domingo, 7 de agosto de 2011

“BILHETES POSTAIS” DO DEPARTAMENTO DE TURISMO DA MUNICIPALIDADE DO RIO DE JANEIRO – 1934

                                                                                        © 2011 Marcio Rovere Sandoval

Fig. 1 e 2 – Cartões Postais do Departamento de Turismo da Municipalidade do Rio de Janeiro de 1934 de autoria de Manuel Móra (1884-1956). No cartão da Alemanha temos: "Zauber Garten" Jardim Mágico e no da Argentina: "La Ciudad de Las Playas Marvillosas" A Cidade das Praias Maravilhosas. (clique para ampliar)

Em 1934 o Departamento de Turismo do Rio de Janeiro fez imprimir uma série de oito cartões postais com figuras femininas de diversas nacionalidades, representando as nações através de suas bandeiras, em conjunto com a bandeira brasileira.
As nações representadas foram: Alemanha, Argentina, Espanha, Estados Unidos, França, Inglaterra, Itália e Portugal.
Estes cartões são de autoria do artista Manuel Móra (1884-1956), português naturalizado brasileiro que trabalhou no Rio de Janeiro desde os anos 20 fazendo ilustrações para revistas, como Para Todos, Cinearte e O Cruzeiro e ainda propaganda para o Magazine Parc Royal, no qual possuía seu ateliê.
Foi colaborador do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) criado em 1939 pelo Governo Vargas durante o Estado Novo.
Faleceu no Rio de Janeiro em 1956 vitimado pela tuberculose.


Fig. 3 – Capa do primeiro número da Revista O Cruzeiro de 10 de novembro de 1928 de autoria de Manuel Móra (1884-1956). (clique para ampliar)


Fig. 4 e 5 – Cartões Postais do Departamento de Turismo da Municipalidade do Rio de Janeiro de 1934 de autoria de Manuel Móra (1884-1956). No cartão da França temos: "Conte de Fées"Conto de Fadas e no da Inglaterra: "Epic of Nature" Épico da Natureza. (clique para ampliar)


Fig. 5 e 6 – Cartões Postais do Departamento de Turismo da Municipalidade do Rio de Janeiro de 1934 de autoria de Manuel Móra (1884-1956). No cartão da Espanha temos: "Ciudad de ensueño" Cidade dos sonhos e no dos Estados Unidos: "wonder of wonders" Maravilha das Maravilhas. (clique para ampliar)


Fig. 7 e 8 – Cartões Postais do Departamento de Turismo da Municipalidade do Rio de Janeiro de 1934 de autoria de Manuel Móra (1884-1956). No cartão da Italia temos: "Eterno Paradiso" Eterno Paraíso e no de Portugal: Flor a Beira do Atlântico. (clique para ampliar)
Para identificar a obra de Manuel Móra observe a assinatura do artista nas obras para não confundir com as de J. Carlos.


Fig. 9 – Assinatura de Manuel Móra (1922), detalhe que consta em toda sua obra.



Autor: Marcio R. Sandoval (sterlingnumismatic@hotmail.com)

quinta-feira, 28 de julho de 2011

EMISSÕES PARTICULARES NA COLEÇÃO JULIUS MEILI

Folheto da exposição “Emissões particulares na Coleção Julius Meili” realizada pelo Museu e Arquivo Histórico do Banco do Brasil no Rio de Janeiro em 1985.




(Clique nas imagens para ampliar)

