terça-feira, 8 de julho de 2014

AS CÉDULAS DE HITLER

As cédulas de Hitler


Fig. 1 – Anverso da cédula de 5 Reichsmark de 1.8.1942 (P.186b, 140 x 70 mm). À direita gravura de um jovem simbolizando a “Juventude Hitlerista”, como esta cédula ficou conhecida.

Introdução

                        Em 30 de janeiro de 1933 Adolf Hitler ascende ao poder na Alemanha. Sua nomeação como Chanceler do Reich foi conseqüência da vitória de seu partido, o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP) nas eleições de 1932. Como o sistema de governo da República de Weimar (1918-1933)[1] era parlamentarista, o Presidente da República, no caso, o velho Marechal Hindenburg nomeava o chanceler (1º Ministro) responsável pelo Poder Executivo. Assim, paradoxalmente, Adolf Hitler chegou ao poder pela via democrática. Em 2 de agosto de 1934, após a morte de Hindenburg, foi eliminada a figura do Presidente da República, sendo todo o poder concentrado na pessoa do Führer[2]. Um plebiscito em 19 de agosto daquele mesmo ano conferiu ao Führer o poder absoluto.
                        Trataremos nestes apontamentos de parte do meio circulante alemão[3] durante o Terceiro Reich (1933-1945), mais especificamente das cédulas emitidas pelo Reichsbank e do reaproveitamento destas estampas por outras entidades.

  

Fig. 2 – Gravura do edifício do Reichsbank em Berlim, cerca de 1900. (in, Meyers Großes Konversationslexikon, 6ª edição, 1902-1908).


                        Durante o período hitlerista foram emitidas pelo Reichsbank apenas quatro cédulas ligadas ao regime nazista, quais sejam[4], 100 Reichsmark (em meados de 1936[5]), 5 Reichsmark (em 1.8.1942), 1000 Reichsmark (em setembro de 1944) e 20 Reichsmark (em fevereiro de 1945).
                        Em fevereiro de 1945, para uma emissão de emergência, foram realizadas reproduções foto-mecânicas (photo-mechanically) da cédula de 100 Reichsmark pelas filiais do Reichsbank em Graz, Linz e Salzburg, na Áustria[6].
                        As estampas de 5, 20 e 100 Reichsmark[7] foram reaproveitadas durante a liberação (1944-45) para emissões de emergência na Bélgica e no Luxemburgo, através de carimbos locais. Estas emissões ficaram conhecidas como “anulações”.
                        Estas três estampas também foram reaproveitadas em 1948[8], com a utilização de selos, para a emissão dos Deustche Mark, na ocasião da ocupação soviética do pós-guerra, antes da criação da Alemanha Oriental (DDR).
                        Passamos ao estudo pormenorizado destas emissões.

Moeda de anexação

                        Quando a guerra foi declarada, certas zonas suscetíveis de alimentar um sentimento pangermanista[9], não foram apenas ocupadas pelas tropas alemãs e submetidas à circulação conjunta da moeda local e das espécies da Caixa de Crédito do Reich (Reichskreditkassen)[10], mas anexadas. Assim, os territórios alemães do leste, anteriormente situados na Polônia, Dantzig, o Luxemburgo, os territórios belgas de Eupen, Malmedy e Moresnet, a Alsacia-Lorraine, os dois terços da Eslováquia que seriam reunidos à Áustria, os Sudetos e o Protetorado da Boêmia e Moravia foram integrados na zona do marco desde antes da declaração de guerra no âmbito do III Reich.
                        Nestes territórios, as Caixas de Crédito do Reich, implantadas após a ocupação, foram sendo substituídas por sucursais do Reichsbank, sendo a moeda das tropas e a moeda local, desmonetizadas. O Reichsmark se tornou a única moeda legal sendo a região ou país absorvido.
                        No plano monetário a Áustria foi integrada ao Reich em abril de 1938, os Sudetos em outubro deste mesmo ano; Dantzig em setembro de 1939; os territórios do leste, anteriormente poloneses, em outubro de 1939; Eupen, Malmedy e Moresnet em 30 de junho de 1940, o Luxemburgo em 5 de fevereiro de 1941, a Alsacia-Lorraine em 1° de maio de 1941; a Eslováquia em 1942[11]. O Protetorado da Boêmia e Moravia tinha um status diferente, o reichsmark foi introduzido, mas a moeda local, a coroa, continuou a circular, mesmo sendo sua população considerada como habitantes do Reich.[12]  

Emissões realizadas pelo Deutsche Reichsbank[13] de 1936 a 1945.

