarta coluna: número por extenso que corresponde ao valor da cédula (Escala Curta - Brasil e Estados Unidos)
Regra dos 6N – Regra do Sistema Internacional de Pesos e Medidas adotada pelos Estados-membros na IX Conferência Internacional de Pesos e Medidas realizada em Paris (1949), de que o Brasil faz parte, segundo a qual se passa de milhão (1.000.000 ou 106) à casa bilhão pelo acréscimo de seis zeros (1.000.000.000.000 ou 1012), à trilhão pelo acréscimo de mais seis zeros (1018) e assim por diante. O Brasil e os Estados Unidos ainda usam o bilhão como 109 (equivalente ao mil-milhões europeu e do SI), não seguindo a seqüência estabelecida pelo Sistema Internacional.  (fonte: Dicionairo Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa).

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Autor: Marcio R. Sandoval
E-mail: sterlingnumismatic@hotmail.com


© 2012 Marcio R. Sandoval 

domingo, 14 de outubro de 2012

AS SETE MARAVILHAS DO MUNDO ANTIGO E O PALATINUS 398

                                                                      © 2012 Marcio Rovere Sandoval


Fig. 1 – Pagina inicial do documento que descreve As Sete Maravilhas do Mundo, atribuído a Philon de Bizâncio, contido no PALATINUS 398 (56v: Philo Byzantius, De septem orbis spectaculis, ca. Séc. X d.C). Manuscrito pertencente à Biblioteca da Universidade de Heidelberg na Alemanha.


No decorrer de suas viagens, um certo Philon de Bizâncio (ca. 280 a.C -  ca. 220 a.C) realiza uma lista de sete monumentos “Péri tôn hépta théamatôn” [A propósito das sete maravilhas], como sendo os mais remarcáveis de sua época. A lista primitiva continha os seguintes monumentos:

  1. A Pirâmide de Quéops (atual Egito)
  2. Os Jardins Suspensos da Babilônia (atual Iraque)
  3. As Muralhas da Babilônia (atual Iraque)
  4. A Estátua de Zeus em Olímpia (atual Grécia)
  5. O Templo de Artêmis em Éfeso (Ásia Menor – atual Turquia)
  6. A Tumba de Mausolo ou Mausoléu de Halicarnasso (Ásia Menor – atual Turquia)
  7. O Colosso de Rhodes (atual Grécia)
Com o passar dos séculos e de diversas outras listas, chegou-se a que conhecemos hoje, que inclui o Farol de Alexandria (Atual Egito), substituindo as Muralhas da Babilônia.

As Sete Maravilhas do Mundo é uma designação dada pelos gregos aos sete monumentos considerados entre os mais remarcáveis da antiguidade. O número sete foi escolhido em virtude do seu significado místico, a perfeição. As origens da lista são mal conhecidas e o assunto é controverso. Dentre muitas listas e muitas explicações, a que nos parece mais plausível é a do engenheiro grego Philon de Bizâncio (290 a.C. ou no início deste século), que foi corroborada por Antipater de Sidon, poeta grego do fim do século 2 a.C.

O poema de Antipater: “Eu vi as muralhas da soberba Babilônia onde podem correr as bigas, a estátua de Zeus no Olimpo, os Jardins suspensos, o Colosso de Hélios, o enorme trabalho das altas pirâmides, a opulenta tumba de Mausolo; mas quando vi o templo de Artemis que se lança até as nuvens, todo o resto foi eclipsado, e eu disse: a par do sublime Olimpo, do olho de Hélios, jamais vi coisa parecida”.  (Antologia Palatina, IX, 58)

A obra atribuída a Philon de Bizâncio De septem orbis spectaculis (As Setes Maravilhas do Mundo) foi traduzida do grego para o latim, pela primeira vez, por Léon Allatius e publicada em Roma em 1640. Sua importância esta ligada ao fato de ter sido a primeira narrativa de viagem que se tem conhecimento.


A história do manuscrito[1]: Trata-se de um documento em cópia única, que data, certamente do Séc. X d.C., segundo exame do pergaminho e da caligrafia, mas não posterior a primeira metade deste século. Sua presença foi atestada em um dos monastérios do Monte Atos (Grécia) onde ele deveria estar entre os séculos XIV e XV, um pouco antes da época em que se supõe que deu entrada na Biblioteca da Universidade de Heidelberg (Biblioteca Palatina), provavelmente por intermédio do Abade de Sponheim, fornecedor habitual destes manuscritos.

