quarta-feira, 26 de maio de 2010

Latécoère – Aéropostale – Air France

Uma epopéia da aviação comercial
                                                                                    
                                                                                      © 2010 Marcio Rovere Sandoval


Florianópolis, 14 de janeiro de 1925. Missão de reconhecimento da Latécoère da rota Rio de Janeiro-Buenos Aires. Na foto temos: Roig, sentado na frente, Vachet e Hamm. O avião é um Bréguet 14, biplano utilizado durante a 1ª Guerra Mundial (in, FLEURY, Jean Gerard. L ́Atlantique Sud de L ́Aéropostale à Concorde. Editions Denoël, 1974, p. 32).

Próximo do término da 1ª Guerra Mundial um industrial de Toulouse, Pierre Georges Latécoère, seduzido pelo progresso da aviação, decide consagrar suas atividades à aeronáutica. Já durante a Guerra ele havia convertido sua fábrica de vagões ferroviários em fábrica de aviões.
Ele contrata pilotos, que haviam participado da Guerra, com a intenção de criar uma linha aérea entre a França e a América do Sul. Ele apresenta seus planos ao Governo francês que trata a proposta com ceticismo.
Passando a ação, em 25 de dezembro de 1918, tenta realizar um vôo experimental entre Toulouse e Barcelona com um avião Salmson, apesar de sua pouca autonomia e de sua pequena capacidade de carga. Inicialmente, pretendia-se transportar apenas a correspondência.
O avião decolou de um terreno em Montaudran sobre o olhar de outros pilotos que conheciam os perigos do percurso, notadamente os Pirineus. O avião chegou neste mesmo dia a Barcelona e depois retornou a Toulouse com sucesso.
Pierre Latécoère decide abrir a linha e envia um emissário para negociar com o Governo espanhol a permissão de passagem sobre seu território e o estabelecimento de campos de pouso.
Em 25 de fevereiro de 1919, com dois aviões Salmson, os pilotos decolam em direção a Barcelona, um deles atinge a cidade sem incidentes, depois parte em direção a Alicante. Nas proximidades desta cidade eles percebem que o campo de aterrissagem era demasiadamente pequeno. A questão é que eles haviam telegrafado às autoridades municipais para desobstruir 600 metros de um platô, eles compreenderam 600 metros quadrados. O avião ultrapassa os limites da ‘‘pista’’, bate nas pedras e espedaça o trem de pouso. O piloto com o nariz ensangüentado desce do avião e recebe as boas vindas das autoridades e é aclamado pela multidão. Em seguida pede ajuda para liberar o terreno das pedras para que o outro avião conheça melhor sorte.
Tempo eles teriam o bastante eis que o outro piloto, míope, havia perdido os óculos numa turbulência e havia passado por Barcelona sem vê-la e, ficando sem combustível, teve que aterrissar em uma praia perto de Tortosa. Depois de conseguir reabastecer o avião chega a Alicante, mas, apesar da pista ter sido desobstruída, ele a ultrapassa e bate contra os rochedos. Neste segundo avião encontrava-se Pierre Latécoère, que juntamente com o piloto saem praticamente ilesos.
Mesmo com estes incidentes o otimismo persiste no estabelecimento da linha.
A etapa seguinte era atingir Rabat (Marrocos), o que se efetiva em março de 1919. O Marechal Lyautey ficou impressionado com a façanha e encorajou o estabelecimento de um contrato com o correio local para o transporte da correspondência.
Vejamos a descrição desta aventura: Quinze dias após os incidentes meio dramáticos, meio cômicos do primeiro vôo em direção à Alicante, o obstinado industrial parte com o piloto Lemaître de Toulouse, atravessa a Espanha e após ter abastecido em Barcelona e Alicante (desta vez o terreno havia sido limpo adequadamente) eles aterrissam em Rabat no Marrocos no final do mesmo dia. Ele retira seu capacete e seu uniforme de couro e usando um chapéu, com um lenço em uma das mãos e um buquê de flores na outra, se apresenta ao Marechal Liautey com seus papeis e planos de vôo e entrega o buquê de violetas de Toulouse ainda frescas à Senhora Liautey.