A cédula de 100 Reichsmark



Fig. 3 – Anverso da cédula de 100 Reichsmark de 24.6.1935 (P.183a, 180 x 90 mm). No caso um specimen[14] deste valor. À direita o químico e pesquisador Justus von Liebig. Esta foi a primeira cédula do regime Nazista emitida pelo Reichsbank.

                        A cédula de 100 Reichsmark (P.183; Ro.176) datada de 24 de junho de 1935 foi emitida efetivamente em meados de 1936. Os Jogos Olímpicos de Berlim (XI Olimpíada) realizado do 1° a 16 de agosto daquele ano, provavelmente contou com a nova cédula na circulação. Houve outras emissões em 1941/1942 e em 1945. No medalhão do anverso temos Justus von Liebig (1803-1873), químico e pesquisador. As dimensões da cédula são 180 x 90 mm. No centro temos uma suástica subimpressa (underprint). Em relação a Justus von Liebig, não encontramos nenhuma relação especial com o regime nazista, sendo, esta cédula, apenas uma continuação da “família” de cédulas emitidas a partir de 1929[15]. O selo oficial da direção do banco (Reichsbank Direktorium) traz, ainda, a águia do brasão oficial da República de Weimar (1918-1933), que foi modificado por Adolf Hitler apenas em novembro de 1935, assim, posteriormente à impressão destas cédulas.
                        No medalhão do reverso temos uma alegoria da ciência rodeada de querubins representando a juventude. Abaixo a advertência para eventuais adulterações ou falsificações. O projeto do reverso é de autoria do Professor P. Scheurich. Estas cédulas permaneceram em circulação até 20 de junho de 1948[16].
                        O catálogo World Paper Money traz somente duas variantes, a datada de 1935 (emitida em 1936) com a marca-d’água de Justus von Liebig (P.135a) e a de 1945 (P.135b) que apresenta ornamentos como marca-d’água e não apresenta a letra central como a anterior. Teriam sido emitidas cédulas com 7 e 8 dígitos. Todas a que vimos trazem 7 dígitos. As cédulas que trazem ornamentos como marca-d’água não apresentam numeração no reverso. A cor da numeração varia do vermelho ao castanho escuro e em uma série delas a numeração saiu na cor marrom.
                       A classificação de Holger Rosenberg[17] é bem mais exaustiva do que a do World Paper Money, vejamos[18]:

Emissões realizadas pelo Reichsbank
- Ro.176a (1936) e Ro.176b (1941-1942), que correspondem ao P.183a.
- Ro.176c que corresponde ao P.183b (1945)
- Ro. 176F (1945?) que apresenta a numeração em cor marrom e não vermelha.

Emissões realizadas pelas filiais do Reichsbank em Graz, Linz e Salzburg (fev. 1945), reproduções foto – mecânicas (emissões de emergência por carência de numerário). Apresentam todas a mesma numeração, T · 7396475.
- Ro.182a (1945) corresponde ao P.190a (178 x 95 mm ou 137 x 89 mm)
- Ro.182b (1945) corresponde ao P.190a (177 x 94 mm ou 132 x 88 mm)
- Ro.182c (1945) corresponde ao P.190a (177 x 95 mm ou 130/131 x 88 mm)
- Ro.182E (1945) corresponde ao P.190b (perfurações – retirada de circulação)  

Emissões realizadas por outros órgãos através do reaproveitamento das estampas

Emissões durante a liberação – “anulações” realizadas pelas municipalidades belgas
- Ro.176d (1944-45 – carimbo belga)
- Ro.176e (1944-45 – carimbo belga largo)
- Ro. 176f (1944-45 – carimbo luxemburguês)

Emissões pela autoridade da Ocupação Soviética antes da criação da RDA
- Ro.338a (1948) selo sobre Ro.176a correspondente ao P.7a
- Ro.338b (1948) selo sobre Ro.176b correspondente ao P.7a
- Ro.338c (1948) selo sobre Ro.176c correspondente ao P.7b
- Ro.338F (1948) selo sobre Ro.176F
  


