segunda-feira, 21 de maio de 2012

JOAQUIM MURTINHO E O CASO DA CÉDULA DE 2 MIL-RÉIS DE 1900



Fig. 1 – Anverso da cédula de 2 mil-réis da 9ª Estampa do Tesouro Nacional[1] (1900-1920), impressa pela American Bank Note Company de Nova York (R082s; P.11). No medalhão temos “Zella”, gravura de Sukeichi Oyama, a partir do retrato de autoria de Conrad Kiesel denominado "Saudade".

Uma historia surpreendente

                        Em 1860, um jovem mato-grossense de apenas 12 anos, empreendeu uma viagem de sua cidade natal, Cuiabá, até a Capital do então Império do Brasil, Rio de Janeiro. Partiu para realizar seus estudos, como seria de se esperar de um filho da oligarquia local. Seguiu em lombo de mula através do sertão, transpondo rios a nado e todos os rigores de uma viagem similar, em uma época que o interior do Brasil era ainda coberto de matas. O périplo dura cerca de três meses. O nome deste jovem? Joaquim Duarte Murtinho (1848-1911).
                 Após estudos preliminares, ingressou na Escola Politécnica, no entanto, não se tornou engenheiro e sim um dos mais disputados médicos homeopatas do Rio de Janeiro.
                        Com a mudança do Regime entrou para a política, foi Senador da República (1890-1896, 1903-1906 e 1907 a 1911) e Ministro da Fazenda de Campos Salles (1898-1902).
                        Foi um dos homens mais ricos e influentes de sua época, celibatário convicto, nunca veio a constituir família.
                      Na política fez muitos inimigos, entre eles o deputado sergipano Fausto Cardoso.
                      Entrando no campo das hipóteses[2], passamos a descrever o que provavelmente aconteceu no caso, dito escândalo, que se tornou famoso na época e que ainda provoca discussões no âmbito da história e da numismática, vejamos:
                    Por volta de 1890-92[3], Joaquim Murtinho então com quarenta e poucos anos, mas já ocupando o posto de Senador da República, encarregou o jornalista Artur Guaraná, que fazia a cobertura de assuntos econômicos para O Paiz, de lhe auxiliar na procura de uma jovem para servir de modelo para a futura cédula de 2 mil-réis do Tesouro Nacional.
                        A estampa da cédula de 2 mil-réis em circulação na época (8ª estampa) havia sido aproveitada do Império, substituindo-se a efígie de D.Pedro II pela Alegoria da Justiça.
                        Agora se pretendia substituir a estampa e para isso, procurava-se uma imagem de uma jovem bonita, do tipo bem brasileiro, para representar a República.
                        O jornalista realizou a busca e encontrou no estúdio fotográfico Guimarães, estabelecido na esquina das ruas da Assembléia com Gonçalves Dias, a fotografia de uma jovem conhecida nas rodas literárias e jornalistas de São Paulo, deixando o seu verdadeiro nome em sigilo, referindo-se a ela por "Sinhazinha". Ela vivia com sua mãe e colaborava com jovens poetas e prosadores, para o Diário Popular e outros periódicos de pouco apuro literário.
                        Esta jovem foi apresentada a Joaquim Murtinho para servir de modelo a cédula da República. Ela viajou para o Rio de Janeiro e em seguida para a Europa. O envolvimento amoroso da jovem com Joaquim Murtinho parece ter ficado evidenciado no desdobrar destes fatos.
                        Na Europa, a jovem, após ter passado por Lisboa e provavelmente por Paris, dirigiu-se para Viena, onde foi apresentada ao pintor Conrad Kiesel (1846-1921) para que este pudesse realizar os retratos que seriam utilizados na futura cédula.
                        O pintor realizou vários retratos, entre eles "Dolores" e "Saudade" que foram em seguida encaminhados aos Estados Unidos, por influência do Ministro da Fazenda, onde a empresa American Bank Note Company (ABNCo.), procederia à realização das gravuras necessárias para a confecção das cédulas.
                        A ABNCo. encarregou o gravador japonês Sukeichi Oyama (1858-1922), que era um funcionário da empresa (1891-1899), de efetuar as gravuras. Ele realizou pelo menos duas gravuras que seriam utilizadas para a confecção das cédulas, uma denominada "Zella" (1893), obtida a partir do retrato de autoria de Conrad Kiesel, denominado "Saudade", e a outra, "Mima" (1894) obtida a partir do retrato denominado "Dolores", do mesmo pintor.
                        Como era praxe na ABNCo., eles utilizaram a gravura "Zella", primeiramente, em três oportunidades, no bilhete de 20 dólares de 1897 (PS627) do Bank of Nova Scotia (Província da Nova Escócia – Canadá), no bilhete de 20 pesos de 1898 (PS180) do El Banco de Concepción (Chile) e no bilhete de 100 pesos, também de 1898 (PS199) do El Banco de Coahuila (México).
                        Em 1900, finalmente, a gravura "Zella" foi utilizada na cédula brasileira (2 mil-réis de 1900, da 9ª estampa do Tesouro Nacional – R082; P.11) e acabou por causar um grande furor na Câmara dos Deputados, sendo o Ministro da Fazenda acusado de reproduzir a figura de uma "meretriz" nos dinheiros do Estado.

Perseguindo a verdade

                        Tomamos contato com esta questão há alguns anos através do livro de F. dos Santos Trigueiros, Dinheiro no Brasil, cuja primeira edição é de 1966 e de dois periódicos, um da SNB (n° 50, de 1976) e outro da SFN de João Pessoa (n° 68 de 2001).
                        No entanto, vejamos esta questão desde o início.