Com o sucesso desta nova tentativa e com o apoio do Marechal Lyautey, Pierre Latécoère negocia com o Governo em Paris o estabelecimento da linha e constituí a sociedade "Lignes aériennes Latécoère".
Com aviões fornecidos pela Arma francesa, 15 Bréguet, tipo 14 (300 ch), com motor Renault e com pilotos desmobilizados da Guerra: Daurat, Delrieu, Dombray, Vanier, Rodier...inicia-se a linha Toulouse-Rabat, serviço que se tornará semanal.
Em 1° de setembro de 1919 o piloto Didier Daurat inaugura a linha França-Marrocos. Ela leva os primeiros malotes do correio a bordo de um Bréguet 14, mais possantes que os Salmson utilizados até aquele momento.
Com o estabelecimento da linha aparecem outras dificuldades, não havia serviço meteorológico e nem controle por rádio.
Daurat, por suas qualidades, é nomeado diretor da linha e instala uma disciplina rigorosa, no entanto, faltava pagar o preço pela conquista. Em 1920 Rodier e Marty-Mahé desaparecem no mar, perto de Port-Vendres. Os pilotos Gathon e Benas morrem em um acidente próximo de Valência.
Em 1921 a linha faz sucesso por sua regularidade. Os horários são respeitados, mas os riscos continuam. Sagnot à Barcelona, Mérel e Garrigle à Gibraltar, Stichter próximo a Alicante, encontram a morte em acidentes aéreos.
Em 1922 apesar dos acidentes que persistem é realizado o reconhecimento da linha Casablanca-Rabat-Fès-Oran, logo após esta linha é estabelecida e se torna semanal. Com um acidente neste percurso, a linha é abandonada em beneficio do reconhecimento da rota em direção a Dacar, no Senegal.
Em 1923 é feito o reconhecimento da costa africana até Dacar e implantados campos de pouso em Agadir, Cabo Juby, Cisneros, Porto Etienne e Saint-Louis. Em 3 de maio é realizado o primeiro vôo Casablanca-Dacar por três aviões Bréguet 14 com Delrieu, Roig, Lefroit, Cueille, Bonnord e Hann. A linha é reconhecida de Toulouse à Dacar. Eles passam a utilizar rádios para a comunicação entre uma escala e outra.
A linha é estabelecida com muita dificuldade tanto no que diz respeito às condições técnicas dos aviões (pouca autonomia de vôo, fragilidade frente às intempéries) quanto à questão de passagem pelas possessões espanholas na África e ainda pelos territórios insubmissos à administração francesa.
O trecho entre Casablanca e Dacar sofria com os ataques de tribos mouras dissidentes das administrações francesa e espanhola que demandavam resgates pelos pilotos capturados após panes dos aviões no deserto, que eram freqüentes no início.
Em 1924 inicia na linha Toulouse-Dacar aquele que se tornaria uma lenda, Jean Mermoz.
Paralelamente à linha Toulouse-Dacar, em 1924 chega o momento de se fazer conhecer o projeto aos países da América do Sul. O Coronel Roig é enviado ao Brasil, ao Paraguai e à Argentina.
A travessia do Atlântico era feita por destróieres da Marinha francesa antes do aperfeiçoamento dos aviões que teve inicio a partir dos anos 30 com Mermoz.
Em dezembro de 1924 uma missão aérea da Latécoère chega ao Rio de Janeiro com três aviões Bréguet 14, A2, novos, com objetivos comerciais. Participam desta missão, entre outros, Roig, Lafay e Hamm. O objetivo era ligar o Rio de Janeiro à Buenos Aires por via aérea. Esta viagem já havia sido feita anteriormente pelo piloto brasileiro Edu Chaves, mas agora a questão era estabelecer uma linha regular.