Fig. 4 – Detalhe da lateral esquerda do anverso das cédulas 100 Reichsmark, em quatro momentos distintos, da esquerda para a direita temos: 100 Reichsmark (Ro.176), emitidas pelo Reichsbank a partir de 1936; 100 Reichsmark (Ro.182) emitidas pela filial do Reichsbank em Gras, Linz ou Salzburg (1945), reproduções foto–mecânicas de emergência; 100 Reichsmark (1944-45) emitidas pelas municipalidades belgas (Ro.176d), no caso pela “Administration Communale D`Eynatten – Prov. de Liege” e finalmente, 100 Deutsche Mark (1948) com selo (Ro.338), emissão da autoridade da Ocupação Soviética[19].

                       As reproduções foto – mecânicas da cédula de 100 Reichsmark realizadas pelas filiais do Reichsbank na Áustria apresentam, todas, a mesma numeração, qual seja, T · 7396475. Elas trazem na lateral esquerda a advertência sobre eventuais falsificações igual à contida no reverso. Estas emissões provavelmente estavam ligadas à falta de aprovisionamento de novas cédulas por parte da matriz. Como foram realizadas em oficinas diferentes apresentam variações, mas a numeração é a mesma. (Ro.182a, b, c e E)[20].
                       As cédulas classificadas como Ro.176d, Ro.176e e Ro.176f, são as denominadas “anulações” que tiveram curso no decorrer da liberação dos territórios belgas que haviam sido anexados pelo Reich (veja acima sobre a moeda de anexação). Foi utilizado também um carimbo para o Luxemburgo.
                       Acreditamos que o termo “anulações” foi empregado para demonstrar que o órgão emissor não era mais o mesmo, qual seja, o Reichsbank, que teve a autoridade suprimida após a retomada dos territórios.
                       Estas cédulas foram provavelmente utilizadas até que se pudesse substituí-las por espécies locais[21]. Existem novos estudos sobre este assunto[22].
                       Em relação às cédulas da Ocupação Soviética (reaproveitamento das estampas), imaginamos, ante a ausência de dados, que quando da tomada de Berlim ou de outras cidades alemãs pelos russos em 1945, deveria haver nos cofres do Reichsbank ou em suas filiais, cédulas que ainda não haviam sido distribuídas e que posteriormente seriam reaproveitadas para esta emissão de emergência. Essas emissões foram realizadas em 1948, antes a criação da Alemanha Oriental (RDA), sendo um dos primeiros capítulos da Guerra Fria. O prédio do Reichsbank em Berlim (Fig.2) sofreu avarias na guerra, mas graças à solidez de sua estrutura continuou sendo utilizado, em um primeiro momento pelos Aliados e após, pela RDA, como departamento de finanças. Depois da reunificação, o prédio passou a abrigar o Ministério das Relações Exteriores da Alemanha.
                      
A cédula de 1000 Reichsmark


  Fig. 5 – Anverso da cédula de 1000 Reichsmark de 22.2.1936 (P.184, 190 x 95 mm). À direita o arquiteto e pintor Karl Friedrich Schinkel (1781-1841). Sua emissão se deu apenas em setembro de 1944 sendo a única cédula que não foi reaproveitada para outras emissões.

                        A cédula de maior valor emitida pelo Reichsbank durante o regime Nazista. Impressa em 1936 e efetivamente emitida em setembro de 1944. No medalhão do anverso Karl Friedrich Schinkel (1781-1841), que aparece também na marca d`água e   que foi um dos responsáveis pela remodelação arquitetônica de Berlim, então capital prussiana. As dimensões da cédula são 190 x 95 mm. No centro temos uma suástica subimpressa (underprint). Neste caso também, não existe nenhuma relação especial do homenageado com o regime nazista, sendo, também, esta cédula, uma continuação da “família” de cédulas emitidas a partir de 1929. O selo oficial da direção do banco (Reichsbank Direktorium) traz, também, a águia do brasão oficial da República de Weimar (1918-1933), portanto, anterior à modificação.
                        No reverso temos no medalhão uma alegoria da arquitetura. Abaixo a advertência para eventuais adulterações ou falsificações.
                        Foram emitidas cédulas com a numeração em cor vermelha (Ro.177) e na cor marrom (Ro.177F). O catálogo World Paper Money não apresenta variantes.
                        Estas cédulas foram as únicas que não foram reaproveitadas para outras emissões. A que tudo indica o valor era alto para a época. Ao contrário da cédula precedente, esta apresenta uma suástica bem visível por causa da combinação de cores (marrom, amarelo e tons avermelhados). Ao que tudo indica, teve circulação restrita e por um curto período.