A acusação na Câmara dos Deputados

                        Na sessão de 6 de setembro de 1900, o Deputado sergipano Fausto Cardoso, em linguagem um tanto rebuscada, relatou:


“(...) Mas o orador atacou o Sr. Ministro da Fazenda[4], desde o primeiro dia, em que falou até o último, e S. Ex. disse que o orador se atirou a ele com a linguagem de arrieiro, com palavras insólitas, ferindo a sua reputação ilibada, etc., etc.
Porventura a linguagem de arrieiro é aquela em que disse que as notas do Tesouro trazem como símbolo da República retratos de meretrizes?
Não é demais repetir, quando já o disse o orador e consta dos Anais, que isto é uma verdade.
Mas denunciar um fato dessa ordem é rebaixar o Parlamento, é linguagem de arrieiro?
Não. O fato avilta a quem o praticou e não a quem o denunciou. E, em vez da grita que se levantou, o que se devia fazer era demonstrar que o Sr. Ministro da Fazenda não tinha realmente posto nas notas do Tesouro retratos tais.
Isto não se fez, nem se pode fazer, porque aqui está uma nota em que figura uma das meretrizes mais conhecidas na Capital Federal: Sra. Prates. (o orador mostra uma nota do Tesouro, na qual diz estar estampado este retrato.).
Quem poderá negar que esta figura que aqui esta não é dessa mulher tão conhecida?
Mas, dirão: “não deveis dizer, deveis poupar uma vergonha à nossa pátria.”.
O Sr. Benedicto de Souza – Mas V.Ex. pode garantir que foi o Sr. Ministro que a mandou estampar ai?
O Sr. Fausto Cardoso – Basta.” (Brasil. Congresso Nacional. Anais da Câmara dos Deputados. V.5, Rio de janeiro, 6 de setembro de 1900, p.144-145). (grifo nosso).

                        O Deputado Fausto Fragoso era inimigo político declarado do então Ministro da Fazenda Joaquim Murtinho, vejamos um trecho do seu discurso de 4 de setembro de 1900:

“Sr. Presidente, apesar de ter o espírito cansado e o corpo em ruínas, continuo a desempenhar-me do compromisso, que, na defesa dos interesses nacionais, tomei para comigo mesmo, de mostrar à luz da maior evidência que a doutrina e a conduta administrativa do Sr. Ministro da Fazenda são contrárias ao Direito, à Moral, às Leis, às grandes conveniências públicas.” (Idem, 4 de setembro de 1900, p.63)

                         Até mesmo Rui Barbosa teria entrado na discussão, afirmando "ser autêntico o ignóbil corpo de delito" acrescentando não haver nada na efígie daquela mulher que não nomeasse uma rainha do mundo obsceno. [5]


O testemunho da historiografia

                        Em 1990, o historiador José Murilo de Carvalho na obra A Formação das Almas: O Imaginário da República no Brasil, na parte que diz respeito ao uso da alegoria feminina representando a República, nos traz:


“O exemplo mais escandaloso de desmoralização da República por meio da representação feminina veio de um ministro do governo Campos Sales. Em 1900, o deputado Fausto Cardoso denunciou na Câmara dos Deputados o ministro da Fazenda, Joaquim Murtinho por ser “um homem que manda reproduzir nas notas do Tesouro, nos dinheiros do Estado, como símbolo da República, o retrato de meretrizes. Segunda a denúncia que provocou tumulto na Câmara e levou a suspensão da sessão, mas que não foi contestada, a foto seria de uma tal Sra. Prates, uma das meretrizes mais conhecidas da capital. Segundo outras versões, seria de Laurinda Santos Lobo, sobrinha e amante de Murtinho. No reverso da nota, a República era representada por uma clássica Palas Atena, de capacete, escudo e lança. A nota é um resumo precioso. A República, quando não se representava pela abstração, clássica ou romântica, só encontrava seu rosto na versão da mulher corrompida, era uma res publica, no sentido em que a prostituta era um mulher pública.” (in, A formação das Almas: O imaginário da República no Brasil. José Murilo de Carvalho. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p.88/89). (grifo nosso).

                        Em 1996, o historiador Fernando Antonio Faria, retomando o mesmo assunto na obra Arquivo das Sombras: A privatização do Estado brasileiro nos anos iniciais da Primeira República, comentou:
“As relações promiscuas entre negócios e política vigentes eram o reflexo invertido de uma visão de mundo incapaz de ordenar e distinguir os limites do campo público do privado, numa sociedade em que ainda, a ordem burguesa encontrava fortes resistências a sua implantação. Murtinho pertenceu a uma geração que presenciou a universalização do dinheiro como valor fundamental da sociedade. Sua existência esteve toda voltada para acumulação de riqueza. Difícil identificar algum ato de sua vida adulta que não tivesse por trás de si a perspectiva de ganho material. Seu contato com o mundo era orientado pelo dinheiro e sua avaliação era precedida por um cifrão. Como o dinheiro público sempre teve a mesma cor e formato de dinheiro privado, a confusão entre estas duas instâncias era insolúvel em sua maneira de ver o que lhe rodeava. Modelo acabado de que acabamos de dizer foi o caso da cédula de Rs. 2$000. Utilizaremos mais uma vez duas versões para expor o episódio: uma crítica e outra justificante. José Murilo de Carvalho, em sua obra sobre A Formação do Imaginário da República no Brasil, na parte destinada ao estudo do uso da alegoria feminina para representar a República, apontou Joaquim Murtinho como o responsável pelo “exemplo mais escandaloso de desmoralização da República por meio da representação feminina”[6] O historiador refere-se à denúncia feita pelo fervoroso adepto de Herbert Spencer, deputado Fausto Cardoso, de que o ministro da Fazenda Joaquim Murtinho era “um homem que manda reproduzir nas notas do Tesouro, nos dinheiros do Estado, como símbolo da República, o retrato de meretrizes[7] 
A figura feminina impressa na cédula de Rs. 2$000 em 1900, segundo o parlamentar sergipano era atribuída à senhora Prates, prostituta de renome no Rio de Janeiro. A afirmação bombástica, seguida de exibição da cédula, apesar de ter provocado a suspensão da sessão da Câmara dos Deputados, não foi refutada. A imagem do mau exemplo que provocou tal indignação, segundo outros, não era da citada senhora, mas de Laurinda Santos Lobo, sobrinha e amante do celibatário de Santa Teresa. O historiador mineiro concluiu que a República "só encontrava seu rosto na versão da mulher corrompida, era uma res publica, no sentido em que a prostituta era uma mulher pública”. [8]
O mesmo caso narrado, quase meio século depois de ocorrido pelo jornalista do Jornal do Commercio, que assinava suas matérias com as iniciais "J.L", assumiu feições distintas. O articulista reproduziu em sua coluna o diálogo que mantivera na semana anterior com Juvenal Murtinho na tradicional rua Gonçalves Dias, no centro da cidade do Rio de Janeiro, publicado no citado jornal durante a semana comemorativa do centenário do nascimento do ilustrado brasileiro. Nessa versão, o ministro da Fazenda quando da emissão de papel-moeda em 1900, decidira decorar a nova cédula de Rs. 2$000 com uma estampa feminina jovem, bonita e com tipo bem brasileiro. Para tanto encarregou o jornalista Artur Guaraná, que fazia a cobertura de assuntos de economia para O Paiz, de se desincumbir da tarefa[9].
Após levantamento feito pelo periodista no estúdio fotográfico Guimarães, estabelecido na esquina das ruas da Assembléia com Gonçalves Dias, localizou a fotografia de uma moça conhecida nas rodas literárias e jornalísticas da capital de São Paulo, no período 1895-1898, cujo verdadeiro nome foi omitido por "J.L.", referindo-se a ela por "Sinhazinha". A jovem senhora vivia com sua mãe e colaborava com jovens poetas e prosadores, para o Diário Popular e outros periódicos de pouco apuro literário. O autor, em momento algum, estabeleceu qual era a fonte de onde ela tirava seu sustento. Repentinamente, "Sinhazinha" viajou para o Rio de Janeiro e tempos após para a Europa, retornando à capital brasileira em virtude de moléstia grave que contraíra em Lisboa. Teria falecido no ostracismo[10] . Outra lacuna deixada pelo articulista foi o destino da mãe da jovem.
O jornalista assinalou que, logo depois de ter entrado em circulação a nova cédula, levantou-se uma enorme onda de indignação que, do Rio de Janeiro, se irradiou para o restante do país, com a condenação daquele abuso de poder. A efígie seria de uma pessoa a quem Murtinho "prodigalizava os seus favores em troca daqueles que a dama não lhe regateava"[11]. Com toda a impressão presente em sua formulação e com a característica escorregadia de sua redação, o depoimento feito em 1948 não entrava em choque com a interpelação feita por Fausto Cardoso na Câmara dos Deputados em 1900, e resgatada por José Murilo de Carvalho em 1990.
O spenceriano convicto, por certo, jamais poderia imaginar que sua decisão provocaria tanta celeuma, ganhando até mesmo o epíteto de escândalo. Ora, para o solteirão de Santa Teresa tudo era proveniente do dinheiro e a forma do dinheiro retornava. Havia dedicado sua vida inteira ao trabalho de amealhar o vil metal, e só através dele conseguia comunicar-se com os seus contemporâneos, mesmo tratando-se de questão tão intima. No caso em tela, ele fora presa de sua própria armadilha, armada na interseção entre público e privado." (in, Arquivo de Sombras: A privatização do Estado brasileiro nos anos iniciais da Primeira República. Fernando Antonio Faria. Rio de Janeiro, Sette Letras, c.1996, p.59-62). (grifo nosso).

