sexta-feira, 3 de outubro de 2008

A EXPEDIÇÃO DE LA PÉROUSE E SUA PASSAGEM PELA ILHA DE SANTA CATARINA EM 1785.


A Ilha de Santa Catarina foi palco de passagem de diversos viajantes estrangeiros durante os séculos XVIII e XIX. Assim é que o Conde de La Pérouse (Almirante Jean François de Galaup) aportou na Ilha de Santa Catarina em 25 de outubro de 1785, oportunidade que redigiu interessante narrativa sobre a Ilha, que viria a ser publicada anos depois (1797), com os demais apontamentos sobre os locais por onde passou. Referida publicação levou o seguinte título: “Voyage De La Pérouse Autour du Monde”, edição esta redigia por M.L.A Milet-Mureau. Vejamos parte destas observações, que nos parece mais interessante: “A Ilha de Santa Catarina se estende desde 27 graus 19’10” de latitude do sul até 27 graus 49’; sua largura de leste a oeste não é mais que de 2 léguas; está separada do continente, em sua parte mais estreita, por um canal de 200 toesas. É no fim desta barra que está a vila de “Nostra-Senõra-del-Desterro”, capital desta capitania, onde o Governador tem sua residência; a vila contém no máximo 3 mil almas e aproximadamente 400 casas; seu aspecto é bem agradável. Segundo a narrativa de Frézier, esta ilha servia, em 1712, de refúgio aos vagabundos que fugiam de diferentes partes do Brasil; só estavam sujeitos a Portugal nominalmente e não reconheciam autoridade alguma. A região é tão fértil, que podiam se subsistir sem auxílio algum das colônias vizinhas; estavam tão faltos de dinheiro que não podiam tentar a cobiça do governador geral do Brasil, nem lhe inspirar o desejo de submetê-los. Os navios que lá fundeavam não lhes davam mais do que roupas e camisas de que tinham absoluta carência, em troca de provisões. Somente em 1740 a corte de Lisboa estabeleceu um Governo regular na Ilha de Santa Catarina e terras adjacentes do continente. Este Governo se estende por 60 léguas de norte a sul, desde o rio São Francisco até o Rio Grande; sua população é de 20.000 almas. Notei nas famílias um grande número de crianças, que acredito ser em breve de número mais considerável. O solo é extremamente fértil e produz toda a sorte de frutos, legumes e cereais: esta coberto de árvores sempre verdes, mas são de tal forma entrelaçadas de espinhos e lianas, que não é possível atravessar estas florestas sem abrir uma vereda a machado; tem-se ainda a temer as serpentes, cuja picada é mortal. As habitações, tanto na ilha como no continente, estão todas à beira do mar: os bosques que as cercam têm um aroma delicioso, devido à grande quantidade de laranjeiras, árvores e arbustos aromáticos de que estão cheios. Apesar de tantas vantagens, a região é muito pobre e tem falta absoluta de objetos manufaturados; de modo que os camponeses se encontram quase nus ou cobertos de andrajos: suas terras, que seriam muito próprias para o cultivo de cana-de-açúcar não podem ser aproveitadas por falta de escravos, pois não são suficientemente ricos para comprá-los. A pesca da baleia é muito abundante: mas é uma propriedade da Coroa, arrendada a um companhia de Lisboa: esta companhia tem, nesta costa, três grandes estabelecimentos nos quais se pescam cada ano cerca de 400 baleias, cujo produto, tanto em azeite como em “sperma-céti”, é enviado para Lisboa pelo Rio de Janeiro. Os habitantes não passam de meros espectadores desta pesca, que não lhes traz nenhum proveito. Se o governo não vier em seu auxílio, e não lhes der outras isenções ou incentivos que possa, ali incentivar o comércio, uma das mais belas regiões da terra definhará eternamente, o que não será de nenhuma utilidade à metrópole. (...) Parece-me que a nossa chegada lançara grande terror sobre a povoação; os diferentes fortes deram vários tiros de canhão em sinal de alarme; pelo que determinei fundear logo e enviar uma canoa à terra com um oficial, para fazer conhecer as nossas intenções bastante pacíficas e a nossa necessidade de água, lenha e alguns refrescos. M. de Pierrevert, encarregado desta negociação, encontrou a pequena guarnição da vila em armas; consistia em 40 soldados, comandados por um capitão, o qual despachou em seguida um mensageiro para a vila ao governador, Dom Francisco de Barros, brigadeiro de infantaria. Ele tinha conhecimento de nossa expedição pela gazeta de Lisboa; e uma medalha de bronze que lhe enviei, tirou-lhe qualquer dúvida sobre o objetivo de nossa estadia. (...) Dei preferência à Ilha de Santa Catarina sobre o Rio de Janeiro, para evitar as formalidades das grandes cidades, que ocasionam sempre uma perda de tempo; mas a experiência ensinou-me que esta parada reunia muitas outras vantagens. Víveres de todas as espécies haviam na maior abundância, um boi grande custava 8 piastras; um porco pesando 150 libras custava 4; tinha-se 2 perus por uma piastra; bastava unicamente lançar a linha para retirá-la cheia de peixes; levavam para bordo e nos vendiam 500 laranjas por menos de meia piastra e os legumes eram também de preço moderado. (...) O fato seguinte dará uma idéia da hospitalidade deste bom povo. Minha canoa tinha sido emborcada por um onda, numa enseada, onde tinha ido cortar madeira; as pessoas da redondeza ajudaram a salvá-la das ondas, fazendo questão que nossos homens naufragados se metessem em seus leitos, deitando-se sobre esteiras no chão, no meio do quarto onde se esmeravam em hospitalidades. Poucos dias após, levaram a bordo do navio as velas, os mastros, a ancoreta e a bandeira da canoa, objetos muito preciosos para eles e que seriam de grande utilidade em suas pirogas. Seus costumes são delicados; eles são bons, polidos, serviçais, mas supersticiosos e ciumentos de sus mulheres, as quais jamais aparecem em público.[1]