Fig. 6 – Variações do selo oficial da direção do Reichsbank (Reichsbank Direktorium) representados nas cédulas alemãs, quais sejam, da esquerda para a direita: 100 marcos de 1898 (P.20), 50 marcos de 1908 (P.32) e 100 marcos de 1910 (P.42), estes do período imperial; 50 milhões de marcos de 1923 (P.98a), 5 milhões de marcos de 1923 (P.105) e 50 marcos de 1933 (P.182a), da República de Weimar. O último é semelhante à cédula de 100 marcos de 1935 e a de 1000 marcos de 1936, que são objeto deste estudo.

A cédula de 20 Reichsmark


Fig.7 – Anverso da cédula de 20 Reichsmark de 16.6.1939 (P.185, 160 x 80 mm). À direita gravura de uma tirolesa segurando uma edelvais[23] tendo os Alpes ao fundo. Esta cédula trazia um novo design, mas foi emitida apenas em fevereiro de 1945.

                       A cédula de 20 Reichsmark (P.185; Ro.178) datada de 16 de junho de 1939 foi emitida efetivamente em fevereiro de 1945, pouco antes do final da guerra[24]. No anverso temos uma gravura de uma tirolesa segurando uma edelvais tendo os Alpes ao fundo. As dimensões da cédula são 160 x 80 mm. No centro temos uma suástica subimpressa (underprint). O selo oficial da direção do banco (Reichsbank Direktorium) foi substituído, a partir desta cédula, pelo do presidente do banco (Der Prasident Der Deutschen Reichsbank), trazendo uma águia, com as asas estendidas, portando a suástica do “Terceiro Reich” (1933-1945).
                       No reverso temos uma paisagem austríaca “Gosausee vor dem Dachstein” uma formação montanhosa da “Oberösterreich”, ou seja, da alta Áustria.



Fig. 8 – Reverso da cédula de 20 marcos de 1939 (P.185, 160 x 80 mm) com a paisagem austríaca “Gosausee vor dem Dachstein”, uma formação montanhosa da alta Áustria. 

                       Ela recebeu carimbos na Bélgica, as denominadas “anulações”, correspondentes a Ro.178b e Ro.178c. Ela foi, igualmente, reaproveitada para a emissão da Ocupação Soviética (Ro. 336) em 1948.


Fig. 9 – Variações do selo oficial da direção (Reichsbank Direktorium) e da presidência (Der Prasident Der Deutschen Reichsbank) do Reichsbank, respectivamente nas cédulas de 100 marcos de 1935, 1000 marcos de 1936, 20 marcos de 1939 e 5 marcos de 1942. As duas primeiras ainda com a representação utilizada pela República de Weimar e as seguintes com a nova roupagem do Terceiro Reich.

                       A origem desta cédula é muito interessante, ela é originária de um projeto do Banco Nacional Austríaco (Österreichischen Nationalbank) de 1930, para a cédula de 100 shillings[25], de autoria de Rudofl Jung (1880-1943) e Josef Seger (1908-1998). Em 2 de janeiro de 1936 aparece a segunda versão desta cédula (P.101) com pequenas alterações, que por causa da situação política jamais foi emitida.
                       Após a anexação da Áustria em março de 1938 o marco alemão foi declarado moeda oficial e o Reichsbank encarregado de liquidar o Banco Nacional Austríaco. O direito de emissão do Banco Nacional Austríaco foi suspenso e as cédulas em schillings perderam o status legal e foram trocadas pelo marco alemão na razão de 1,5 shillings por marco, considerada vantajosa para a época, mas que visavam, segundo alguns, seduzir a população pela nova ordem.