Em 14 de janeiro de 1925 os aviões partem do Rio de Janeiro em uma missão de reconhecimento em direção ao sul, entre Rio e Buenos Aires, a bordo dos três Bréguet 14, com Roig, Vachet, Hamm, Lafay e três mecânicos, que aterrissam em São Paulo, Florianópolis, Porto Alegre, Pelotas, Montevidéu e Buenos Aires (Palomar). O percurso é realizado com sucesso. A foto de Florianópolis apresentada acima é desta primeira viagem de reconhecimento.
Em Florianópolis, do que se depreende dos acontecimentos, a missão teria passado pela ilha em 14 de janeiro de 1925 (provavelmente no campo do Campeche), como pode ser visto na foto reproduzida acima. Desconhecemos a existência de outras fotografias que testemunhem a atuação da companhia em Florianópolis.
Esta parece ter sido a primeira de uma série de viagens que passaram pela ilha que segundo registros mostram a ocorrência de cerca de 70 pousos realizados entre os anos de 1927 e 1931.
Concomitantemente a missão em direção ao sul, a Latécoère empreendeu um vôo de reconhecimento em direção ao norte (Rio – Recife).
Em 22 de maio de 1926, Mermoz é capturado pelos mouros entre Agadir e Cabo July após uma aterrissagem forçada, ele é restituído após o pagamento de um resgate de 1000 pesetas.
Em outubro de 1926 surge um novo integrante na linha, que também entrará para história, como aviador, negociador e escritor, Antoine de Saint-Exupéry. Ele é designado ao setor sul e depois a Cabo July, como chefe da praça aérea.
Nesta época é colocado em serviço o Laté 17, que possuía cabine para os passageiros e para o correio. Antes disso, a correspondência era carregada em caixas alongadas dispostas nas asas.
Em abril de 1927 a sociedade “Lignes Aériennes Latécoère” é vendida quase na totalidade ao empresário Marcel Bouilloux-Lafont e passa a se chamar “Compagnie Générale Aéropostale”.
A Companhia Latécoère à Toulouse continua sua existência com a fabricação de aviões.
Em 16 de abril de 1928 é realizado o primeiro vôo noturno entre Rio e Buenos Aires por Mermoz.
Em outubro de 1929 chega a Buenos Aires Antoine de Saint-Exupéry, diretor da Aeroposta Argentina que empreende o estabelecimento de uma nova linha em direção ao sul da Patagônia e o Estreito de Magalhães.
Em 12 de maio de 1930 Mermoz realiza a primeira travessia aérea entre Saint-Louis (Senegal) e Natal a bordo de um Laté 28, com 130 kg de correspondências, com o acompanhamento de navios. É estabelecida pela primeira vez a linha Toulouse-Santiago do Chile por via exclusivamente aérea.
Em 1931, em decorrência da crise de 1929, Lafont perde o subsídio que recebia do governo francês e acaba por sofrer uma liquidação judicial. Em 1933 o que restava da companhia foi absorvido pela recém criada Air France.
Em 7 de dezembro de 1936 Mermoz desaparece a 800 km a sudoeste de Dacar, pilotando o avião Cruz do Sul.
Antoine de Saint-Exupéry desapareceu no Mediterrâneo em um vôo de reconhecimento durante a 2ª Guerra Mundial. Seu corpo nunca foi encontrado. Os destroços o avião P-38 Lightning que ele pilotava foram encontrados em 2002.
A historia da Companhia Latécoère/Aéropostale/AirFrance comporta muitos outros detalhes interessantes que não constam deste pequeno apontamento.
Este texto é baseado no livro de Jean Gerard Fleury (piloto e repórter) intitulado “L ́Atlantique Sud de L ́Aéropostale à Concorde”, edição de 1974. O livro é um álbum fotográfico constituído a partir de fotos tiradas pelos pilotos ou por amigos durante as escalas realizadas. Ele escreveu outros livros entre eles, La Ligne que traz inúmeros detalhes desta aventura.
Sites interessantes que falam do assunto:
Seguem algumas fotos do álbum:

Rio de Janeiro – janeiro de 1925. Preparação do vôo de reconhecimento Rio – Buenos Aires no Campo dos Afonsos, próximo do Rio.


Praia a 100 km de Porto Alegre – 15 de janeiro de 1925. Um problema no motor obriga Vachet a pousar na praia. Seus dois companheiros aterrissam ao seu lado e o avião é consertado.


Escala em Porto Alegre s/d. Da esquerda para a direita, temos: Gauthier, Vachet, Estival, Lafay, Chevalier e Hamm.



Bahia 1925. Em um vôo de reconhecimento do Rio em direção ao norte, o avião de Vachet, tendo a bordo Roig e Gauthier, capota após a decolagem da Bahia, os pilotos saem ilesos.



Hamm, com falta de sorte, depois de uma pane no motor, bate em rochedos em uma praia entre a Bahia e Pernambuco. (fevereiro de 1925?)




Rio de Janeiro – 23? de janeiro de 1925. Depois de sete dias em Buenos Aires, Lafay e Vachet voltam ao Rio onde aterrissam depois de 56 horas de viagem, vinte horas a mais que na ida, em razão das más condições meteorológicas.






Laté 25 – monoplano de motor Renault de 450 ch. Foi utilizado na linha Rio – Buenos Aires inaugurada em 15 de novembro de 1927: transportava o correio e cinco passageiros. Estes aviões foram fabricados em Toulouse na fabrica da Latécoère.




Natal? 1927. Desde março de 1927, Paul Vachet, terceiro a partir da esquerda, realiza o reconhecimento completo e detalhado da linha Buenos Aires – Natal.



Buenos Aires – Mermoz, janela do seu escritório em Buenos Aires.




Exupéry. Buenos Aires? Acolhida de Exupéry quando do retorno da missão de reconhecimento da linha em direção ao Estreito de Magalhães.




Rio de Janeiro - fevereiro de 1933. A tripulação do "Arc-en-Ciel" recebida por Edmundo de Oliveira (sentado, primeiro à esquerda), representante do Brasil.




Exupéry na África - 1927



Exupéry e Guillaumet – 1930. Na ocasião em que Exupéry havia ido buscar Guillaumet (ele havia se acidentado nos Andes) para leva-lo a Mendoza.

Veja a segunda parte desta matéria.

Tradução e adaptação: Marcio R. Sandoval
email: sterlingnumismatic@hotmail.com
© 2010 Marcio Rovere Sandoval

domingo, 2 de maio de 2010

O COLECIONADOR

                                                                                         © 2010 Marcio Rovere Sandoval





"Freud a écrit que l ́argent, faute d ́appartenir au monde des désirs de l ́enface, ne procure en soi aucun plaisir. Les collections (projets exigeants dans lesquels le collectionneur investi du temps, de l ́energie et de l ́argent) sont tout autre chose : il s ́agit ici d ́une pulsion qui trouve bien ses racines dans l ́enfance. Nous avons tous eu notre collection d ́enfant : pierres, coquillages, cartes postales ou timbres. Mais pour certains cette pulsion, loin de s ́épuiser à la fin de l ́enfance, explose à l ́âge adulte. Pedro Corrêa do Lago est de ceux-là. Le mot plaisir, que revient si souvent dans son texte d ́introduction à cet ouvrage, est bien révélateur à cet égard. La recherche du plaisir pousse à l ́exclusivité de la possession. Mais ce penchant peut en éveiller um autre, en un sens opposé : le plaisir de partager avec d ́autres les merveilles de sa propre collection." (in, Cinq Siècle sur Papier. Autographes et Manuscrits de la Collection Pedro Corrêa do Lago. Paris : Éditons de La Martinière, 2004, p. 7)

"Freud escreveu que o dinheiro, por não pertencer ao mundo da infância, não traz em si nenhum prazer. As coleções (projetos exigentes nos quais o colecionador investe tempo, energia e dinheiro) são uma outra coisa: Aqui se trata de uma impulsão que encontra suas raízes na infância. Todos nós tivemos uma coleção na infância: pedras, conchas, cartões postais ou selos. Mas para alguns esta impulsão, longe de terminar com o fim da infância, explode na vida adulta. Pedro Corrêa do Lago é um destes. A palavra prazer, que aparece continuamente no texto de introdução desta obra, é bem reveladora desta consideração. A procura do prazer tem como impulso exclusivo a possessão. Mas estando propenso a despertar um outro, em senso oposto: o prazer de dividir com os outros as maravilhas de sua própria coleção."

(Trecho do prefácio do livro "Cinq Siècle sur Papier" de Pedro Corrêa do Lago[1], por Carlo Ginzburg, que é professor nas Universidades de Pisa e da Califórnia (U.C.L.A.) e autor de várias obras traduzidas em treze línguas. É especialista em "micro-história", e um dos maiores historiadores contemporâneos.