A história do explorador é deveras mui interessante, partiu La Pérouse do porto francês de Brest, sob os auspícios de Luís XVI, com o objetivo de atingir o “Grande Mar do Sul”, como era então designado o Oceano Pacífico. Aquela região havia sido descoberta pelo conquistador espanhol Vasco Nuñes Balboa em 1513 após ter atravessado o istmo da América Central, mas depois de quase três séculos a região ainda era pouco conhecida. O Capitão inglês James Cook estivera lá entre os anos de 1768 e 1779 colocando a Grã-Bretanha em posição privilegia no domínio dos mares. A missão de La Pérouse “era completar as descobertas de Cook nas Ilhas Sandwich, e Georgia; explorar as costas da Nova Zelândia, Austrália e Nova Guiné; explorar o Kamtchatka, a Ilha de Yezo e investigar a possibilidade da existência de uma passagem marítima entre o Atlântico e o Pacífico ao longo da costa norte-americana, um problema que instigava a todos os navegadores da época.”.
[2] Para atingir seus objetivos, e “descobrir todas as terras que tivessem escapado à atenção do Capitão Cook”., zarpou a bordo de duas fragatas a “Astrolabe” (Astrolábio) e a “La Boussole” (A Bússola) em 1º de agosto de 1785. Tratava-se de um navegador inveterado com diversas campanhas a serviço de seu país e no auge de sua carreira naval, contava então com 44 anos. Os navios levavam grande quantidade de provisões, inclusive material de troca para com os nativos: “600 espelhos, 2.600 pentes, 600 kg de contas de vidro e 50.000 agulhas de coser.”.[3] Os quatrocentos lugares disponíveis nos navios foram disputados um a um e entre os candidatos estava o “segundo-tenente da Academia Militar de Paris” de apenas 16 anos; seu nome era Napoleão Bonaparte e que por ironia do destino não foi escolhido...Os navios fizeram várias escalas no seu caminho pelo Atlântico, entre elas, a Ilha da Madeira, as Ilhas Canárias e a Ilha de Santa Catarina. Encontramos em um mapa que traz o traçado da expedição, referência à Ilha de Martin Vaz (conjunto de rochedos solitários e sem água potável situado a mais de mil quilômetros da costa do Espirito Santo e a 60 quilômetros da também brasileira Ilha da Trindade, sendo certamente o ponto mais remoto e isolado do território brasileiro), contudo não foi possível confirmar a informação. O fato é que a passagem do explorador inglês James Cook pela Ilha da Trindade em maio de 1775 foi registrada. Após a breve passagem pelo Brasil, como restou registrado no relato sobre Santa Catarina, dobraram o Cabo Horn no extremo sul do continente e entraram no Pacífico, passando por Valparaíso no Chile e pela Ilha de Páscoa, após foram ao Havaí, descobertas anos antes pelo Capitão Cook, local onde fora morto pelos nativos. Seguindo sua programação rumaram para o litoral norte-americano para um levantamento da costa chegando até a Califórnia. Daquele ponto rumaram para o oeste do Pacífico atingindo Macau em 3 de janeiro de 1787, dali seguiram cartografando através de Taiwan, Coréia, Japão, as Ilhas Sacalinas e a península de Kamchatka, ambas na Rússia, onde La Pérouse fez desembarcar um oficial que falava a língua russa – De Lesseps, com a missão de atravessar a Sibéria e levar à Europa os relatos da viagem até aquele ponto, motivo que determinou a existência do texto reproduzido acima sobre a Ilha de Santa Catarina e demais informações sobre os locais explorados, evitando que se perdessem. Seguiram viagem em latitudes meridionais sendo que foram atacados pelos nativos em Tutuila (hoje Samoa Americana – território externo do Estados Unidos) dirigindo-se para a costa leste da Austrália, onde encontraram uma esquadra britânica, a primeira a levar colonos, “750 condenados britânicos – homens, mulheres e crianças[4], que foram os fundadores da primeira colônia na Austrália, deixando com os ingleses mais relatórios sobre a viagem. Em 10 de março de 1788 os navios deixaram a Austrália, rumando a noroeste e não mais foram vistos. A França enviou uma expedição de busca em 1791 que zarpou do mesmo porto de Brest sob o comando de D’Entrecasteaux que veio a realizar numerosas descobertas científicas. A missão chegou a ilha de Vanikoro, uma das ilhas de Santa Cruz (hoje fazem parte das Ilhas Salomão) e mesmo notando a presença de fumaça em meio a vegetação (supostos sinais de náufragos) teve que escapar dos recifes e foi forçada a partir sem averiguar a procedência daqueles supostos sinais. Esta expedição teve um fim trágico, o Almirante adoeceu e morreu e os navios foram capturados pelos holandeses na Ilha de Java (hoje parte da Indonésia), haja vista a guerra existente entre os dois países e não mais se falou no assunto até 1828 quando Dumond d’Urville encontrou os destroços dos navios, em Vanikoro, levando-os para a França (Museu Naval de Paris).O achado deu-se através da ajuda dos nativos que mostraram um canal por entre os recifes ao qual chamavam a ‘Passagem Falsa’, ou ‘dos Naufrágios’. O navio de La Pérouse, La Bussole, navegou em direção a um ancoradouro que julgava ser seguro mas naufragou nos recifes de corais, seguido do L’Astrolabe. Foram encontradas várias peças dos navios atestando sem dúvida que tratava-se dos dois navios franceses da expedição. Não se sabe se La Pérouse sobreviveu ao naufrágio ou foi trucidado com sua tripulação pelos nativos. Foram lançados diversos selos em homenagem a expedição de La Pérouse, com reprodução das fragatas e destacamos o selo de 1988 (36 francos) da Nova Caledônia – Colônia Francesa no Pacífico, em comemoração do “Bicentenário do Desaparecimento da Expedição”.