                       

Fig.10 – Anverso da cédula de 100 Shillings de 2.1.1936 (P.101). O reverso apresenta a paisagem austríaca “Gosausee vor dem Dachstein” uma formação montanhosa da “Oberösterreich”, semelhante ao que seria utilizado na cédula alemã de 20 marcos de 1939. O reverso também é semelhante apresentando a mesma paisagem, exceto as alegorias.

                       Assim, esta cédula conheceu dois specimens austríacos de 100 shillings, em 1931 e 1936 (Fig.10), ambas não emitidas. A Alemanha, utilizando os mesmos motivos e acrescentando ainda os do nacional socialismo (suástica e águia) imprimiu em 1939 a cédula de 20 marcos (Fig.7), que foi somente emitida em fevereiro de 1945.
                       O porquê desta escolha? Acreditamos (ante a falta de informações) que o reaproveitamento da estampa considerou o aspecto “nacionalista” do desenho (jovem tirolesa e os Alpes) e a questão da anexação da Áustria a Alemanha, o “Anschluss” na ótica do reagrupamento do povo germânico. Devemos ainda considerar que o país Natal de Hitler era a Áustria.
                       A historia da tirolesa terminaria ai, se não fosse a emissão de 2.1.1947, do reabilitado Banco Nacional Austríaco, que reeditou a idéia na cédula de 100 shillings.
                       Nesta “nova” cédula a “tirolesa” aparece em uma nova roupagem, uma outra jovem em trajes típicos, mas sem mudanças significativas em relação às cédulas anteriores.


Fig.11 – Anverso da cédula de 100 Shillings de 2.1.1947 (P.124). A mesma perspectiva dos specimens de 100 Shillings de 1931 e 1936 da Áustria e também da cédula de 20 marcos da Alemanha de 1939.



Fig.12 – Reverso cédula de 100 Shillings de 2.1.1947 (P.124), com a mesma paisagem austríaca “Gosausee vor dem Dachstein” dos specimens acima aludidos e da cédula alemã de 20 marcos de 1939 (Fig.8).


A cédula de 5 Reichsmark





Fig. 13 – Reverso da cédula de 5 Reichsmark de 1.8.1942 (P.186b, 140 x 70 mm).  Na gravura central temos a Igreja de Brunswick ou Dom St. Blassi.  

                       A cédula de 5 Reichsmark (P.186b, 140 x 70 mm) datada de 1.8.1942 e provavelmente emitida nesta mesma época, é ao nosso ver, o tipo mais representativo do regime nazista entre as cédulas emitidas pelo Reichsbank. No anverso temos uma gravura de um jovem representando a “Juventude Hitlerista”, ou pelo menos assim ficou conhecida. Desconhecemos referências oficiais quanto a esta designação. O selo do presidente do banco (Der Prasident Der Deutschen Reichsbank), traz a águia portando a suástica do Terceiro Reich (1933-1945). Esta cédula não apresenta a suástica central como as anteriores. A numeração apresenta uma letra seguida de 7 ou 8 dígitos, sendo a cédula impressa em maior quantidade dentre as que analisamos.
                       O catálogo World Paper Money indica a existência de cédulas com a marca d água invertida (o número 5), conferindo-lhe um valor dez vezes superior a cédula normal, fato não relatado no catálogo de H. Rosenberg.
                       No reverso temos uma gravura estilizada da Igreja de Brunswick (Brauschweiger Dom) ou Dom St. Blassi.
                       Por que da representação de uma igreja em uma cédula do período nazista?
                       A igreja de Brunswick ou Brauschweiger Dom situa-se na cidade deste mesmo nome, no centro-norte da Alemanha (Baixa Saxônia).
                       Henrique, o Leão (Heinrich dem Löwen) duque da Baviera e da Saxônia iniciou a construção desta igreja entre 1173 e 1196. A igreja foi consagrada em 1226 e dedicada a São Brás, São João Batista e a Tomás Becket. Henrique, o Leão e sua esposa Matilde, que era a Duquesa da Saxônia, foram enterrados nesta igreja. Com a Reforma esta igreja tornou-se protestante em 1543.
                       Durante o período nazista houve a tentativa de usar a imagem de Henrique, o Leão, como propaganda ideológica. O primeiro a se interessar pelo assunto foi Dietrich Klagges, primeiro Ministro de Brunswick na época, e membro do partido nazista. A cidade chegou a receber de Adolf Hitler o título de “a cidade mais alemã”.
                       O motivo de tudo isso é que Henrique, o Leão em 1147 promoveu uma “cruzada” contra os povos eslavos da costa báltica, subjugando-os e com isso aumentando a colonização dos povos germânicos em direção ao leste. Aproveitando-se deste fato, os ideólogos nazistas colocaram Henrique, o Leão como um dos pioneiros de sua ideologia.
                       Daí o fato de se incluir no reverso da cédula de 5 marcos esta igreja onde esta sepultado Henrique, o Leão. Adolf Hitler esteve no local em 1935.