                         Acreditamos que esta última versão contida no Jornal do Commercio é a que mais se aproxima da realidade, motivo pelo qual a inserimos na primeira parte desta matéria, como sendo a hipótese mais provável destes acontecimentos.

A questão no âmbito da Numismática

O Meio Circulante[12] em 1900


                         Durante o Império circularam 23 cédulas[13] emitidas pelo Tesouro Nacional e impressas pela empresa American Bank Note Company de Nova York (ABNCo.). As primeiras cédulas impressas por esta empresa para o Tesouro Nacional foram emitidas em 1869, nos valores de 5$000 réis (7ª estampa) e 10$000 réis (6ª estampa).
                        Tivemos uma outra empresa que realizou impressões para o Tesouro Nacional, a inglesa Perkins, Bacon & Peth (e seus sucessores), esta desde 1835.
                        Daquelas 23 cédulas da ABNCo, 20 continuaram em circulação após a queda do Império (todas com a efígie do Imperador D. Pedro II), sendo que a última somente perdeu o valor[14], em 1922 (ano do Centenário da Independência).
                        As emissões da República tiveram início em 1890, com quatro valores, 2$000, 5$000, 10$000 e 20$000 réis, com estampas aproveitadas do Império, substituindo-se a efígie do Imperador por símbolos republicanos. O mesmo aconteceria em 1891 com a emissão da cédula de 1$000 réis em que temos o Palácio Imperial (hoje Museu Imperial) substituindo a efígie de D. Pedro II.
                        A primeira cédula “própria” da era republicana viria apenas em 1892, a cédula de 100$000 réis, com a efígie da República no anverso, portando o barrete frígio[15]. Todas estas cédulas foram impressas pela ABNCo.
                        Desta forma, em 1899 e nos primeiros meses de 1900, tínhamos 20 cédulas do Império que continuavam a circular, 5 cédulas que tiveram a estampa aproveitada do Império (com a adaptação de símbolos republicanos ou a substituição da imagem do Imperador) e 7 novas estampas da República, perfazendo 32 estampas, todas impressas pela ABNCo.[16]
                        A cédula de 2$000 da 9ª estampa (objeto desta matéria) vinha substituir a de 2$000 réis da 8ª estampa, que havia sido aproveitada do Império, como vimos.[17]
                        Em 1900, teríamos ainda a emissão de outros dois valores, de 20 e 50 mil-réis, respectivamente da 9ª e 8ª estampas, impressas pela impressa Bradbury, Wilkinson & Company Limited (BWC), de Londres. Esta empresa seria adquirida pela ABNCo. em 1903 e mantida como subsidiária autônoma até 1986 quando foi vendida para a De La Rue.

A American Bank Note Company (ABNCo.)