Tradução e adaptação: Marcio R. Sandoval
email: sterlingnumismatic@hotmail.com




[1] Pedro Corrêa do Lago nasceu no Rio de Janeiro em 1958, vem de uma família de diplomatas, fez estudos de economia, é bibliófilo e colecionador. Aficionado, reuniu a partir de 1970, uma das maiores coleções mundiais de autógrafos e de manuscritos. Foi presidente da Biblioteca Nacional (2003-2005).

quarta-feira, 28 de abril de 2010

NUMISMÁTICA – FERNANDO PESSOA E A RELATIVIDADE






Cédula de 100 escudos de 1988 (P.179f), emitida pelo Banco de Portugal homenageando o poeta Fernando Pessoa (1888-1935).

"O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,

Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,

É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele."
Alberto Caeiro

(in, Pessoa, Fernando. Poemas Completos de Alberto Caeiro. São Paulo: Nobel, 2008, p.42).

sábado, 23 de janeiro de 2010

BRASIL HOLANDÊS – MUSEU HISTÓRICO NACIONAL

Anais do Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, Vol.1, 1940, p.23-30.
O Museu Histórico Nacional publicou nos seus anais diversas matérias sobre numismática. A primeira delas no volume inicial de 1940 intitulada “O Meio Circulante no Brasil Holandês” de autoria do antigo Conservador da Sessão de Numismática daquele Museu.
Apesar de existirem estudos mais recentes sobre o assunto, o texto guarda informações interessantes.
Para acesso ao texto em formato pdf é só clicar no título, para ter acesso a página do Museu Histórico Nacional (clique aqui).



Moeda de XII florins com o monograma da W.I.C (West-Indische Compagnie) ou GWC (Geoctroyerd Westindische Compagnie), que circularam no Brasil Holandês. Os valores eram de III, VI e XII florins (moedas de ouro) dos anos de 1645 e 1646 e de XII stuivers (soldos) de prata de 1654. Estas moedas são muito raras, existem menos de uma centena das de ouro e apenas 5 das de prata.

Obs.: A imagem da moeda provém do site angelinicoins.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

THOMAS DE LA RUE & COMPANY. LIMITED.

                                                                                         © 2010 Marcio Rovere Sandoval


A empresa inglesa Thomas de La Rue foi criada em Guernsey por volta de 1813 com o nome de "L’lmprimerie de T. de La Rue". Produziu cédulas para Brasil de 1949 a 1964 (algumas destas estampas circularam até 1975), forneceu, também, as primeiras 500 séries da estampa A da cédula de Cr$ 100.00 (cem cruzeiros) lançadas em circulação em 1970 pelo Banco Central e depois produzidas pela Casa da Moeda do Brasil.
Em 1958 mudou de denominação e passou a se chamar De La Rue Company Limited, depois em 1991, passou a se chamar De La Rue plc. Produziu suas primeiras cédulas de banco para as Ilhas Mauricio em 1860.
Transcrevemos dois textos muito interessantes que contam a história da empresa, o primeiro é de autoria de F. dos Santos Trigueiros e o segundo de Frederic Sondern Jr..
Há de se notar que o segundo texto foi realizado em 1960, momento que a empresa ainda imprimia boa parte do papel-moeda que circulava no mundo. Nos dias de hoje houveram mudanças significativas eis que muitos países passaram a imprimir suas próprias cédulas, principalmente por questões de segurança e de economia de divisas como é o caso do Brasil.










Detalhe da cédula de 1 libra de Guersey (P.48b) de 1980-89. Na parte inferior do símbolo temos: DE LA RUE, marca da empresa impressora.