Conclusão

                       Como vimos, durante o período nazista (1933-1945) foram emitidas quatro cédulas pelo Reichsbank (1876-1945) ligadas ao regime. Destas, duas tiveram circulação efetiva durante este período, quais sejam: a de 100 Reichsmark (1936-1945) que circularam por 9 anos e as de 5 Reichsmark (1942-1945) que circularam por 3 anos. As cédulas de 1000 Reichsmark (set. 1944-maio 1945) circularam por 8 meses e a de 20 Reichsmark (fev. 1945-maio 1945) apenas por 3 meses.[26]

                       As cédulas de 100 e 1000 Reichsmark pertencem à família de cédulas emitidas a partir de 1929, que o regime nazista utilizou acrescentando uma suástica subimpressa (underprint). Os homenageados não tinham nenhuma relação direta com o regime. Nestas cédulas, o selo da direção do banco (Reichsbank Direktorium), ainda trazia a águia do brasão oficial da República de Weimar (1918-1933), que seria alterada nas cédulas seguintes. A cédula de 100 Reichsmark vem datada de 24 de junho de 1935 e a de 1000 Reichsmark (Der Prasident Der Deutschen Reichsbank) de 22 de fevereiro de 1936. Assim, pensamos que foram concebidas já no período inicial do governo de Hitler.
                       As cédulas de 5 e 20 Reichsmark já traziam a nova concepção, ou seja, inteiramente ligada o regime nazista. A qualidade do papel da cédula de 20 Reichsmark, datada de 16 de junho de 1939 nos parece superior ao da de 5 Reichsmark datada de 1º de agosto de 1942, esta impressa em plena guerra.
                       a propaganda do regime só foi veiculada efetivamente pelos valores de 100 e 5 Reichsmark devido ao período de circulação, sendo esta ultima a mais representativa por conter mais elementos ligados ao nazismo.
                       No final da guerra as vias de comunicação se tornaram mais difíceis motivo da emissão de emergência pelas sucursais do Reichsbank na Áustria.
                       Com o desmantelamento do regime temos o reaproveitamento das estampas (também por motivos emergenciais) na Bélgica e no Luxemburgo e após, já em 1948, pelo Governo Provisório Soviético no quer viria a ser a Alemanha Oriental.
                       O reaproveitamento destas estampas pelos soviéticos nos causa espanto considerando as vítimas civis e militares destes, orçadas em mais de 20 milhões de pessoas.
                       Como vimos, estas cédulas circularam dentro do território alemão e nos territórios anexados ao Reich. Nestes apontamentos tratamos apenas das cédulas emitidas pelo Reichsbank, o meio circulante da época é complexo e será objeto de outros apontamentos.[27]



Quadro Geral

1. Cédulas emitidas pelo Reichsbank (1936-1945)
           
Valor                          data                 emissão                           Catalogação           
1.   100 Reichsmark
24.6.1935
1936, 1941, 1942 e 1945
P.183 a e b; Ro. 176 a-c e F
2.       5 Reichsmark
  1.8.1942
1942
P.186 a e b; Ro. 179 a-b
3. 1000 Reichsmark
22.2.1936
setembro 1944
P.184; Ro. 177
4.     20 Reichsmark
16.6.1939
fevereiro de 1945
P.185; Ro. 178 a

Cédulas de emergência emitidas pelas filiais do Reichsbank em Graz, Linz e Salzburg, na Áustria em fevereiro de 1945. Estas cédulas são reproduções foto-mecânicas, todas com a mesma numeração – T.7396475.
                       