Abaixo passamos a transcrever o conteúdo deste folheto.
Banco do Brasil - Museu e Arquivo Histórico
Rio de Janeiro 1985
“Em 1867 aconteceu a mesma escassez da moeda de cobre, a ponto de não haver trocos para as cousas mais insignificante da vida doméstica, havendo por isso diversas desordens entre o povo; e o ministro da Fazenda (...) permittio, pela sua indiferença que os taberneiros, quitandeiros, frege-moscas e até as mulheres perdidas (!) emittissem vales de suas casas, como moeda corrente e legal, na Capital do Império.” Mello Moraes, “História do Brasil Reino e Brasil Império”, I, 1871, p. 373.
Um mestre da numismática brasileira
Foi em 1870, quando findava a Guerra do Paraguai, que o suíço Julius Meili desembarcou no Brasil. Era natural de Hettlingen e tinha, por este tempo, trinta e um anos de idade. Fixando-se na Bahia, tornou-se ali, além de comerciante, representante consular de seu país natal.
Dono de imensa fortuna, pesquisador criterioso e paciente, reuniu a mais valiosa coleção de numismática brasileira da época. Parte da mesma – a referente à moeda fiduciária – foi adquirida em 1937 pelo Banco do Brasil, encontrando-se aí umas das origens do acervo do Museu.
Referindo-se ao grande suíço, o numismata Álvaro Salles de Oliveira assim se expressa: “É Julius Meili cognominado o Mestre de nossa história monetária. Não há mais justa consagração do que esta pois foi o primeiro que o destrinçou e esclareceu em muitos pontos, dando classificação lógica e racional à ciência da numária brasileira, coligindo a mais farta cópia de documentos, notas e estatísticas preciosas.
Deixando o comercio em 1902, Meili entregou-se inteiramente aos estudos numismáticos, passando a publicar diversos ensaios nos quais estudava sua rica coleção. Desenvolvendo mais tarde estes textos, preparou e publicou o monumental trabalho “O Meio Circulante no Brasil”, que abarca quase toda a nossa história monetária, ou seja, de 1645 a 1900. Publicada em Zurich, cidade onde o autor faleceu em 1907, a obra se divide em três volumes, sendo em língua alemã os dois primeiros: “As moedas do Brasil Colônia” e “As Moedas do Brasil Independente”. Quanto ao terceiro, “A Moeda Fiduciária no Brasil”, veio a publico em 1903 e foi editado em língua portuguesa, por crer o pesquisador que interessaria “especialmente aos brasileiros” Divide-se em duas partes: “Emissões Legais” e “Emissões Ilegais”. A dedicada às emissões ilegais reproduz e classifica aproximadamente novecentos impressos de pequeno valor e que, a pretexto de atenderem a falta de troco, eram emitidos por estados, municípios, empresas de ônibus, barcas e bondes, companhias e particulares, para servir-lhes de papel-moeda. O próprio Julius Meili escreve a respeito: “...estes papeizinhos estenderam-se como uma epidemia em todo território brasileiro”. Tinham diversos nomes: apólices, cautelas, estampilhas, livranças, fichas e vales. Tinham também apelidos: borós no Ceará, calcáreos, sampaios e haja-paus em Pernambuco, debêntures no Maranhão, borrusqués em Minas Gerais.
Além desses, o autor colecionou e reproduziu em sua obra quatro tipos de impressos que, se não tiveram regularmente a função de moeda, nos mostram pelo menos os costumes da época, registrando, por outro lado, a evolução da propaganda e das artes gráficas em nossa terra. São os anúncios reclames, os bilhetes de rifa e as fichas de jogo.
A presente exposição reúne diversos exemplares dessas emissões ilegais ou abusivas. Representam, pelo que deixam transparecer de longo e generoso trabalho de pesquisa, uma amostra da dedicação que Julius Meili votava às coisas do Brasil, país que amou e a que ligou seu nome. (in, “Emissões particulares na Coleção Julius Meili” Museu e Arquivo Histórico do Banco do Brasil, Rio de Janeiro, 1985.