                        Empresa criada por Robert Scot em 1795 e consolidada em 1856/58. Segundo F. Trigueiros, a história da empresa esta ligada a Paul Revere, que "...em 1775, pela primeira vez, empregou o processo calcográfico na impressão de valores, ou seja, gravou nos Estados Unidos da América o primeiro bilhete de banco, sendo considerado o Pai da Indústria" (op.cit. p.171). A empresa no decorrer dos anos produziu, além de cédulas bancárias, selos postais, certificados de ações, cheques de viagem, passaportes, cupons alimentares e outros documentos de segurança.
                        O ABNCo. foi uma das maiores empresas de impressão de papéis de segurança do mundo, quiçá a maior. Dentre as concorrentes podemos citar a inglesa Thomas de La Rue & Company (TDLR), hoje, apenas De La Rue.
                        A empresa produziu cédulas bancárias até na década de 80. Seu prédio em Manhattan (70, Broad Street) que foi construído entre 1907/1908 em estilo neoclássico foi vendido a investidores imobiliários em 1984. O antigo material da empresa, como os modelos de cédulas (specimens), provas, ensaios e até mesmo chapas de impressão, começaram a ser leiloados a partir de 1993 e ainda podem ser encontrados nos dias de hoje.
                        A empresa continua existindo, agora com nova denominação American Banknote Corporation (grupo ABnote) e sempre no campo de documentos de segurança.
                        Atuava no Brasil e foi recentemente vendida, produzia entre outros, cartões telefônicos.
                        Data de 1857 os primeiros trabalhos realizados pela ABNCo. para o Brasil. Foram os bilhetes da Caixa Matriz do Banco do Brasil (1853-1889). Para o Tesouro Nacional (Órgão que se ocupava do Meio Circulante antes da criação do Banco Central), as primeiras cédulas foram realizadas em 1869, 5 e 10 mil-réis, apresentando a efígie de D. Pedro II, ainda jovem, e as últimas em 1966, cédula de 10.000 cruzeiros (C060 e C060A), com Alberto Santos Dumont e o 14 bis.
                        Portanto, a ABNCo. forneceu cédulas para o Brasil de 1857 a 1966 (109 anos[18]), uma relação mais do que centenária.
                        Na concepção das cédulas, a empresa utilizava, com freqüência, dos motivos desenvolvidos por seus gravadores em mais de uma cédula e para países diferentes (como é o caso que analisamos aqui).
                        No entanto, na maioria das vezes estes temas estavam em consonância com a cultura e história nacional. Existem alguns casos esparsos em que esta regra não foi observada.

O gravador Sukeichi Oyama (1858-1922)

                        Sukeichi Oyama nasceu em Shimo-arada (distrito de Kagoschima), no Japão. Na adolescência foi para Tóquio e em 1875 entrou para a Escola de Takashima (hoje Universidade Nacional de Yokohama) para aprender inglês.
                        Devido a suas boas notas foi selecionado para estudar nos Estados Unidos, lá passando dois anos. Após retornou ao Japão foi contratado pelo Departamento de impressão do Ministério das Finanças, que havia sido estabelecido em 1871.
                        Em 1885, com nove anos de experiência, ele foi enviado aos Estados Unidos para aprender desenho e gravura em cédulas bancárias, no U.S. Bureau of Engraving and Printing (BEP).
                        Em 1890, retornou ao Japão por um curto período e em 1891 voltou para os Estados Unidos onde foi contratado pela ABNCo. (localizada nesta época na Trinity Place no distrito financeiro de Manhatan) como gravador.
                        Durante o período de 1891 a 1899 trabalhou como gravador na ABNCo. Este é o período que no interessa na sua carreira.
                        Em 1900 ele retorna ao Departamento de Impressão do Japão, onde ele gravou, entre outros, o retrato de Katamari Fujiwara, para a cédula de 100 yen (P.33).
                        Ele chegou a chefe daquele departamento e foi um dos introdutores do estilo Ocidental no Japão. Morreu em 1922.
                        Entre as gravuras que realizou[19] e que são pertinentes a esta matéria, temos:

Vinheta[20]    Denominação      Data         Inspiração
C-515                 Zella                12/1893      retrato "Saudade" de Conrad Kiesel[21]
C-537                 Reverie             5/1894       pintura de Paul Thumann's – "The Fates"
C-538                 Mima                 1894         retrato "Dolores" de Conrad Kiesel

                        A gravura "Zella", como vimos, foi utilizada pelo menos durante cinco oportunidades, vejamos:

  1. 20 dólares de 1897 (PS627) do Bank of Nova Scotia (Província da Nova Escócia – Canadá).
  2. 20 pesos de 1898[22] (PS180) do El Banco de Concepción (Chile).
  3. 100 pesos de 1898 (PS199) do El Banco de Coahuila (México).
  4. 2 mil-réis de 1900, (P.11; R082) 9ª estampa do Tesouro Nacional (Brasil)
  5. 2 mil-réis de 1918, (P.13; R084) 11ª estampa do Tesouro Nacional (Brasil)

                        A gravura "Mima" foi utilizada em pelo menos duas oportunidades, vejamos;

  1. 1000 dólares (certificado de ações) de 1895 da New Orleans & Western Terminal RR – Estados Unidos.
  2. 500 pesos de 1897/1898 (PS200) do El Banco de Coahuila (México).

                        Finalmente a gravura "Reverie"[23] em diversas oportunidades, vejamos:

  1. Série de bilhetes da Caixa de Estabilização (R184-190; P.103-109) – Brasil.
  2. 50 dólares do Merchants Bank of Canadá (PS 1163) – Canadá.
  3. 1000 dólares (certificado de ações) de 1906 da City of Cincinati – Estados Unidos.
  4. 1000 dólares (certificado de ações) de 1901 do Newport News & Old Point Rwy & Eletric. – Estados Unidos.
  5. 10 centavos (bônus de consumação) do Consumers' friend de 1973 – Estados Unidos.

As informações dadas por Trigueiros e pelos boletins das sociedades numismáticas.

                         F. dos Santos Trigueiros trata do assunto no capítulo referente às "Características do Dinheiro", na rubrica "EFÍGIE", vejamos:


"O aparecimento da mulher, na cédula brasileira, deu margem a muitos comentários, na época em que se verificou o lançamento das notas de 2 mil réis, da 9ª e 11ª estampas, embora o retrato seja reprodução de um quadro denominado "Saudade" do pintor austríaco Conrad Kiesel. A bela cabeça de mulher nas cédulas da Caixa de Amortização é a mesma do reverso da cédula de 100 mil-réis, da 11ª estampa, emitida em 1909, ano que ocuparam a Pasta da Fazenda David Campista e Leopoldo de Bulhões. A maledicência afirmou, no entanto, ser aquela figura a da amante do Ministro da Fazenda da época, fato até hoje tido, por muitos com verdadeiro" (op. cit. P. 179)

                        O Boletim informativo da S.F.N de João Pessoa, de 2001, comentando um artigo do Boletim da SNB, n° 50 de 1976, nos traz:


"No ano de 1900, o Tesouro Nacional (TN), colocou em circulação uma nota de 2 mil-réis da 9ª estampa, impressa pela American Bank Note Co. trazendo no medalhão a figura de uma bela mulher (D R82). Ao chegar as ruas, muitas pessoas passaram a comentar maliciosamente que a mulher retratada era amante do então Ministro da Fazenda Joaquim Murtinho. Na Câmara Federal dos Deputados acusavam o ministro de representar a república com um retrato de uma prostituta famosa na Capital Federal. Foi um escândalo enorme. Até mesmo Rui Barbosa entrou nas discussão afirmando ser “autêntico o ignóbil corpo de delito” acrescentando não haver nada na efígie daquela mulher que não nomeasse uma rainha do mundo obsceno.
Os deputados governistas defendiam o ministro alegando que ele ignorava completamente a escolha do tipo representativo da República que era de iniciativa da Casa da Moeda. O TN alegava com razão que a imagem era um detalhe do quadro “Saudade” do pintor austríaco Conrad Kiesel. Logo correu o boato que o governo teria encomendado a um artista pintar o quadro da famosa mulher para disfarçar o embaraço. O TN usou a mesma imagem em 1918 na nota também de 2 mil-réis, 11ª estampa (D R084), alterando apenas as cores.
Joaquim Murtinho, o pivô de toda essa historia foi posteriormente homenageado pelo TN. Sua imagem decora, coincidentemente, as notas de 2 mil-réis emitidas em 1920, 1921 e 1923 (D R086 a 88) (in, Boletim Informativo da S.F.N. João Pessoa – Ano XVII, n°68, out/dez 2001, p.4)


                        Na seqüência, intitulada "A Verdadeira História", concluem por atribuir ao gravador Sukeiche Oyama a autoria do desenho, vejamos:

"O famoso gravador japonês Sukeichi Oyama (1858-1922) trabalhou para a American Bank Note Co. De 1891 a 1899. Nos anos 1893/94 realizou uma série de retratos femininos que não visavam nenhuma encomenda específica, mas eram para o estoque de gravação do ABNC, tanto que foram posteriormente usados em diversas notas ou mesmo em apólices/certificados de ações. Esses trabalhos receberam títulos (Haidee, Zella, Reverie, Mima, Lolita, Tunis Girl). Um desses retratos – Zella – é o que foi usado na cédula de 2 mil-réis objeto de tanta celeuma. A mesma Zella foi também usada na nota de 100 pesos do Banco de Coahuila, México (PS199) e na de 20 dólares do Bank of Nova Scotia, Canadá (PS627). Na Revista da International Bank Note Society (IBNS – Journal, vol. 40, n° 2, 2001), foram publicados dois artigos que são fundamentais para melhor se conhecer o gravador Sukeichi Oyama." (Idem, p.4)


Fig.2 – "Zella", gravura de Sukeichi Oyama (1893), nas diversas cédulas onde foi reproduzida, na seqüência temos: 20 dólares de 1897 (anverso) do Bank of Nova Scotia, Canadá (PS627),20 pesos de 1898 (reverso) do El Banco de Concepción, Chile (PS180), 100 pesos de 1898 (reverso) do El Banco de Coahuila, México (PS199), 2 mil-réis de 1900 (anverso) do Tesouro Nacional, Brasil (P.11;R082) e 2 mil-réis de 1918 (anverso) do Tesouro Nacional, Brasil (P.13;R084).

Analisando a questão


                        Antes de tudo, devemos observar como o filósofo Bacon, que o ser humano prefere crer a examinar.
                        Tentando fugir a regra, vamos examinar.
                        A acusação feita pelo Deputado Fausto Cardoso, como consta da ata de 6 de setembro de 1900, não foi contestada diretamente pelo Ministro da Fazenda (Joaquim Murtinho).
                        Era uma acusação grave. Estamos num campo altamente conservador, quando se fala em representação nos "dinheiros do Estado", estamos falando de um poderoso meio de comunicação, que atinge toda a massa da população, diríamos, o rico, o pobre, o letrado e o iletrado, o observador, e o distraído[24]..., motivo suficiente para o rigorismo que acompanhou e ainda acompanha toda existência de nosso Meio Circulante, seja nas moedas ou nas cédulas. Este é um fenômeno que pode ser verificado praticamente no mundo todo.
                        Pelo fala do Deputado notamos que apesar da gravidade das acusações, ele não apresentou nenhuma prova definitiva que pudesse comprometer o Ministro. Além dos mais, foi impreciso. O Deputado menciona "retratos de meretrizes" e "notas do Tesouro" no plural. Na verdade havia apenas uma cédula (a de 2$000 réis de 1900).
                         O Meio Circulante da época era complexo, além das cédulas do Tesouro Nacional, composto das novas cédulas da República e de muitas estampas do Império (como vimos), ainda tínhamos várias cédulas dos Bancos Particulares que só seriam recolhidas paulatinamente pelo Tesouro Nacional.
                        Mas não obstante, a acusação não poderia ser gratuita, justamente pela gravidade do fato. O Deputado não iria se arriscar em fazer tal afirmação baseando-se apenas em boatos, mesmo que devido às circunstâncias nada pudesse ser provado.
                        Também devemos considerar que o Deputado não conhecia toda a amplitude dos fatos e que a partir da denúncia tudo desaparecera, a moça, o retrato, restando apenas alguns indícios.
                        Nos boletins das Sociedades Numismáticas e em F. dos SantosTrigueiros, encontramos algumas informações interessantes. Os Deputados governistas teriam defendido o Ministro afirmando que ele ignorava completamente a escolha do motivo a ser representado na cédula e que a imagem havia sido obtida a partir de um detalhe de um quadro denominado "Saudade" do pintor austríaco Conrad Kiesel.
                        Em Trigueiros a mesma historia, "reprodução de um quadro denominado "Saudade" de Conrad Kiesel. No entanto, Trigueiros, menciona as cédulas de maneira confusa, a cédula da 11ª estampa (cédula semelhante a Fig. 1, mas com as cores alteradas) foi emitida apenas em 1918, portanto, longe destes acontecimentos. Além disso, menciona as cédulas da Caixa de Estabilização, que apesar de serem do mesmo gravador[25], Sukeichi Oyama, foram emitidas apenas em 1926. No medalhão destas cédulas temos a imagem denominada "Reverie", que foi "inspirada" (podemos até dizer que é a gravação em talho doce[26] da imagem sendo uma reprodução fiel e não apenas inspiração), da pintura de Paul Thumann's – "The Fates", como anotamos acima. Neste caso temos a prova de que os gravadores da ABNCo. utilizavam imagens de outros artistas.
                        Quem foi Conrad Kiesel? Ele existiu? Sim, foi um pintor alemão (1846-1921), estudou originariamente arquitetura na Academia de Berlim, foi também escultor antes de se dedicar à pintura, tendo alcançado grande sucesso. Kiesel é conhecido pela representação de belas jovens, não tanto pelo retrato em si, mas pela homenagem à beleza feminina que eles representam. Essa perfeição é maximizada pelo notável acabamento e pela pureza de tons em suas pinturas e o exotismo mostrado dos povos do sul e do leste. Alguns de seus trabalhos foram publicados no “The Illustrated London News”, de 1883 a 1889[27]. Seu trabalho ficou conhecido através do mundo e está representado em inúmeras coleções na Europa e nos Estados Unidos. Ele morreu em Berlim em 1921.
                        De sua obra, vamos destacar aqui apenas o que nos interessa diretamente.
                        A ABNCo., através de seu gravador, Sukeichi Oyama, utilizou o retrato de Conrad Kiesel, denominado "Dolores" para realizar a gravura Mima (Vinheta n° C-538 – 1894), veja as duas primeiras imagens da Fig.3. e a segunda da Fig.4. Trata-se da "mesma" imagem, nos mínimos detalhes.
                        A gravura Mima foi utilizada pela ABNCo., entre outros, para ilustrar a cédula de 500 pesos do Banco de Coahuila, de 1898 (PS200). Desta mesma "família", faz parte a cédula de 100 pesos em que temos "Zella". Estes dois retratos parecem ser da mesma jovem.
                        Encontramos diversas obras de Conrad Kiesel, mas não a denominada "Saudade" que teria sido a "inspiração" para a realização de "Zella" por Sukeichi Oyama.
                        Saudade, palavra originária do latim "solitatem" que quer dizer solidão, só é conhecida no galego e no português. É uma das palavras mais presentes na poesia de amor da Língua Portuguesa. Teria surgido no tempo das navegações para representar o sentimento de falta causado pelas longas viagens.