Em 1623, durante a Guerra do Palatinato, a cidade de Heidelberg, centro protestante, foi capturada por Maximiliano I, chefe da Liga Católica. O Papa, conhecedor esclarecido, aproveitou-se da oportunidade para transportar (com grande despesa) a Biblioteca Palatina para Roma. Leo Allatius (Leone Allaci), bibliotecário do Vaticano que acompanhou a transferência da biblioteca ficou incumbido de realizar um catálogo detalhado das obras. Ele estava em posição privilegiada para ser o primeiro a descobrir a importância do documento de Philon, texto pertencente ao intitulado “Palatinus 398”.

Allatius publicou em 1640, pela primeira vez, a tradução latina do documento, sendo esta a “Editio Princeps”, ou seja, a primeira edição, que foi considerada pelos especialistas como medíocre.
Em 1661 é publicada uma segunda tradução pelo francês Boessius, um helenista, que no decorrer de uma missão diplomática a Santa-Sé teve contato com o texto. A publicação, no entanto, veio acompanhada de um grande número de falhas de impressão tornando o texto ininteligível.

Em 1797, a França revolucionária, vence o exército pontifício e importa como butim quinhentos manuscritos. Por um curioso acaso, o Palatinus 398 chega a Paris. Um erudito de nome F.J. Bast examina o Codex e encontra o famoso texto de Philon, e publica notas críticas interessantes sobre o texto. Em 1816, após o exílio de Napoleão, no momento do ajuste de contas entre vencedor e vencido, a Santa-Sé reclama as obras de arte e parte de sua biblioteca, que haviam sido levadas. De sua parte, a Universidade de Heildelberg também demanda a restituição dos volumes que haviam sido levados pelo Vaticano. Finalmente o Palatinus 398 retorna à Universidade alemã onde se encontra nos dias de hoje.

O texto tem por título – “A propósito das Sete Maravilhas” sendo um conjunto de seis folhas, um prólogo e para cada maravilha um parágrafo. A última frase do sexto parágrafo (sobre o Templo de Artemis) esta incompleta e falta ainda o texto sobre o Mausoléu de Halicarnasso, anunciado no documento.  




Fig. 2 – Estátua colossal que pertencia ao Mausoléu de Halicarnasso (cerca de 350 a.C), Museu Britânico – Londres.



Fig. 3 – Moeda cunhada em Elis, no reverso temos Zeus no Olimpo, única imagem conhecida da Estatua de Zeus de Olímpia. (ca. De 43 a.C a 217 d.C.). (in, The Coins of Elis. Percy Gardner. Londres, 1879, p. XII).



Fig. 4 – Moeda de Elis (ilustração). (in, Projeto Gutenberg de História da Arte).

Bibliografia

 - Les Sept Merveilles du Monde. Jean Pierre Adam & Nicole Blanc. Perrin, 1989.

 - The Coins of Elis. Reprinted from the Numismatic Chronicle. 
Percy Gardner. Londres, 1879.


- Les 7 merveilles du monde [Partie 1] (video em francês)

- Les 7 merveilles du monde [Partie 2] (video em francês)




Autor: Marcio R. Sandoval
E-mail: sterlingnumismatic@hotmail.com

© 2012 Marcio R. Sandoval 



[1] Trata-se de uma compilação realizada durante a Idade Média provavelmente de fonte mais antiga, sendo esta a única conhecida.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

CÉDULA COMEMORATIVA DOS 150 ANOS DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL (SESQUICENTENÁRIO DA INDEPENDÊNCIA)

                                                                                        © 2000 Marcio Rovere Sandoval




Fig. 1 e 2 – Cédula de 500 cruzeiros (1972 – 1987) impressa pela Casa da Moeda do Brasil. Neste caso a C149 (P.196b) emitida em 1974.