F. dos Santos Trigueiros – Dinheiro no Brasil
“A Thomas de La Rue foi criada em 1813, em Guernsey, com o nome de "L’lmprimerie de T. de La Rue". Três anos depois, era transferida para Londres. Seu fundador Thomas de La Rue nasceu naquela cidade em 24 de março de 1793.
Em 1831 imprimiu um exemplar do Novo Testamento em ouro. No ano seguinte o Rei Guilherme IV concedeu-Ihe uma Carta Real de Patente para a fabricação de naipes, por processo tipográfico. Ate aquela época, os naipes eram desenhados de maneira muito trabalhosa e coloridos com aquarela, ou impressos a uma só cor e depois pinta dos a mão. Portanto, foi T. de la Rue o pai das cartas de jogo modernas. Durante anos fez baralhos para membros da Família Real Britânica, assim coma para Reis, Rainhas e Chefes de Estado da época. Ainda hoje os fabrica.
Em 1845, para atender a procura de envelopes, devido a criação do selo postal, De la Rue inventou a primeira máquina de fazer envelopes, hoje no Museu de Ciências de Londres.
Os conhecimentos adquiridos na impressão de cartas de jogar, permitiram um desenvolvimento que levou a firma a fazer selos postais, tendo de 1879 a 1910 fabricado todos os selos da Inglaterra. A firma se orgulha em ter impresso único selo dos Estados Unidos, feito no estrangeiro: o 5 centavos emitido pelos Estados Confederados da América, durante a Guerra Civil.
Com o aumento do uso de dinheiro impresso. nova oportunidade surgiu nos negócios da empresa, que se iniciou em 1864 fazendo o bilhete de 5 libras para o Governo de Maurícia, encadernado em talão de 500 exemplares. Em 1866, preparou bilhetes de banco de 5 liras para a Itália. Em 1940 teve noventa por cento de suas instalações fabris destruídas por bombardeio aéreo.
Em 1942 construíram um abrigo subterrâneo, a mais de 25 metros de profundidade, no Oeste da Inglaterra, que no final da guerra guardavam centenas de caixas de bilhetes de banco, impressos para os Governos expatriados da França, Tchecoslováquia, Polônia. Grécia e Bélgica, para serem usados depois da liberação dos seus respectivos países.
O aperfeiçoamento de suas máquinas impressoras permitiu que ganhasse, em 1957, a concorrência para fornecer 8 máquinas para o Bureau of Engraving, em Washington, onde são impressos dólares americanos. Dai em diante. crescendo sempre. se tomou empresa fornecedora de papel-moeda a vários países. Forneceu ao Brasil de 1949 a 1964, e fez as primeiras 500 séries da estampa A da cédula de Cr$ 100.00 lançadas em circulação em 1970. (in, Dinheiro no Brasil, F. dos Santos Trigueiros, Leo Cristiano Editorial, 2a edição, 1987, p.168-169).



Reverso da cédula de 5 colones da Costa Rica (P.238e) de 1992, "Alegoria do Teatro Nacional, J. Villa, 1897", produzida pela Thomas de La Rue & Company. (clique para ampliar)