sábado, 16 de julho de 2011

CATÁLOGO DA COLEÇÃO NUMISMÁTICA BRASILEIRA – AUGUSTO DE SOUZA LOBO – 1908


Detalhe da página de rosto do Catálogo da Coleção Numismática Brasileira
de Augusto de Souza Lobo - 1908. Observem o estilo “Art Nouveau” nos ornamentos laterais, típico do inicio do Século XX.
(clique para ampliar)
A Universidade da Florida disponibilizou o livro de Augusto de Souza Lobo – “Catalogo da Collecção Numismatica Brasileira” de 1908. Trata-se do exemplar n° 82 (dos 500 que foram impressos).
Passamos a transcrever o Prefácio e a homenagem a Julius Meili contidos nesta obra, vejamos:
Prefácio
"Uma coleção sem catálogo é um corpo sem alma" (Prolóquio popular)
Dando a público o catálogo da nossa coleção, não tivemos em mente outras pretensões que a de concorrer com o nosso fraco contingente para maior desenvolvimento da numismática no Brasil.
Não temos a estulta vaidade de o apresentar como um trabalho perfeito, que para tanto nos falece a competência, - imprimimos-lhe, porém, uma feição que o pôde tornar útil auxiliar aos neófitos deste ramo da arqueologia, pelo grande desenvolvimento que demos à parte gráfica cujo número de gravuras se eleva a duas mil duzentas e três.
Nada criamos, nada inventamos e pouco ou nada inovamos; pesquisar, coligir e compilar – foi nossa missão, seguindo a rota luminosa do ilustre numismatógrafo Sr. Julius Meili, nosso fanal neste cometimento.
É, sem dúvida, o primeiro trabalho neste gênero empreendido no Brasil, onde, infelizmente, as artes gráficas tem muito a desejar.
A unificação da luz nos diversos metais não atingiu o nosso ideal, a despeito da reprodução em gesso por nós previamente feita; - convém, entretanto, notar que um modelo ruim não pode dar boa gravura.
A dificuldade com que lutamos devido ao atraso das artes gráficas neste pais muito nos prejudicou a exata e nítida reprodução dos vários modelos e daí as dificuldades, as falhas que se observam nos sinais característicos a cada moeda.
É de se lamentar que uma capital como a nossa ainda tanto se ressinta da escassez de materiais gráficos, comprometendo assim, em parte, a execução de trabalhos que requerem o máximo escrúpulo.
Entretanto, julgamos apresentar ao público o que de melhor se pôde conseguir com o pouco que encontramos – e assim não sem grandes esforços e sacrifícios.
A título de curiosidade reproduzimos quatro retratos de monarcas, que não adotaram a efígie nas moedas; a prioridade desta iniciativa, no Brasil, cabe a D. João V, com também a criação das moedas denominadas “Escudos”.
A exceção de D. Manuel, justificado aqui pelo fato altamente histórico do descobrimento do Brasil – D. João IV e D. Afonso VI ligam-se intimamente à Numismática Brasileira por sucessivas evoluções monetárias decorridas em seus reinados; quanto a D. Pedro II, basta dizer que foi o fundador das primeiras casas monetárias no Estado do Brasil, a cujo povo, por sua alta magnanimidade, concedeu o exercício da soberania nacional.
O nosso modesto catálogo, iniciado há três anos, só agora ficou concluída a sua impressão, o que nos permitiu durante este lapso de tempo, adquirir diversos exemplares valiosos, cuja descrição damos em um suplemento anexo ao presente.
Se este nosso esforço puder estimular o animo a outros mais competentes do que nós a prosseguirem nas investigações e pesquisas, reunindo novos elementos para elucidação completa da História da Numismática Brasileira, teremos atingido o alvo! Será maior compensação a que podemos aspirar da benevolência dos leitores.
Augusto de Souza Lobo.
Dr. Julius Meili
Em Zurique, onde havia fixado residência, faleceu em 26 de setembro de 1907, o notável numismatógrafo Dr. Julius Meili, a quem prestamos nestas linhas a homenagem modesta, mas sincera de nossa grande admiração pelo muito que lhe devemos.
Julius Meili foi por longos anos comerciante no Brasil, onde também exerceu as funções de Cônsul da Suíça – seu país natal. Espírito investigador e inteligente, não se subordina exclusivamente aos afazeres comerciais e consulares. O seu descanso era o trabalho paciente e rebuscado da grande paixão que sempre o tomou – a Numismática Brasileira, que tudo lhe deve.
Possuidor de grande fortuna, conseguiu reunir a maior e mais bela coleção de moedas que se conhece.
O Dr. Julius Meili precedeu o catalogo de sua coleção de uma monografia “Die Münze des Kaiserreichs Brasilien – Zürich, 1890”.
A parte referente ao Brasil – Colonial, foi mais tarde publicada em grosso volume “Die Münze des Colonie Brasilien - Zürich,1897” A seguir publicou, em rico álbum, “O Meio Circulante do Brasil – Zürich, 1903”.
A parte relativa do Brasil independente, apareceu em 1905 “Die Münze des unabhängigen Brasilien – Zürich, 1905.
Ampliando a primitiva publicação das Medalhas do Brasil “Die auf das Kaiserreich Brasilien Bezuglichen Medaillen”, tinha em mãos uma nova edição, grandemente aumentada, como vimos pelas estampas que gentilmente nos remeteu.
Infelizmente, porém, a morte o surpreendeu antes de have-la concluído.
Galardoando os relevantes serviços do criador das numismática brasileira, o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, distinguiu-o com o honroso e merecido título de sócio honorário, e pela Universidade de Zurique e Governo da Confederação Suíça lhe foi conferido o diploma de Doutor em Filosofia em atenção aos excelentes trabalhos feitos sobre este ramo da arqueologia.
À numismática portuguesa que faz parte da sua rica coleção, consagrou também três interessantes monografias: “Portugiesische Münzen – Varietaten und einige unedirte, Stüche – 1890” Contos para Contar (“Jetons Portugueses”) – Lisboa 1900” e Moedas portuguesas de ouro carimbadas ou cravejadas nas Índias Ocidentais e no Continente Americano – Lisboa, 1902.”
Julius Meili foi nosso mestre e amigo. Mestre – prodigalizava-nos as luzes de seus profundos conhecimentos numismáticos e amigo – sempre lembrado amigo – acolhia-nos de peito aberto, com toda a generosidade de seu nobre coração.
O destino não permitiu que o nosso eminente Mestre sobrevivesse ao término deste modesto catálogo, que ele tanto ansiava ver concluído. A propósito das estampas que solicitamente lhe remetíamos, a proporção que iam sendo impressas, Julius Meili nos escreveu a carta que com desvanecimento reproduzimos, abaixo em fac-símile, como testemunho da nossa elevada gratidão ao inolvidável mestre, e homenagem respeitosa a Madame Viúva Nina Meili-Schiffmann, dedicada consorte nos seus profícuos trabalhos.” (in, Catálogo da Coleção Numismática Brasileira de Augusto de Souza Lobo. Rio de Janeiro: 1908, p.I-IV).
Obs.: O texto transcrito comporta adequação ortográfica.
Catálogo da Coleção Numismática Brasileira de Augusto de Souza Lobo – 1908
Fonte: Universidade da Florida (em arquivos jpg e em pdf)
Assuntos relacionados:
Numismática Julius Meili I, II, III, IV e V
Livros de Julius Meili disponiveis on-line:

sexta-feira, 8 de julho de 2011

“HELL MONEY - DINHEIRO DO INFERNO”

                                                                                       © 2010 Marcio Rovere Sandoval


Figura 1 - Papel de oferenda ou bilhete funerário chinês
contemporâneo, em estilo “tradicional” - 132 x 115 mm.
(clique para ampliar)

“A origem de todas as coisas reveste-se de lendária suavidade. Mesmo depois de estudarem-se os comprovantes de um fato histórico, a imaginação procura dar lhe roupagens poéticas, de modo que a ocorrência possa ter um conteúdo humano, nem sempre transmitido pela frieza dos documentos” (in, Dinheiro no Brasil. F.dos Santos Trigueiros. Rio de Janeiro: Leo Christiano Editorial. 1987, p. 34).

Quando Marco Pólo (1254 – 1324) em 1295 retornou da China e revelou que o imperador Kublai Khan (1215 – 1294) imprimia folhas de papel valendo tanto quanto ouro ou prata e ainda a existência do costume de queimar falsos bilhetes em homenagem aos mortos, seus contemporâneos restaram incrédulos.
Não era por menos, na Europa a moeda era exclusivamente metálica e uma forma aproximada do papel-moeda, a letra de câmbio, somente apareceria cem anos mais tarde, já no século XIV.
Naquela época os chineses já tinham criado um sistema bancário complexo e utilizavam bilhetes de papel impressos pelo método xilográfico (placas de madeira gravadas) e calcográfico (placas de bronze) que continham o selo imperial, a assinatura do Tesoureiro e a sanção pela eventual falsificação, a pena capital. Essa mesma pena seria também aplicada a todos aqueles que recusassem o recebimento dos bilhetes. Tinham curso forçado semelhante aos atuais, isto quer dizer, não tinham lastro em ouro ou prata, situação semelhante só ocorreria no mundo ocidental depois da 1ª Guerra Mundial.[1]
O papel-moeda apareceu na China por volta do século VIII de nossa era por razõesde ordem prática e cultural.
Mas como se deu essa descoberta? Vamos remontar ao passado.
Pesquisas arqueológicas comprovadas situam o aparecimento da escrita entre os chineses por volta de 1400 a.C.[2]. Para efeito comparativo temos que as primeiras inscrições suméricas são de cerca de 3300 a.C. e os hieróglifos egípcios de 3100 a.C.
Os chineses usaram diversos suportes para a escrita, como ossos de animais (entre 1400 e 1100 a.C.), utensílios de bronze (a partir de 1100 a.C.), pedras (a partir de 750 a.C.), matérias vegetais como cascas de árvore, ripas de madeira, lâminas de bambu (em torno de 1100 a.C.) e tecidos como a seda (a partir de 750 a.C)[3].
Nos anais da história chinesa, a invenção do papel é precisamente datada, ano 105 de nossa era, e o inventor seria Cai Lun, alto funcionário da corte de Han. Descobertas arqueológicas, no entanto, sugerem que o papel já era utilizado desde a metade do II milênio a.C. Cai Lun, mesmo não sendo o inventor do papel como suporte da escrita, teria introduzido melhorias técnicas (introdução de fibras de tecido), dotando o papel de características que permitiram sua melhor utilização.
Como surgiu o papel-moeda entre os chineses? Para descortinar essa questão vamos primeiro conceituar o objeto.

“O bilhete de banco[4] se apresenta como um retângulo de papel, na maioria das vezes ilustrado, que traz a indicação de um valor monetário e que se destina a servir de instrumento de pagamento. Totalmente desmunido de valor intrínseco, permanece ligado às relações fundamentais entre a inscrição e o valor financeiro e pode ser interpretado como a consequência longínqua do processo que fez nascer simultaneamente a escrita e o traço contável a mais de 5000 anos na Suméria. O papel-moeda também atesta o irreversível movimento de desmaterialização da moeda. Moeda esta que foi conduzida do mundo das coisas ao mundo dos signos. A moeda confirmava pela sua presença tangível o valor real da troca e foi sendo substituída progressivamente por um “papel confiança” de natureza simbólica.” (in: La saga du Papier. Pierre-Mark Biassi e Karine Douplitzky. Paris: Sociéte nouvelle Adam Biro e Arte Éditions, 2002, p. 234).