                        Como parte das comemorações do Sesquicentenário da Independência do Brasil (1822-1972), o Banco Central emitiu em 1972 a cédula de Cr$ 500,00 (quinhentos cruzeiros). Conforme o “COMUNICADO MECIR nº 8”[1], a nova cédula teria como características principais: no anverso: “figuras representativas da evolução étnica brasileira, numa seqüência das diversas raças, por ordem de precedência histórica;” no reverso: apresenta uma seqüência de Cartas Histórico - Geográficas (“representando a evolução do espaço físico territorial brasileiro”) - Descobrimento, Comércio, Colonização, Independência e Integração. Suas dimensões básicas são 172 mm x 78 mm, cédula de maior dimensão já impressa após a mudança do padrão mil-réis para o novo padrão em 1942 e a primeira cédula comemorativa. Apresenta micro - chancelas na horizontal, a do Presidente do Conselho Monetário e a do Presidente do Banco Central, apresenta também elementos de segurança - filigrana ou marca d’água (Símbolo do Sesquicentenário da Independência 1822-1972), fundo de segurança com moiré e impressão luminescente. Foram impressas pela Casa Moeda do Brasil que utilizou as seguintes cores e métodos de impressão: no anverso – verde sobre policromia, em calcografia e offset; no reverso – verde e policromia, em calcografia e offset. Através do Comunicado MECIR Nº 15, de 31 de julho de 1979, o Banco Central informou ao público que havia lançado em circulação a estampa “B” da cédula de Cr$ 500,00 (quinhentos cruzeiros), que guardava as mesmas características da estampa “A’, com algumas alterações., vejamos: “I – inclusão no anverso de linhas paralelas, impressas em offset, na cor verde, sobre faixa vertical branca situada na extremidade esquerda da cédula onde está moldada a filigrana ou marca d’água. Estas linhas verticais definirão, sob a ação da luz emergente, um perfeito registro (superposição) com as linhas verticais igualmente impressas no reverso, na cor marrom; II – inclusão, no anverso, de motivo especialmente desenhado em caracteres unidos, compondo formas geométricas planas, impresso em offset, com predominância da cor verde, sobre a faixa branca situada na extremidade esquerda (ângulo interno inferior) da cédula. Esse motivo definirá sob a ação da luz emergente, um perfeito registro (superposição) com motivo de formas idênticas igualmente impresso no reverso, na cor marrom alaranjado. O Banco Central nesse mesmo comunicado informou que as cédulas da estampa “A” continuariam a circular concomitantemente com a estampa “B”. Estas cédulas circularam no período de 1972 a 1987, quando foram desmonetizadas. O projeto gráfico foi realizado por Waldomiro Puntar e as gravuras manuais por José Maria das Neves. F. dos Santos Trigueiros nos informa que “Aloísio de Magalhães desenhou os valores em posições invertidas, primeiro passo para que pudesse defender a idéia do desenho de tipos invertidos, empregados nas notas posta em circulação, depois deste tipo.”[2]

                      Na seqüência de Cartas Histórico-Geográficas temos as seguintes estilizações da direita para a esquerda:

 - Descobrimento

Mapa “de Cantino” – de 1502: descoberto por Giuseppe Boni diretor da Biblioteca Estense de Módena em 1859. Existe um fac-símile na Mapoteca do Ministério das Relações Exteriores no Rio de Janeiro. O curioso achado deu-se quando o Sr. Boni entrou numa salsicharia e “enquanto esperava que o merceeiro o atendesse, passou a examinar uma planta da loja, cujo forro era feito de pergaminhos desenhados. Esquecido das salsichas, o Sr. Boni, diretor da Biblioteca Estense de Módena, pagou bom preço pelos pergaminhos. Verificou que se tratava da mais antiga carta conhecida onde aparecem o Brasil e a linha de Tordesilhas. Era a primeira vez que se incluíam estas informações, porque os reis portugueses proibiam sua divulgação. Para conseguir um mapa completo, Alberto Cantino, espião italiano, teve de subornar um cartógrafo de Lisboa, pagando-lhe 12 ducados de ouro, mas recebeu um bom trabalho. O artista anônimo que quase certamente pertenceria às oficinas reais, reproduziu todas as terras conhecidas por Portugal, chegando ao requinte de assinalar a ilha de Ascensão, de localização tão recente que seus descobridores ainda não haviam regressado. O “mapa de Cantino” (como ficou conhecido) data de 1502 e mede 105 cm x 220 cm. Mostra ainda a costa oriental da América do Norte, que só seria oficialmente descoberta dez anos mais tarde.”[3] Na cédula aparece apenas a porção da carta em que está a representação da costa brasileira, com árvores e pássaros e na parte inferior a inscrição latina “Pollus Antartiais”. No século XV, segundo a etimologia, a palavra antártico significava “oposto ao pólo ártico”, ou seja, designava a região oposta ao Pólo Norte e não necessariamente a região Antártida. Nota-se que as árvores representadas no mapa se parecem mais com pinheiros das regiões boreais do que árvores tropicais propriamente ditas, mas, contudo, trata-se de mapa de sumo interesse histórico para o Brasil.