Frederic Sondern, Jr.
(Condensado de “The Finacial Times”)
Thomas De La Rue & Co. - impressores mundiais de papel-moeda - vivem empenhados numa batalha de Sagacidade com falsários e outras pessoas que conspiram contra o seu produto.
“Nos Arredores de Leeds, no norte da Inglaterra, existe um grande edifício de tijolos que é guardado tão rigorosamente como qualquer instalação nuclear ou de teleguiados. Nenhuma pessoa ou embrulho entra ou sai dali sem meticuloso exame. Há guardas por toda a parte. Caminhões que parecem veículos comerciais comuns saem periodicamente dos seus portões. Não há blindagem nem guardas armados nos caminhões. Mas cada um deles raramente fica longe das vistas dos carros de polícia que também não chamam a atenção e que patrulham o seu caminho. A carga dos caminhões consiste em pesadas caixas revestidas de metal, cujo destino pode ser Berna, Aqaba, Caracas ou Bancoc. Cada caixa leva uma fortuna, freqüentemente vultosa - talvez em francos suíços, em dinares da Jordânia, em bolívares da Venezuela ou em ticais da Tailândia. Todos eles acabaram de ser impressos por Thomas De La Rue & Co., um dos maiores impressores de papel-moeda do mundo. Dos portões de De La Rue saem semanalmente cerca de 20 milhões de notas para governos do mundo inteiro. Uma vez que a divisão de notas da firma desenha, grava e imprime o dinheiro de 92 países, os seus desenhistas devem ser versáteis de maneira a satisfazer o gosto variável dos tesouros e dos bancos nacionais. Os suíços, por exemplo, apreciam um desenho sóbrio, simples, de preferência moderno, para as suas notas. O Irã quer um desenho extremamente complicado, que lembra um tapete persa. A Nova Zelândia pede motivos maoris. O Camboja se especializa em dançarinas. Muitos países latino-americanos preferem notas que mostrem os retratos dos presidentes, as armas nacionais e os edifícios públicos. Depois que o desenho colorido de uma nova nota é submetido à apreciação de um governo, e aprovado, passa às mãos dos gravadores. Há apenas uns 100 gravadores no mundo com perícia suficiente para fazer chapas de notas de superior qualidade. Desses, 20 estão com De La Rue. Artífices meticulosos, eles são de temperamento muito parecido - calmos, agradáveis e dotados de infinita paciência. Dedicam-se à tarefa de reproduzir um desenho no aço com toda a exatidão. Prima - donas à sua maneira, não podem ser apressados nem perturbados. As mesas de trabalho na grande sala de gravação, agradavelmente decorada, são bem separadas umas das outras, e não é raro ver-se um gravador a olhar vagamente por uma janela ou a andar de um lado para outro de cachimbo aceso, talvez pensando na melhor maneira de produzir o efeito de uma vela enfunada ou de uma montanha espetacular. Os desenhos complexos não têm valor apenas estético. Ajudam a confundir os falsários. Assim também o faz o torno geométrico. Essa máquina de cortar, extremamente complexa, grava numa chapa os complicados círculos, volutas e laços em geral usados nas margens das notas. Não há mão humana capaz de produzir sequer um fac-símile razoável. Além disso, um torno geométrico não pode copiar o trabalho feito por outro, salvo se quem o fizer funcionar tiver a f6rmula do original e ajustar de acordo com ela o seu labirinto de engrenagens e excêntricos. Esses tomos custam 16.000 libras, só são vendidos aos impressores de boa reputação e são cuidadosamente guardados. Há duas outras características numa nota bem, feita que nem mesmo um falsário com o melhor aparelho de reprodução fotográfica pode imitar a tinta e o papel. As tintas inimitáveis da Companhia De La Rue, preparadas segundo fórmulas secretas, são famosas há muitos decênios. Só três firmas no mundo ocidental fabricam o papel peculiarmente duro e inteiramente feito de trapos com a consistência estralejante de uma autêntica cédula. Essas firmas são: Crane, que é a fornecedora do Tesouro dos Estados Unidos; Portals, na Inglaterra, que fornece o papel à De La Rue, e o Office Français des Papiers Surfins et Fiduciaires, de Paris, que abastece o Banco da França. Todas as folhas fabricadas são contadas e escrituradas até ao último centímetro quadrado. Muitos são os governos que acrescentam ao papel outra característica de segurança a filigrana. Ninguém descobriu ainda um meio realmente satisfatório de falsificar uma filigrana. Apesar disso, a eterna batalha entre o impressor e o falsário continua. “É sempre a nossa sagacidade contra a deles”, diz um dos “delaruvianos”, como eles se chamam. A companhia tem alguns artifícios difíceis de superar. Um deles é o “fio de segurança”, um fino fio de matéria plástica que se insere no papel por ocasião da fabricação. Os moedeiros falsos imitam esse fio imprimindo em lugar dele uma linha estreita. Mas é fácil identificar a nota falsa, bastando para