Referências Bibliográficas:

AS ILHAS e a fantasia. Os Caminhas da Terra. Ano 5, nº 12, ed. 56, dezembro 1996, p. 34-53.
ILHA de Santa Catarina. Relato de Viajantes Estrangeiros nos Séculos XVIII e XIX. Florianópolis: Editora da UFSC, 1996, 4ª Edição, 236p.
ILHA de Trindade um Brasil Longe Daqui. Os Caminhas da Terra. Ano 4, nº 1, ed. 33, janeiro 1995, p. 28-41.
NAVEGADORES exploradores em Santa Catarina. De 1525 a 1839, Retratados em Selos. Roberto Wildner. Editora da UFSC, 1982, 42p.
OS GRANDES Mistérios do Passado. Reader’s Digest – Livros, 1996, 448 p.

Nossos agradecimentos a Roberto Wildner por ter cedido as ilustrações.

[1] Ilha de Santa Catarina. Relato de Viajantes Estrangeiros nos Séculos XVIII e XIX. Florianópolis: Editora da UFSC, 1996, 4ª edição, p.113/116.[2] Ilha de Santa Catarina. Relato de Viagens Estrangeiros nos Séculos XVIII e XIX. Florianópolis: Editora da UFSC, 4ª edição, 1996, p.112[3] Os Grandes Mistério do Passado. Reader´s Digest, Livros, 1996, p.13[4] Idem, p.15

Autor: Marcio R. Sandoval (
sterlingnumismatic@hotmail.com)  agosto/2000
Esta matéria foi publicada originalmente no Boletim da AFSC - Associação Filatélica e Numismática de Santa Catarina, n° 47, agosto de 2000, p.17-21.




Abaixo temos os endereços para a localização da obra “Voyage De La Pérouse Autour du Monde” de M.L.A Milet-Mureau.
(V.I) e (V.II)