 - Comércio

Mapa “Terra Brasilis” – 1519: O mapa faz parte de uma coleção intitulada “Atlasde Miller” e pode ser encontrado na Biblioteca Nacional de Paris. Existi um fac-símile na Mapoteca do Ministério das Relações Exteriores do Rio de Janeiro -“...os mapas são de origem portuguesa, podendo ser atribuídos a Lopo Homem, cartógrafo oficial do Reino nas primeiras décadas do século XVI. “Terra Brasilis”, um mapa feito à mão sobre pergaminho, faz parte deste atlas e deve ter sido desenhado por volta de 1519, ainda sob o reinado de Dom Manuel. Detalhada nomenclatura (146 nomes) indica pontos da costa brasileira, do Maranhão à embocadura do Rio da Prata. Para o interior, o mapa mostra ilustrações realistas dos habitantes indígenas, alguns deles cuidando da extração do pau-brasil. As inscrições, como era hábito na época, são feitas em latim. E as bandeiras, uma ao norte (atual Guiana) e a outra ao sul (atual Argentina), assinalam os pontos extremos do avanço português. Antes de 1520, o Tratado de Tordesilhas, que limitava as terras de Santa Cruz com as possessões espanholas, já não era cumprido.”[4] Na cédula aparece a parte principal da carta, sendo que os 146 nomes não aparecem devido às suas pequenas proporções, sendo representados por linhas pontilhadas. Curioso notar a inscrição latina na parte superior esquerda da carta, apesar de reduzida, pode ser visualizada, através de uma boa lupa ou de ampliação, e diz o seguinte:

“Tabula hec regionis magni brasilis est, et ad partem occidentalem Antilias castelle regis obtinet. Gens vero eius negrescentis coloris fera et immanissima carnibus humanis vescitur. Hec eaden gens arcu et sagittis egregie utitur. Hic psytaci versicolores alie que innumere aves fereque monstruose et scymiarum plura genera reperintur pluriamaque arbor nascitur que brasil nuncupata vestibus purpereo colore tingedis opportuna censetur”.



Fig. 3 – Detalhe do reverso da cédula de 500 cruzeiros C149 (P.196b) contendo a inscrição latina, como consta no mapa original.

                         Em língua portuguesa temos: “Esta é a carta da região do grande Brasil, a qual toca, pela parte ocidental, com as Antilhas do Rei de Castela. Porém, a gente deste é de cor parda, brava e muito bárbara, e alimenta-se de carne humana. Esta mesma gente serve-se com suma habilidade do arco e flechas. Aqui se encontram papagaios versicolores, outras aves inúmeras, feras monstruosas, muitas espécies de macacos e nasce a árvore brasil, considerada boa para tingir as vestes de cor vermelha”.[5]



Fig. 4 – Detalhe do Mapa “Terra Brasilis” contendo a inscrição latina que foi reproduzida na cédula (Fig.3).

- Colonização

Mapa das “Capitanias Hereditárias” – 1574: “Em 1532, Dom João III dividiu o Brasil em capitanias, tentando incentivar o povoamento. A partir do litoral, a terra foi repartida em faixas paralelas e irregulares, doadas aos mais ilustres fidalgos da corte portuguesa. Muito tempo depois, em 1574, Luís Teixeira desenhava este mapa (hoje na Biblioteca da Ajuda, Portugal), em que aparecem as capitanias hereditárias com seus respectivos donatários (do norte para o sul): Rio Grande, Itamaracá, Pernambuco, Bahia, Ilhéus, Porto Seguro, Espírito Santo, Paraíba do Sul e São Vicente. A Bahia, considerada capitania de Sua Majestade, era a sede do governo-geral do Brasil. No mapa, a linha de Tordesilhas aparece deslocada dez graus para oeste, mas é provável que o erro seja proposital, pois favorecia aos portugueses, estendendo mais para ocidente as fronteiras da colônia brasileira.”[6] Existe uma cópia fotostática do referido mapa na Mapoteca do Ministério da Relações Exteriores. Na cédula se omite o nome da Capitania de Lopo de Souza (São Vicente) que se estendia até o estuário do Prata. Outra indicação omitida na cédula (apesar de constar algumas letras) é a denominação de “oceano meridional” no lado direito da carta. Notar o exagero cometido em relação à dimensões dos rios da Bacia do Paraná.