No mundo ocidental, os bilhetes de banco estiveram no início de sua existência amparados por uma garantia palpável, representada por um peso definido em metal precioso conversível sobre simples demanda[5].
Inventado pelos chineses no séc. VIII, após uma penúria de espécies metálicas (moedas de cobre), o papel-moeda só seria efetivamente implantado na Europa com a criação do Banco da Inglaterra, em 1694.
Inicialmente os bilhetes de banco eram lastreados, podendo ser denominados mais apropriadamente como moeda-papel. Essa garantia foi desaparecendo pouco a pouco e os bancos passaram a emitir além do que poderiam resgatar, gerando crises e desconfiança em relação a estas emissões.
O papel-moeda acabaria por se impor após a 1ª Guerra Mundial, quando em geral foi suprimida a conversibilidade da qual o público raramente fazia uso.
A garantia do ouro foi substituída pelo sistema internacional de equilíbrio recíproco das moedas com lastro sobre as divisas dominantes, com utilização da libra esterlina e do dólar, depois apenas do dólar. (op. cit. p.234). Hoje é justamente a China que vem contestando este sistema.
Voltando ao Oriente.
Como vimos, o papel-moeda teria aparecido na China no séc. VIII de nossa era por causa de uma penúria de espécies metálicas.
Vamos insistir na denominação papel-moeda e não moeda-papel. Desta forma surgirá a questão: como poderia ter surgido o papel-moeda na China já com esse conceito abstrato (desmunido de valor intrínseco) que só veio a se concretizar no mundo ocidental séculos mais tarde, mais precisamente no início do séc.XX, após a 1ª Guerra Mundial?
A explicação está no próprio conceito abstrato da moeda na sociedade chinesa daquela época. Os chineses utilizavam no dia-a-dia moedas de cobre, segundo se acreditava mais apropriadas para a utilização diária do que o ouro e a prata. Assim, a moeda na sociedade chinesa era um sistema local de relações fiduciárias sem valor intrínseco. No início, os comerciantes emitiam as moedas ou mesmo os bilhetes, sendo a garantia de “pagamento” a notoriedade e riqueza do empreendedor.
As primeiras experiências do papel-moeda, no entanto, estão ligadas ao crescimento do comércio, que gerou falta de numerário, que por sua vez não podia ser implementado por causa da escassez das reservas de cobre. Havia ainda o problema da abundância de moedas falsas.
Desde a metade do séc. III a.C., a unidade monetária chinesa é o sapeca (sapequeou cash), uma moeda de cobre com um buraco no meio. A unidade superior, o min ou o guan equivalia a mil sapecas amarrados entre si através de um fio.
Essas moedas juntas pesavam mais de três quilos, dificultando enormemente o seu transporte.
No final do séc. VIII d.C., os grandes comerciantes tinham o hábito de confiar as moedas contra um bônus emitido pelo poder imperial, conhecido como “moeda volante” (Feiqian). Eram verdadeiras letras de câmbio.
Na dinastia Song (960 – 1279), a persistência da penúria de cobre deu origem a uma moeda de ferro, intransportável, que acabou precipitando o surgimento do papel-moeda.
No inicio, os próprios comerciantes o emitiam e, em torno de 1070, o Estado o instituiu na forma de assinados.
No séc. XII, com a expansão sobre o Ocidente, é emitida grande quantidade de papel-moeda, causando inflação que se estende até a dinastia Mongol (séc. XII a XIV). Na dinastia Ming (1368 – 1644), a China entra em contato com as correntes monetárias ocidentais e adquire a prata das colônias espanholas (e até portuguesa) da América, difundidas a partir das Filipinas no final do séc. XVI. O Imperador Yung Lo (1403 – 1425) aboliu a utilização do papel moeda na China, voltando o mesmo a circular depois de 1851[6].
Assim, as primeiras manifestações do papel-moeda tiveram curso na China do séc. VIII. Mas qual seria a inspiração para a sua criação?

[1] Alguns autores afirmam que inicialmente os bilhetes eram “lastreados” nas moedas de cobre e depois, sobrevindo a inflação, teria sido utilizado o ouro e prata em alguns períodos.
[2] Certas inscrições evocam períodos anteriores em torno de 2500 a.C, mas ainda não comprovados.
[3] As datas são todas aproximadas.
[4] Cédula bancária na denominação técnica.
[5] Pelo menos em tese.
[6] Ainda estamos à procura de maiores evidências sobre esse acontecimento.