isso passar a unha sobre ela. Por outro lado, com o fio de segurança, é possível agora para os bancos examinarem com rapidez centenas de notas por meio de uma máquina que automaticamente separa as falsas. A precisão cada vez maior dos métodos de reprodução fotográfica tem dado muitas dores de cabeça aos homens da De La Rue. Uma das principais providências que tomaram em sua defesa foi o emprego de uma série de delicados tons claros que as melhores máquinas de fotografia a cores não podem reproduzir exatamente, mas que podem ser distinguidos até pela vista de um leigo. Entretanto, a maior contribuição da Companhia De La Rue para a fabricação de notas consiste nas suas incomparáveis máquinas de impressão. No Banco da Inglaterra, algumas notas inglesas são impressas em máquinas da De La Rue e há dois anos nove dessas máquinas foram instaladas na Oficina de Gravura e Impressão de Washington, nos Estados Unidos. Até há pouco tempo era necessário umedecer o papel das notas antes da impressão, em virtude da sua extraordinária dureza. Isso freqüentemente apresentava inconvenientes: quando o papel impresso secava, era freqüente as linhas saírem ligeiramente deformadas. Mas as prensas da De La Rue imprimem com tal pressão e exatidão que já não é necessário umedecer o papel, e todas as folhas saem absolutamente perfeitas à razão de 2.500 por hora. Isso teve uma importância particular para o Tesouro dos Estados Unidos pelo fato de ele tradicionalmente não empregar filigranas nem tintas especiais, dependendo da absoluta precisão e clareza da impressão. A Casa De La Rue foi fundada em 1813 por um impressor de múltiplas aptidões e imensamente engenhoso, Thomas De La Rue, que se especializou na impressão de papel de cartas em relevo e em cartas de jogar. Quando os selos postais começaram a ser usados na Inglaterra, dedicou-se a eles e durante 30 anos teve o contrato exclusivo da impressão de todos os selos ingleses. Começaram então a chegar numerosas encomendas de selos de outros países. No começo do século, a enorme expansão mundial da indústria e do comércio produziu uma repentina procura do papel-moeda para substituir o ouro e a prata, mais difíceis de manusear. Alguns países tentaram imprimir o seu dinheiro e se viram desastrosamente às voltas com os falsários. Em toda a parte havia muito poucas pessoas com a aptidão técnico - artística, o conhecimento mecânico e as máquinas complicadas e caras necessárias para fazer notas relativamente garantidas contra os moedeiros falsos. Quando, em 1901, o Governo da Tailândia pediu ao Banco da Inglaterra que lhe imprimisse o dinheiro, o Banco se escusou, mas sugeriu De La Rue. E foi assim que começou a grande indústria de notas. Talvez o mais duro golpe já sofrido pelo mundo da impressão de notas tenha sido - coisa que pode tornar a acontecer a falsificação da moeda de um governo por outro durante a Segunda Guerra Mundial. Os nazistas organizaram um plano para descontrolar o sistema monetário britânico por meio da introdução furtiva de notas de cinco libras no Reino Unido e espalhando-as pelo mundo. As falsificações eram tão boas que enganaram até os peritos. Felizmente para a Inglaterra, a guerra acabou antes que uma quantidade considerável dessas notas pudesse ser distribuída. Pensou-se durante muito tempo que as chapas das notas de cinco libras dos nazistas tinham sido jogadas por homens das tropas de assalto em fuga num lago das montanhas na Áustria; recentemente maços de notas falsificadas do Banco da Inglaterra foram retirados do Lago Töplitz. Os detalhes do plano nazista são ainda um segredo sigilosamente guardado. Mas, ha cerca de três anos, o Banco da Inglaterra começou a por em circulação notas de cinco libras de espécie inteiramente nova. "O povo a princípio não gostou da mudança", disse um funcionário do Banco. "Tivéramos durante tanto tempo as notas velhas e bem conhecidas. Alas era preciso." Nada mais disse. As novas notas de cinco incorporam todos os progressos mais recentes - tons claros, fios de segurança, saliências no papel sensíveis ao tato e outras características secretas, inclusive tintas e papel que agem eletronicamente de maneira especial. Muitas dessas coisas foram inovações da De La Rue. -Acreditamos que continuaremos a dar muito trabalho aos falsários, tanto particulares como de algum governo, se houver necessidade - diz um delaruviano. (in, Seleções do Reader’s Digest, Tomo XXXVII, nº 217, Fevereiro de 1960, Editora Ypiranga S.A, Rio de Janeiro, p. 73 a 77).



Antigas cartas de baralho produzidas pela Thomas de La Rue & Company.

Veja um vídeo sobre a Thomas de La Rue e um  artigo sobre a empresa Bradbury Wilkinson que foi comprada pela De La Rue.

Autor: Marcio R. Sandoval
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© 2010 Marcio Rovere Sandoval