 - Independência

Mapa da época da Independência do Brasil - 1822, não localizamos qualquer denominação especial em relação ao mesmo. As fronteiras brasileiras antes mesmo da independência não eram ainda bem delimitadas, sendo que os mapas do período ainda apresentavam algumas imprecisões. O mapa, como os anteriores, não se mostra em sua integralidade, sendo assim uma estilização, tanto isto é verdade, que já em mapas do Século XVIII aparecem Capitanias na Região Norte, como a Capitania do Rio Negro e a Capitania do Grão Pará. Assim o território brasileiro, naquela época, já se estendia até a fronteira com o Peru (Rio Javari). Pode-se notar, na cédula, na parte superior do mapa, que as Guianas (Guiana Francesa e o Suriname) pretensamente faziam parte do território do Império recém criado. Não é verdade. A Corte Portuguesa transferiu-se para o Brasil em 1808 por causa da ocupação francesa e D. João VI declarou guerra a Napoleão e a todos os tratados realizados entre os dois países. Com o objetivo de retaliação e restabelecimento dos limites com a Guiana Francesa, estabelecidos no Tratado de Utrecht de 1713, D. João VI ordenou a conquista de Caiena através de uma expedição que partiu do Pará em direção ao norte. Com ajuda da Inglaterra (fragata inglesa – Confiance), os luso-brasileiros ocuparam a Guiana Francesa sem maiores perdas. A Guiana Francesa permaneceu sob domínio português até 1817, quando foi restituída aos franceses através de um acordo fixado entre a França e o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Tratou-se de uma ocupação provisória, sendo que a Guiana Francesa (até hoje território ultramarino da França) nunca fez parte do que viria a ser o Império do Brasil. Quanto ao Suriname (naquela época colônia holandesa) nunca fez parte do território brasileiro. Os Estados brasileiros, na época Províncias do Império também já começavam a se definir, com destaque ao fato do Estado de São Paulo ainda congregar em suas fronteiras o que viria a ser o Estado do Paraná em 1853. Outra curiosidade são os contornos da então Província de Santa Catarina, divisão esta já existente há quase um século (1738), naquele ano de 1822, acompanhando o traçado da Serra do Mar, onde estava restrita. O território onde se situava a antiga Colônia do Sacramento foi em 1821 incorporado ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves e transformando-se em Província do Império Brasileiro em 1824, com o nome de Província Cisplatina. Em 1825 teve início a luta separatista, sendo que em 1828 a Província Cisplatina conseguiu a independência com a criação da República Oriental do Uruguai. A linha de contorno da então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, atual Estado do Rio Grande do Sul, que aparece no mapa reproduzido na cédula, ao que tudo indica é referente ao Tratado de Santo Ildefonso de 1777. Talvez com a localização da procedência deste mapa se poderia analisar com mais precisão os dados aqui expostos.

 - Integração

Mapa que representa os atuais contornos do território nacional e simbolizava na época da confecção da estampa (1972) uma suposta integração norte-sul, que seria realizada através das rodovias que estavam sendo construídas, como a Transamazônica, a Perimetral Norte, a Cuiabá-PortoVelho-Manaus.


Nota: Em 22 de abril deste ano será lançada a Cédula Comemorativa dos 500 anos do Descobrimento do Brasil. Em leiaute provisório apresentado pelo Banco Central, além da figura de Pedro Álvares Cabral aparece novamente o mapa “Terra Brasilis” em uma nova estilização.

Referências Bibliográficas:

 – CASTRO, Renato Berbet de. As Cédulas do Banco Central do Brasil. Salvador: Editora Press Color Gráficos Especializados Ltda., 1989, 120p.
 – ICONOGRAFIA de Valores Impressos no Brasil. Banco Central do Brasil. Brasília: 1979, 313p.
 – MAPAS Históricos Brasileiros. Grandes Personagens da Nossa História. São Paulo: Abril Cultural, 1969, 58p.
 – RESENDE, Maria Efigênia Lage de. Atlas Histórico do Brasil, Belo Horizonte: Editora Vigília Ltda., 1987, 96p.
 – TRIGUEIROS, F. dos Santos. Dinheiro no Brasil. Rio de Janeiro: Léo Chistiano Editorial, 2ª Edição, 1987, 298p.


Autor: Marcio R. Sandoval
E-mail: sterlingnumismatic@hotmail.com


Publicado no Boletim da AFSC - Associação Filatélica e Numismática deSanta Catarina, n° 47, agosto de 2000, p.8-13.

Republicado no Boletim da SNB (Sociedade Numismática Brasileira – São Paulo) n° 70 de 2013, p.55-61.


© 2000 Marcio R. Sandoval 



[1] Comunicados do Banco Central referente ao meio circulante.
[2] TRIGUEIROS, F. dos Santos. Dinheiro no Brasil. Rio de Janeiro: Léo Chistiano Editorial, 2ª Edição, 1987, p. 236.
[3] Grandes Personagens da Nossa História – Mapas Históricos Brasileiros, Abril Cultural, São Paulo,1969, p. 1
[4] Grandes Personagens da Nossa História – Mapas Históricos Brasileiros, Abril Cultural, São Paulo,1969, p.7.
[5] Iconografia de Valores Impressos do Brasil – Banco Central do Brasil, Brasília, 1979, p.81.
[6] Grandes Personagens da Nossa História – Mapas Históricos Brasileiros, Abril Cultural, São Paulo,1969, p.23