Figura 2 - Papel de oferenda ou bilhete funerário,
imitando uma barra de ouro - 86 x 35 mm. (clique para ampliar)

O papel-moeda utilizado nas trocas comerciais reais teria sido criado senão a imitação de uma moeda fictícia bem mais antiga utilizada no culto dos mortos pelos budistas e taoístas.[1] Essa moeda fictícia é denominada “paper offering” ou “joss paper” em inglês e “papierd’offrande” ou “billets funéraires”, em francês.
A moeda de oferenda passou a ser feita de papel desde o séc. III ou IV d.C para o culto dos mortos. Como vimos, Marco Pólo observou essa prática.
Os bilhetes fictícios, imitando placas de ouro, são transformados em fumaça e montam em direção aos céus e hão de se reconstituir no outro mundo (no Além) para pagar a dívida que o defunto havia contraído na sua nascença com a tesouraria “do Além”. Da mesma forma se queimam papéis de ouro fictício diante das casas e aos pés das divindades, para lhes implorar favores; no interior das casas para proteção do lar; queimados no exterior previnem os efeitos maléficos.
A expressão “do Além” significa inferno, mas difere do conceito ocidental de inferno. Para os orientais, o inferno é um local de passagem e não de castigo. Quando os missionários ocidentais ameaçavam os chineses com o sofrimento eterno no inferno, eles não compreendiam e a ameaça não fazia efeito.
A utilização da moeda de oferenda é uma tradição milenar na China, sendo que até mesmo os cauris[2] foram imitados, ainda no período neolítico.
Com a imigração chinesa no mundo e a partir do final da década de 60 (a que tudo indica) passaram a ser impressos bilhetes funerários ou papel de oferenda em estilo ocidental, imitando bilhetes de bancos americanos e mesmo de outros paises asiáticos, bem como chineses.
As formas tradicionais ainda continuam sendo fabricadas, veja figura 1. Esses bilhetes funerários modernos são denominados “Hell Bank Note”, ou seja, “papel moeda do inferno”. Essa denominação foi dada durante o séc. XIX pelos colonizadores ingleses, que os denominavam “Hell Money”. Não se trata de uma brincadeira e nem de algo ofensivo, a resposta a sua existência está na tradição taoísta e budista[3] que prevê a queima do papel de oferenda como acima mencionado.
Existe uma variedade muito grande desses bilhetes. Um estudo na década de 70, em Taiwan, apontava mais de 800 tipos (dos tradicionais). Em muitos, aparece a imagem do Imperador Jade, que na mitologia taoísta é o senhor dos céus e de todos os domínios de existência abaixo, incluindo o homem e o inferno.
Na sequência, temos a reprodução de alguns dos bilhetes contemporâneos.

[1] São raros os autores que mencionam estes antecedentes mas encontramos menção até mesmo no site oficial da Banco da Bélgica, país com grande tradição em numismática.
[2] Cauri é um molusco marinho cuja concha foi utilizada no passado, na Ásia e na África, como moeda.
[3] Essa tradição pode ter origem até mesmo em cultos ancestrais.

Figura 3 - Papel de oferenda ou bilhete funerário chinês contemporâneo em estilo moderno (Hell Bank note), imitando as cédulas de banco. No anverso, à direita, temos o Imperador Jade. Observe o alto “valor nominal” deste bilhete – dois bilhões. (clique para ampliar)

Figura 4 - Papel de oferenda ou bilhete funerário chinês contemporâneo em estilo moderno (Hell Bank note), imitando as cédulas de 100 yuan da China. No anverso, temos a mesma imagem do bilhete antecedente, o Imperador Jade. Este bilhete é muito semelhante ao original de 100 yuan, podendo inclusive passar pelo verdadeiro aos desavisados -150 x 72 mm. (clique para ampliar)

Observação: Este é um estudo preliminar, baseado na pouca literatura disponível sobre o assunto. A maioria dos textos sobre a historia do papel-moeda não menciona suas origens como sendo uma variação dos papéis utilizados na tradição religiosa chinesa. Por este motivo tratamos a questão como hipótese provável.

Bibliografia:
BIASI, Pierre-Mark de e DOUPLITZKY, Karine. La saga du Papier. Paris: Société nouvelle Adam Biro e Arte Éditions, 2002.
BOEYKENS, Coralie. Le billet, une invention chinoise? Musée de la Banque nationale de Belgique – http://www.nbbmuseum.be/fr/2007/09/chinese-invention.htm
HOU, Ching-Lang. Monnaies d’offrande et la notion de thésorerie dans la religion chinoise. Paris: Institut de hautes études chinoises. 1975.
Obs.: Este livro traz informações sobre a moeda de oferenda em Taiwan, onde, segundo o autor, esta prática conservou-se mais do que no continente (em virtude da Revolução Cultural neste último). O autor, um colecionador, adotou a classificação corrente em Taiwan e estabeleceu um catálogo.
PICK. Albert. Standard Catalog of World Paper Money. USA: Krause Publications, 12ª Edition, General Issues (1368 – 1960), 2008.
Obs.: Este catálogo apresenta na parte concernente à China, a catalogação dos bilhetes mais antigos existentes, quais sejam: Dinastia Ming (1368-1644) AA2 – 20 cash (1375), AA3 – 300 cash (1368-99) e AA10 – 1 kuan (1368-99).
SANDROCK, John E. Ancient Chinese Cash Notes – The world’s first paper money.
Part I e Parte II. (Clique para ter acessar)
Obs.: Estudo disponível on line, traz diversas imagens e fragmentos dos bilhetes antigos da China, inclusive da moeda volante.
TRIGUEIROS, F. dos Santos. Dinheiro no Brasil. Rio de Janeiro: Leo Christiano Editorial, 1987.