5.   100 Reichsmark
24.6.1935
Fevereiro de 1945
P.190; Ro.182

2. Cédulas enviadas para as tesourarias do Reichsbank nos territórios anexados pelo Reich, e posteriormente revalidadas através de carimbos pelas autoridades belgas (1944-1945). Estes carimbos ficaram conhecidos como “anulações”[28].

6.   100 Reichsmark
24.6.1935
1944 e 1945
P.183 b; Ro. 176 d-f
7.       5 Reichsmark
  1.8.1942
1944 e 1945
P.186; Ro. 179 c-e
8.     20 Reichsmark
16.6.1939
1945
P.185; Ro. 178 b e c

3. Cédulas reaproveitadas em 1948 pelas autoridades soviéticas, com a utilização de selos, para emissão dos Deustche Mark, na ocasião da ocupação soviética do pós-guerra, antes da criação da Alemanha Oriental (DDR)[29].           

9.   100 D. mark
24.6.1935
1948
 P.7a e b; Ro.338 a-c e F
10      5 D. Mark
  1.8.1942
1948
 P.3; Ro. 333 a-b e F 
11.   20 D. Mark
16.6.1939
1948
 P.5; Ro 336



Anexo

Uma cédula de 50 Reichsmark de 1939?

  

Fig. 14 – Projeto? de uma cédula de 50 Reichsmark de 15.06.1939. No anverso uma jovem em traje típico da Alsácia; no reverso temos a Catedral de Estrasburgo (Strasbourg).

                        A imagem acima foi encontrada na internet sem referências quanto a procedência. É provável que trata-se de um specimen jamais utilizado. Seria o “par perfeito” da cédula de 20 Reichsmark, representando a incorporação dos territórios da Áustria e da Alsácia à Alemanha.

Observação Final
  
Aqui tratamos das cédulas emitidas pelo Governo Nazista durante a 2ª Guerra Mundial. Este conflito foi o maior já vivido pela humanidade, implicando na morte de cerca de 62 milhões de pessoas, na maioria civis. Entre os crimes praticados pelo governo nazista podemos citar a deportação em massa de populações (judeus, eslavos, ciganos...) para campos de concentração e de exterminação, o que ficou configurado como genocídio.


Bibliografia

- Abstempelungen Deutscher Geldscheine 1944 in Luxemburg und Belgien (Carimbos de anulação em cédulas alemãs em 1944, no Luxemburgo e na Bélgica) Michael H. Belles. Pirna, 2010
- Das Papiergeld im Deutschen Reich 1871-1948. Frankfurt am Maim: Deutsche Bundesbank, 1965.
- Die Deutschen Banknote ab 1871. Holger Rosenberg. Gietl Verlag, 16.Auflage, 2007.- Pouvoirs et monnaie durant la Seconde Guerre Mondiale en France : La monnaie subordonnée au politique. Jérôme Blanc (Université Lumière Lyon 2), Paper presented to the International conference on War, Money an Finance, “Monetary and Financial Structures: The Impact of  Political Unrests and Wars”, Economix, 19-20th of June, 2008.
- Standard Catalog of World Paper Money, General Issues, 1368-1960. Albert Pick - Edited by George S. Cujay. USA: Krause Publications, 12 th edition, 2008.