Fig. 3 – Mima, gravada por Oyama, certificado de ações da New Orleans & Western Terminal RR, 1895, Estados Unidos; Mima, 500 pesos de 1897/1898 (reverso), PS200, do El Banco de Coahuila, México; ?, 200 mil-réis de 1908 (reverso), (R147; P.76) do Tesouro Nacional, Brasil; Reverie, 10 mil-réis de 1926 (anverso), (R184; P.103) da Caixa de Estabilização, Brasil e Reverie, 100 mil-reis de 1909 (reverso), (R136; P.65), do Tesouro Nacional, Brasil.

                        Das cédulas brasileiras do mil-réis do período republicano existem apenas três imagens representando a República que não são do modelo clássico, ou seja, apresentando o barrete frígio[28]. Estas imagens são: "Zella", "Reverie", ambas do gravador Sukeichi Oyama, como vimos, e finalmente a que se encontra na cédula de 200 mil-réis de 1908, também da ABNCo, que desconhecemos a autoria, mas que pode bem ser a mesma "jovem" representada nas outras imagens.



 Fig. 4 – Pintura de Conrad Kiesel denominada "Senorita" de 1885; retrato do mesmo autor denominado "Dolores", e que foi utilizado por Sukeichi Oyama para a realização da gravura "Mima" (confiram é a mesma imagem em todos os detalhes – vejam o detalhe da mão); pintura de Paul Thumann's – "The Fates", também utilizada por Oyama na realização de "Reverie".


                        Dos retratos de Conrad Kiesel, a pintura denominada "Senorita" nos parece a mais próxima na falta da denominada "Saudade". Existem semelhanças, ele pode ter realizado vários retratos e não apenas um, afinal, "a jovem vinha do Brasil".


Conclusão
  
                        Não podemos afirmar com certeza que a gravura "Zella" da cédula de 2 mil-réis de 1900 foi mandada executar por determinação do então Ministro da Fazenda Joaquim Murtinho. Mas isto não é impossível de ter acontecido como muitos afirmam.
                        As datas (nem sempre confiáveis) são todas do período considerado, mesmo que haja algumas distorções. As imagens comprovam que os gravadores da ABNCo. utilizavam pinturas de artistas para realizar suas gravuras (aliás não existe nada de reprovável nesta ação) e que empregavam estas gravuras em mais de uma cédula, também, uma atitude normal, considerando o trabalho envolvido.
                        Um dos retratos de Conrad Kiesel, "Dolores" foi utilizado por Sukeichi Oyama para realizar uma de suas gravuras, como vimos. Ficando, assim, estabelecido um liame entre os dois artistas.
                        A afirmação de que a jovem era uma "meretriz" refletia o estado de desenvolvimento social da mulher no início do Século XX. Uma jovem que aos dezoito anos, ou até menos, que não fosse casada e com filhos, era mau vista. E ainda se participasse da vida artística, teatral, etc, não haveria dúvidas "que se tratava de uma rainha do mundo obsceno", nas palavras de nosso jurista mais famoso.

                       Sobre este assunto temos a citação de Charles Expilly e a "constatação" da Revista íris de 1905, vejamos:


"Uma mulher já é bastante instruída quando lê corretamente as suas orações e sabe escrever a receita de goiabada. Mais do que isso seria um perigo para o lar". (Charles Expilly, cronista francês) (in, Nosso Século, 1900-1910. São Paulo: Abril Cultural, 1980, p.112).

"Aos doze anos, a mulher é a crisálida que espera a luz do amor para tornar-se dourada borboleta; aos treze, é um poema lírico a que falta a última estrofe; aos catorze, é um hino de harpa eólia; aos quinze, é um astro em torno do qual rodopiam a graça, a harmonia e o amor; aos dezesseis, é uma estátua de Madona que procura um coração de homem para dele fazer o seu altar..." E é preciso encontrá-lo com urgência, pois, aos vinte e dois, será "uma lágrima da noite banhando um túmulo de virgem", ou melhor, uma solteirona... (Citações da revista íris, 1905). (in, Nosso Século, 1900-1910. São Paulo: Abril Cultural, 1980, p.119).

                        O fato é que não se sabe ao certo quem foi a jovem, talvez uma das namoradas de Joaquim Murtinho, já que o mesmo nunca se casou.
                        O solteirão de Santa Tereza que teve a vida toda governada pelo dinheiro acabou sendo, ele mesmo, homenageado nas cédulas do Tesouro Nacional, em 1920, 1921 e 1923. Por "coincidência" todas no valor de 2 mil-réis. Estas cédulas foram produzidas pela Casa da Moeda e já eram o prelúdio da produção em escala que teve inicio em 1970, com a cédula de 1 cruzeiro (figura alegórica da República – com o barrete frigio) e a história não parou por ai, nas novas cédulas do real, bem como nas anteriores temos a imagem da República, ela continua com o barrete frigio, eterno símbolo da liberdade.