Autor: Marcio R. Sandoval (sterlingnumismatic@hotmail.com) - agosto 2010.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

FOLHETO DO BANCO CENTRAL DO BRASIL – CRUZEIRO

Banco Central do Brasil – Gerência do Meio Circulante
Folheto: Novas Cédulas do Brasil, cerca de 1970.
Impressão: Bloch Editores S.A





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Se o leitor possui algum outro informativo sobre cédulas ou moedas, de qualquer época, nos envie para que possamos divulgar, o nosso e-mail é sterlingnumismatic@hotmail.com

sábado, 18 de junho de 2011

TU – 144 (Tupolev – 144)

                                                            © 2011 Marcio Rovere Sandoval



Moeda de 1 rublo da Rússia – Anverso: no centro águia bicéfala e a inscrição "Banco da Rússia", dentro de um círculo de pérolas. Na orla temos a denominação da moeda "um rublo" e o ano de emissão "2011". É possível notar o teor da prata (Ag 925) e o peso 7,78 g. Reverso: imagem em relevo do TU – 144 e seu traço no céu em azul. Na borda temos as inscrições "A História da Aviação Russa" e embaixo temos TU – 144 (em russo TY – 144)
Em recente matéria postada pela AFNB, intitulada “Moedas 2011 – Rússia – A História da Aviação Russa”, há uma ilustração de um avião que nos chamou a atenção pela semelhança com o Concorde. O que estaria fazendo o “Concorde” em uma moeda russa?
Na verdade trata-se do TU – 144.
O TU – 144 foi um avião de linha supersônico construído pela Tupolev (empresa russa de defesa e concepção aeronáutica). Seu primeiro protótipo voou em 31 de dezembro de 1968 em Zhukovsky, próximo de Moscou, dois meses antes do Concorde.
Ele ultrapassou a barreira do som (Mach 1) em 5 de junho de 1969 e atingiu Mach 2 (duas vezes a velocidade do som – 2150 km/h) em 26 de maio de 1970. Ele foi o primeiro avião comercial a atingir Mach 2 alguns meses antes do Concorde.
Pela existência de enormes semelhantes entre o TU – 144 e o Concorde, principalmente no que diz respeito à aerodinâmica, alguns consideram que ele foi fruto da espionagem soviética, mesmo que o TU – 144 seja maior e equipado com motores mais possantes. Foram fabricadas cerca de 24 unidades que foram colocadas em serviço pela Aeroflot em 26 de dezembro de 1975, entre Moscou e Alma-Ata (Cazaquistão), distantes cerca de 3520 km. A utilização destes aviões teve vida curta, não tiveram uma verdadeira carreira comercial, sendo os vôos desativados em 1978.
Em 3 de junho de 1973 na ocasião do 30° Salão de Bourget (Paris) um TU – 144 caiu e destruiu quinze casas e uma escola (que encontrava-se vazia no momento), matando os seis membros da tripulação e mais oito pessoas no solo. Algumas décadas depois o Concorde teria um destino semelhante e bem mais trágico.


O Tupolev – 144 em vôo pela Aeroflot e no Museu “Auto & Technik” de Sinsheim na Alemanha (120 km de Frankfurt); na terceira foto temos também o Concorde e na ultima o interior do avião. (clique para ampliar)
Veja o vídeo do acidente (em francês)

Autor: Marcio R. Sandoval
email: sterlingnumismatic@hotmail.com



terça-feira, 7 de junho de 2011

BANCO DO CAFÉ – LETRAS HIPOTECÁRIAS

                                                                                   © 2013 Marcio Rovere Sandoval


Fig. 1 e 2 - Letra hipotecaria do Banco do Café no valor de 100 mil-réis da 1ª Estampa e Série 1ª (P.S541, V.I.Lissa 679 e J.Vinicius 50). Cerca de 1929. (181 mm x 88mm).

