domingo, 19 de dezembro de 2010

ARAUCÁRIA – PINHEIRO-DO-PARANÁ




Araucárias – foto de Marc Ferrez (c.1884)

A seguir apresentamos uma pequena matéria sobre a araucária (pinheiro-do-paraná), de autoria de Antônio Claret Karas, que apesar de ter sido realizada em 1993, ainda se apresenta atual. A madeireira conhecida como Lumber (Southem Brazil Lumber Colonization Company), de origem norte-americana, se instalou no município de Três Barras em Santa Catarina em 1911. Era a maior madeireira da América do Sul. A Lumber ainda possuía uma outra unidade em Calmon, esta bem menor. A ferrovia São Paulo-Rio Grande foi concluída em 1910 e a Guerra do Contestado (1912-1916), também está inserida neste contexto. A exploração industrial em grande escala da araucária entrou em decadência na década de 60/70 com o esgotamento comercial da floresta. Em 2005/2006 foram criadas unidades de conservação das pouquíssimas áreas remanescentes.
Lembramos aqui que a etimologia da palavra Curitiba significa em tupi ku'ri 'pinheiro' + tïwa 'muito, abundância.
PRESERVAÇÃO – ANTÔNIO CLARET KARAS (*)
"A historia das araucárias é um caso clássico e melancólico da possível extinção em menos de um século de uma espécie de grande porte. Há 84 Anos instalou-se no município de Três Barras, em Santa Catarina, um projeto de colonização da empresa inglesa Southem Brazil Lumber Colonization Company, em nome de objetivos que continuam a vigorar quase um século depois: a ocupação territorial. Em 40 anos de atividades, o projeto Southern Brazil dizimou mais de 3 milhões de pinheiros centenários, e para cada árvore derrubada nem sequer uma roseira foi plantada. A floresta de araucária - nome dado à floresta ombrófila mista - é caracterizada pela presença da Araucária angustifolia. Esta dominância na paisagem paranaense foi tão marcante que a espécie recebeu o nome de pinheiro-do-paraná, fazendo parte da cultura do estado. No inicio da década de 50, o Paraná possuía cerca de 7,3 milhões de hectares de formações florestais de araucária, que representavam aproximadamente 40% da área dos pinhais do país. O restante se dividia entre Santa Catarina (31%), Rio Grande do Sul (25%) e São Paulo (3%). Desses milhões de hectares restam hoje pouco mais de 85 mil, ou 1,2% da cobertura vegetal original. A construção das ferrovias viabilizou num prazo de cem anos, o escoamento e o rápido esgotamento das árvores que dominavam a paisagem do Paraná desde a última glaciação, há cerca de 20 mil anos. A Fundação SOS Mata Atlântica detectou recentemente um total de 144 mil hectares desmatados no Paraná, entre 1985 e 1990, a maior parte dos quais nas áreas principais de ocorrência de floresta de araucária. Atualmente, somente 40.774 hectares com Mata Araucária encontram-se protegidos em 17 unidades de conservação, perfazendo um total de 0,22% da população original. Não faltam leis ou instrumentos jurídicos para a conservação dos remanescentes florestais de araucárias, mas ações determinadas, apoiadas na firme vontade de agir, se fazem necessárias. A inexistência de uma política ambiental efetiva também contribui para a eliminação destes remanescentes descontínuos e fragmentados. Até o momento, os procedimentos aplicados e a fiscalização sobre os "Planos de Manejo Sustentado", exigidos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), têm sido insuficientes para a conservação da araucária. E bom lembrar que nenhum país latino-americano considera o valor da árvore em pé. E a madeira da araucária ainda consta da pauta de exportações brasileiras. Muitos problemas têm sido evidenciados, acarretando uma pressão cada vez maior sobre os remanescentes. O setor produtivo carece de informações técnicas sobre manejo florestal, bem como sobre a viabilidade econômica a médio e longo prazo. Onde ficam as políticas extensionistas e de assistência técnica dentro da atual política ambiental? Desconhecem-se os benefícios indiretos das florestas de araucária, faltam unidades de conservação e incentivos á prática conservacionista. A tributação é inadequada e o pouco conhecimento da legislação convive com a falta de maior rigor nos ações fiscalizadoras e punitivas. Uma política séria para a conservação da floresta de araucária, que vise a sua perenização e á obtenção de benefícios econômicos e sociais, precisa contemplar instrumentos como o manejo sustentado, o uso múltiplo da floresta e a preservação restrita. Esse conjunto de procedimentos deve ser conduzido com o objetivo de se evitar que a araucária subsista apenas na lembrança da atual geração, nos parques, nas fotografias ou em símbolos e pinturas. Não haverá uma segunda chance para a perda deste patrimônio genético e ecológico".
(*) Antônio Claret Karas é engenheiro florestal da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Araucária – Paraná (in, Revista Ecologia e Desenvolvimento, Ano 2, nº 31, setembro de 1993).


Detalhe de uma apólice de cem dólares da “Brazil Railway Company” (c. 1910), impressa pela empresa inglesa Waterlow & Sons Limited. (clique para ampliar)

Veja os vídeos antigos sobre a Lumber: I, II, III, IV. (clique para ver).