[1] A República de Weimar (1918-1933) foi instaurada na Alemanha após a 1ª Guerra Mundial, tendo como sistema de governo o parlamentarismo. Neste sistema, inicialmente democrático, o Presidente da República nomeava um chanceler (1º Ministro) que seria responsável pelo Poder Executivo. O Poder Legislativo era constituído por um parlamento (Reichstag). O período ficou conhecido por este nome, pois a República, sucessora do Império Alemão, foi proclamada na cidade de Weimar, onde a Assembléia Nacional Constituinte redigiu a Constituição (1919).
[2] Palavra que significava em primeiro lugar dirigente, chefe, guia de um partido político, depois passou a posteridade como designando a pessoa e as funções de Adolf Hitler.
[3] Neste caso limitando-se as estampas emitidas pelo Reichsbank entre 1936-1945 e aos reaproveitamentos.
[4] Por ordem de emissão.
[5] O Reichsbank emitiu cédulas de 50 Reichsmark em 1934, que apesar de serem da mesma “família” das que apresentamos nestes apontamentos, não possuem nenhum símbolo do novo regime.
[6] A Áustria foi anexada ao Reich (o Anschluss) em 1938, permanecendo nesta condição até o final da guerra. Para estas emissões de emergência foram aproveitadas outras estampas que não fazem parte destes apontamentos.
[7] Foram aproveitas outras estampas para estas emissões que não fazem parte destes apontamentos, como por exemplo, as cédulas em Rentenmark.
[8] Além de outras que não são objeto do presente estudo.
[9] Partidário do pangermanismo, ideologia e movimento que visam a agrupar num mesmo Estado os povos de origem germânica. (Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa).
[10] Estas cédulas não fazem parte deste estudo.
[11] Acreditamos que parte dela (que foi reunida à Áustria) a outra parte continuou a emitir moeda própria eis que era um Estado nominalmente independente sob a proteção do Reich.
[12] Tradução e adaptação de parte do texto de Jérôme Blanc intitulado Pouvoirs et monnaie durant la Seconde Guerre Mondiale en France : La monnaie subordonnée au politique, (Université Lumière Lyon 2), Paper presented to the International conference on War, Money an Finance, “Monetary and Financial Structures: The Impact of  Political Unrests and Wars”, Economix, 19-20th of June, 2008, p.8)
[13] Equivalente ao Banco Central da Alemanha de 1876 a 1945.
[14] « Muster » em alemão.
[15] Foram emitidos os seguintes valores desta família : 10 (P.180), 20 (P.181), 50 (P.182), 100 (P.183) e 1000 (P.184) marcos, sendo as duas últimas objeto destes apontamentos. 
[16] Segundo o “Das Papiergeld im Deutschen Reich 1871-1948”, publicação do Deutsche Bundesbank – Frankfurt am Main, 1965, p. 132.
[17] Para a determinação do preço dos exemplares recomendados o catálogo de H. Rosenberg eis que específico sobre a Alemanha. O caso da Ro.176a é característico; se esta cédula apresentar a letra central “E” e a letra de série L (0000001-5000000), é cotada em €40 para exemplares flor de estampa; caso apresente a letra central “E” e a letra de série M (0000001-0100000) é cotada a €1000, quando novas, uma diferença substancial. O motivo da diferença esta no fato de que, desta última série, foram impressas apenas 100 mil cédulas, contra 5 milhões da outra série.
[18] O agrupamento em relação aos órgãos emissores é de nossa autoria.
[19] As duas últimas são reaproveitamentos de estampa realizados por órgãos distintos do Reichsbank. Em relação à emissão da autoridade de Ocupação Soviética, temos até alteração do nome da moeda, de Reichsmark para Deutsche Mark.
[20] Apresentamos a variantes contidas no catálogo de H. Rosenberg, no entanto, não afastamos a possibilidade da existência de outras.
[21] Franco belga ou luxemburguês.
[22] Veja: Abstempelungen Deutscher Geldscheine 1944 in Luxemburg und Belgien (Carimbos de anulação em cédulas alemãs em 1944, no Luxemburgo e na Bélgica ) Michael H. Belles. Pirna, 2010.
[23] Planta das montanhas da Europa Ocidental em forma de estrela, o vocábulo provém do alemão edelweiss (de edel “nobre” + weiss “branco”).
[24] A capitulação alemã se deu em 8 de maio de 1945, ou seja, três meses depois.
[25] O projeto (specimen da cédula) desta primeira versão vem datado de 1 de abril de 1931.
[26] Após a capitulação estas cédulas permaneceram em circulação ainda por algum tempo até serem substituídas. Desconhecemos a data da desmonetização. Neste caso especifico tivemos a intenção de demonstrar o período de circulação durante o regime nazista.
[27] Um assunto correlato já foi publicado por nós no Boletim da AFSC nº 65 de março de 2012, intitulado “Emissões da Ocupação Militar Aliada após o desembarque na Europa (1943-1958)”.
[28] Foram aproveitadas outras cédulas que não fazem parte deste estudo.
[29] Mesmo caso da anteriores, foram aproveitadas outras cédulas que não fazem parte deste estudo.

Autor: Marcio R. Sandoval (sterlingnumismatic@hotmail.com) 
Publicado originalmente no Boletim da AFSC (Associação Filatélica e Numismática de Santa Catarina) n°67 de dezembro de 2013, p.4-18.