Apesar de intensa pesquisa pouco encontramos sobre o Banco do Café. A que tudo indica ele teve vida efêmera. (cerca de 1927-1932?).
Trata-se de letras hipotecárias como consta no próprio anverso do documento. Os valores são de 100$000 e 500$000 réis. Essas letras não foram emitidas. Conhecemos dois catálogos que trazem informações sobre estas letras, o Catalogo de J. Vinicius de Cédulas do Brasil de 1982 e o de Violo Ídolo Lissa – Catálogo do Papel Moeda do Brasil de 1987. As informações constantes nestes catálogos são breves e praticamente se restringem as informações contidas na própria letra.
Descrição das letras:
São mencionados dois artigos legais, o Decreto nº 169-A, de 19 de fevereiro de 1890 e o Decreto nº 370, de 2 de maio de 1890, respectivamente a Lei Hipotecária e a sua regulamentação.
A descrição da letra de 100 mil-réis é a seguinte:
Anverso: verde-azulado sobre sépia, em calcografia e litografia. No centro, figura de duas mulheres – Alegoria da Paz e da Liberdade. Reverso: sépia, em litografia. Impressão: ABNCo. (American Bank Note Company – Nova York). Quantidade: cerca de 400.000 (em consideração às séries) (*) Ver atualização em anexo.
Encontramos 4 séries, como podemos verificar abaixo:


Fig. 3 – Detalhe das letras hipotecárias do Banco do Café, temos a indicação da estampa (1ª) e das séries (1ª à 4ª). Como em geral cada série tem 100.000 exemplares (inclusive a numeração das letras tem 6 dígitos) podemos concluir que foram impressas cerca de 400.000 cédulas de 100 mil-réis.

Estas letras são semelhantes[1] à cédula de 500 mil-réis do Tesouro Nacional de 1907 (P.86, R157).
A de 500 mil-reis:
Anverso: Violeta sobre sépia, em calcografia e litografia. No centro o mesmo quadro alegórico da anterior. Anverso: sépia em litografia. Impressão: ABNCo. Quantidade:? (*) Ver atualização em anexo. 
Lissa classifica esta letra como muito rara e traz os seguintes comentários finais: "A finalidade por que se propôs o Banco do Café não logrou êxito, motivo pelo qual a emissão dessas letras não chegou a entrar em circulação".
As letras de 500 mil-réis ao que tudo indica só existem modelos (specimen), que apareceram nos últimos anos (acreditamos que se trata dos arquivos da ABNCo., que passaram a ser comercializados a partir de 2007).
Sobre o Banco do Café encontramos uma alteração nos seus estatutos pelo Decreto Executivo n° 19.792 de 25 de março de 1931 e ainda no Diário Oficial do Estado de São Paulo de 08 de dezembro de 1932, p.11, uma publicação mencionando as atividades do banco (ativo e passivo), sua sede na Rua Três de Dezembro n°14, em São Paulo. Esta publicação foi assinada pelo Diretor-Gerente – Antonio Augusto Barros Penteado e pelo Diretor Abel H. Drumond.

[1] Em relação às alegorias.


Fig.4 – Specimen de uma Letra hipotecaria do Banco do Café no valor de 500 mil-réis da 1ª Estampa e Série 1ª (P.S542, V.I.Lissa 679a e J.Vinicius 51). Cerca de 1929. (181 mm x 88mm).
Clique nas imagens para ampliar.

Bibliografia:
- Catálogo do papel-moeda do Brasil 1771-1986, emissões oficiais, bancárias e regionais. Violo Ídolo Lissa. Brasília: Editora Gráfica Brasiliense, 3ª edição, 1987.
- Catálogo J. Vinicius de Cédulas do Brasil, 1982.
- Diário Oficial do Estado de São Paulo de 08 de dezembro de 1932, p.11.
- http://www6.senado.gov.br/sicon/

Atualização

Da letra de 100 mil-réis
Quantidade impressa: 200.000, séries de 1-4
Data da impressão pela American Bank Note Company: setembro de 1929
Cada série comportava 50.000 cédulas (Série 1: 1-50.000, série 2: 50.001-100.000, série 3: 100.001-150.000 e série 4: 150.001-200.000)

Da letra de 500 mil-réis
Quantidade impressa: 20.000, séries de 1-4
Data da impressão pela American Bank Note Company: setembro de 1929
Cada série comportava 5.000 cédulas (Série 1: 1-5.000, série 2: 5.001-10.000, série 3: 10.001-15.000 e série 4: 15.001-20.000) 

Estes dados tem como base o livro: Latin American BankNote Records – American Bank Note Company Archives. Ricardo M. Magan, Firts Edition, 2005.


Autor: Marcio R. Sandoval  (sterlingnumismatic@hotmail.com)

Publicado no Boletim da SNB (Sociedade Numismática Brasileira – São Paulo) n° 70 de 2013, p.52-54.