Obs.: O bilhete de 20 dólares do Bank of Nova Scotia do Canadá (PS627), encontramos apenas um raro modelo (specimen) impresso em papel cartão, tido como único. Nem mesmo no livro do Banco (que traz a reprodução de vários exemplares), este aparece. É provável que este bilhete não tenha circulado, ou que sua circulação tenha sido restrita. Os demais, que trazem a gravura "Zella" ainda podem ser encontrados com mais facilidade no mercado numismático.
A fabricação de papel-moeda é realizada por indústria especializada, sendo que, até os anos 60 existiam aproximadamente cerca de 20 impressores, dentre eles a American Bank Note Company (ABNCo.) e a Thomas de La Rue (TDLR). Com o desenvolvimento da indústria, muitos países que anteriormente dependiam de encomendas externas passaram a fabricantes, este é o caso do Brasil. Com estas mudanças, a ABNCo. deixou o mercado, a que tudo indica, em 1985, ano em que foi vendido o seu prédio histórico em Manhattan.

Bibliografia

A formação das Almas: O imaginário da República no Brasil. José Murilo de Carvalho. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
Arquivo de Sombras: A privatização do Estado brasileiro nos anos iniciais da Primeira República. Fernando Antonio Faria. Rio de Janeiro, Sette Letras, c.1996.
Bilhetes Bancos Particulares y Republica de Chile Impresos por American Banknote New York – 1865-1920, Coleccion Art., s/d.
Boletim da Sociedade Numismática Brasileira (SNB), n° 50, São Paulo, 1976.
Boletim da Sociedade Filatélica e Numismática de João Pessoa (SFNJP), n° 68, 2001, p.4.
Brasil: Congresso Nacional. Anais da Câmara dos Deputados. V.5, Rio de janeiro, 6 de setembro de 1900, p.144-145.
Catálogo J. Vinicius de cédulas do Brasil. Cédulas do Brasil de 1773 a 1980. José Vinicius Viera do Amaral. São Paulo, 1982.
Catálogo do Papel Moeda do Brasil, 1771-1986, Emissões oficiais, bancárias e regionais. Violo Idolo Lissa. Brasília: Ed. Gráfica Brasiliana Ltda., 3ª edição, 1987.
Cédulas Brasileiras da República – Emissões do Tesouro Nacional. Banco do Brasil S.A. Rio de Janeiro, 1965.
Cédulas do Brasil 1833 a 2003. Cláudio Amato, Irlei S. Neves, Julio E. Schütz. São Paulo, 2003.
Dinheiro no Brasil. F. dos Santos Trigueiros. Rio de Janeiro, 2ª edição, Léo Cristiano Editorial, 1987.
International Bank Note Society Journal (IBNS - Journal), Volume 40, nº2, 2001, p. 8-27.
Levantamento do Meio Circulante entre os anos de 1889 (Proclamação da República) até o ano de 1904 para o filme Sonhos Tropicais. Marcio Rovere Sandoval. Florianópolis, 2002. (não publicado).
Nosso Século, 1900-1910. São Paulo: Abril Cultural, 1980).
- O Meio Circulante no Brasil, 3ª Parte – A Moeda Fiduciária no Brasil, 1771 até 1900. Julius Meili. Tipografia de Jean Frey, Zurique, Suíça, 1903.
Standard Catalog of World Paper Money – Specialized Issues. Edited by George S. Cuhaj, 10th edition, Vol. I, USA, 1170 p., 2005.
Standard Catalog of World Paper Money – General Issues (1368-1960).  Edited by George S. Cuhaj, 12th edition, USA, 1224p., 2008.
The Scotia Bank StoryA history of the Bank of Nova Scotia, 1832-1982. Joseph Schull and J. Douglas Gibson. Toronto, 1982.

Dedico esta matéria ao saudoso Edmundo de Carvalho que tinha um interesse especial por esta historia. Agradeço aos colegas da AFSC e em especial a Milton Milazzo Jr. que se desdobrou para nos fornecer fontes importantes para elaboração desta matéria e a Rubens Mozart pelas copias dos boletins das Associações.

Autor: Marcio R. Sandoval (sterlingnumismatic@hotmail.com)



Republicado no Boletim da SNB (Sociedade Numismática Brasileira – São Paulo) n° 70 de 2013, p.75-98.



[1] Neste caso um "specimen" ou cédula modelo.
[2] Com base na bibliografia existente sobre o assunto.
[3] Este período leva em consideração o ano da realização da gravura "Zella", em 1893.
[4] Joaquim Murtinho.
[5] Boletim da Sociedade Numismática Brasileira (SNB), n° 50, São Paulo, 1976.
[6] José Murilo de Carvalho. “República-Mulher: Entre Maria e Marianne” In: A Formação das Almas. O imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p.75-107.
[7] Brasil. Congresso Nacional. Anais da Câmara dos Deputados. v. 5 e 6, p.62, 114, 145. Apud: Id. Ib. p.89-9. Vide também nesta obra: p. 149, nota 12.
[8] Id. Ib. p.89.
[9] J.L. [pseudo]. “Joaquim Murtinho”. Rio de Janeiro: Jornal do Commercio, 11/12/1948, p.5)
[10] Id.Ib.
[11] Id. Ib.
[12] O Meio Circulante de um país é representado pelo conjunto de cédulas e moedas que circulam ou circularam, neste caso trataremos apenas das cédulas do Tesouro Nacional.
[13] Não considerando as variações nas estampas.
[14] Desmonetização.
[15] Barrete frígio ou barrete da liberdade, espécie de boina, originalmente utilizada pelos moradores da Frigia (Ásia Menor). Foi adotada na cor vermelha pelos republicanos franceses que lutaram pela tomada da Bastilha em 1789, que culminou com a instalação da primeira república francesa em 1793, por esta razão tornou-se um forte símbolo republicano.
[16] Não levando em consideração os bilhetes dos Bancos Particulares, que não fazem parte deste estudo. Trigueiros informa que em 1900 haviam 33 tipos de cédulas do Tesouro Nacional em circulação (encontramos 35) e 69 dos bancos particulares (veja op. cit. P.118).
[17] Como as impressões eram realizadas no exterior (fonte de evasão de divisas), as cédulas da estampa anterior e mesmo as do Império, permaneceram circulando.
[18] Aproximadamente, salvo algum erro.
[19] As que temos conhecimento.
[20] Numeração da ABNCo.
[21] Estamos a procura da prova definitiva deste fato, que seria o próprio retrato realizado por Conrad Kiesel.
[22] Neste caso existem duas datas sugeridas, uma pelo WPM-Specialized Issues , 1883 e outra pelo Catálogo chileno (Billetes de Bancos Particulares y Republica de Chile – Impresos por American BankNote Co. New York), que aponta a data de 1892. Optamos pela data de 1898 que consta de um specimen desta cédula que acreditamos estar mais de acordo com a realidade.
[23] "Rêverie" palavra que em francês significa estar em um estado de distração, a atividade mental esta voltada para as lembranças, seria o sonhar acordado.
[24] Mensagem subliminar.
[25] O medalhão com efígie de "Reverie".
[26] Calcografia.
[27] O que pudemos encontrar.
[28] Existem algumas pequenas imagens que não portam o barrete frígio, mas não apresentam nenhuma particularidade que as individualize como é o caso destas três imagens.



Anexos: 

 1.

Fig. 1 – Specimen da cédula de 2 mil-réis da 9ª estampa do Tesouro Nacional – Brasil (1900-1920) impressa pela American Bank Note Company de Nova York - ABNCo. (R082s; P.11). No anverso temos “Zella”, gravura de Sukeichi Oyama, a partir de um retrato de autoria de Conrad Kiesel denominado “Saudade”. No reverso temos “Minerva”. (167 mm x 76 mm).


 2.

Fig. 2 – Specimen da cédula de 20 dólares do Bank of Nova Scotia - Canada (1897) impressa pela American Bank Note Company de Nova York - ABNCo. (P.S627). No anverso temos “Zella”, gravura de Sukeichi Oyama, a partir de um retrato de autoria de Conrad Kiesel denominado “Saudade”.



 3. 



Fig. 3– Cédula de 20 pesos do El Banco de Concepcion  - Chile (1898) impressa pela American Bank Note Company de Nova York - ABNCo. (P.S180). No reverso temos “Zella”, gravura de Sukeichi Oyama, a partir de um retrato de autoria de Conrad Kiesel denominado “Saudade”.


 4. 


Fig. 4 – Cédula de 100 pesos do El Banco de Coahuila - México (1898) impressa pela American Bank Note Company de Nova York - ABNCo. (P.S199). No reverso temos “Zella”, gravura de Sukeichi Oyama, a partir de um retrato de autoria de Conrad Kiesel denominado “Saudade”.

 5. 




Fig. 5 – Specimen da cédula de 2 mil-réis da 11ª estampa do Tesouro Nacional – Brasil (1918-1950) impressa pela American Bank Note Company de Nova York - ABNCo. (R084s; P.13). No anverso temos “Zella”, gravura de Sukeichi Oyama, a partir de um retrato de autoria de Conrad Kiesel denominado “Saudade”. No reverso temos “Minerva”. (165 mm x 78 mm).

 6. 



Fig. 6 – Specimen da cédula de 500 pesos do Banco de Coahuila – México (1897-1898) impressa pela American Bank Note Company de Nova York - ABNCo. (P.S200). No reverso temos “Mima”, gravura de Sukeichi Oyama, a partir de um retrato de autoria de Conrad Kiesel denominado “Senorita”.

7. 



Fig. 7 Specimen da cédula de 100 mil-réis da 1ª estampa da Caixa de Estabilização – Brasil (1926-27-1950) impressa pela American Bank Note Company de Nova York - ABNCo. (R186s; P.105). No anverso temos “Reveria”, gravura de Sukeichi Oyama, a partir da pintura de Paul Thumann`s – “The Fates”. No reverso temos o antigo prédio da Caixa de Amortização no Rio de Janeiro, que abriga atualmente o MECIR – Departamento do Meio Circulante, pertencente ao Banco Central (187 mm x 85 mm).

 8. 

 
   

Fig. 8 e 9 – Retrato de Conrad Kiesel denominado “Dolores” utilizado por Sukeichi Oyama para a realização da gravura "Mima" e fotografia de Joaquim Murtinho quando jovem.


Autor: Marcio R. Sandoval (sterlingnumismatic@hotmail.com)



Republicado no Boletim da SNB (Sociedade Numismática Brasileira – São Paulo) n° 70 de 2013, p.75-98.


Atualizações


A imagem do retrato de Conrad Kiesel denominado “Jovem Espanhola”, proveniente da empresa suíça Beurret & Bailly esta disponível na internet desde setembro de 2012. Pelas características desde retrato concluímos que se trata do mesmo que serviu a Sukeichi Oyama para a realização da gravura denominada “Zella”, que enfim, foi utilizada, entre outras, na elaboração da cédula de 2 mil-réis do Tesouro Nacional de 1900. Seria este então o quadro denominado “Saudade”, mas não encontramos ainda nenhum documento que ateste esta informação.



Quadro de Conrad Kiesel denominado « jovem espanhola » s/d 



Data de emissão da cédula de 2 mil-réis da 9ª estampa do Tesouro Nacional (R082; P.11), 1900 ou 1899?

Segundo consta dos arquivos da American Bank Note Company[1]), empresa que realizou a impressão, as vinte primeiras séries da cédula de 2 mil-réis da 9ª estampa do Tesouro Nacional foram impressas em junho de 1899, sendo que as demais séries foram realizadas em outubro de 1903 (séries 21-60) e em agosto de 1905 (séries 61-90).
O fato de terem sido impressas as primeiras vinte séries em 1899 não quer dizer que estas cédulas entraram em circulação naquele mesmo ano, eis que além de terem que ser transportadas ao Brasil, ainda seria necessária a conferência e assinatura pela autoridade emitente (no caso o Tesouro Nacional), antes de serem emitidas. Ainda não encontramos o edital da Caixa de Amortização concernente a esta cédula, que poderia sanar qualquer dúvida remanescente.
Julius Meili menciona esta cédula no livro sobre a Moeda Fiduciária, vejamos: “Lista das notas do Tesouro em giro no fim de dezembro de 1900”, n°43 (p.127) e faz a seguinte descrição: 2$ , 9ª Estampa (da República) no lado direito a figura de uma bonita mulher n`um quadro oval, no verso figura de Minerva.” Não informa a data de emissão...




[1] Latin American Bank Note. American Bank Note Company Archives. Ricardo M. Magan. First Edition, 2005, p.41