quarta-feira, 8 de agosto de 2012

CÉDULA COMEMORATIVA DOS 150 ANOS DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL (SESQUICENTENÁRIO DA INDEPENDÊNCIA)





Fig. 1 e 2 – Cédula de 500 cruzeiros (1972 – 1987) impressa pela Casa da Moeda do Brasil. Neste caso a C149 (P.196b) emitida em 1974.


                        Como parte das comemorações do Sesquicentenário da Independência do Brasil (1822-1972), o Banco Central emitiu em 1972 a cédula de Cr$ 500,00 (quinhentos cruzeiros). Conforme o “COMUNICADO MECIR nº 8”[1], a nova cédula teria como características principais: no anverso: “figuras representativas da evolução étnica brasileira, numa seqüência das diversas raças, por ordem de precedência histórica;” no reverso: apresenta uma seqüência de Cartas Histórico - Geográficas (“representando a evolução do espaço físico territorial brasileiro”) - Descobrimento, Comércio, Colonização, Independência e Integração. Suas dimensões básicas são 172 mm x 78 mm, cédula de maior dimensão já impressa após a mudança do padrão mil-réis para o novo padrão em 1942 e a primeira cédula comemorativa. Apresenta micro - chancelas na horizontal, a do Presidente do Conselho Monetário e a do Presidente do Banco Central, apresenta também elementos de segurança - filigrana ou marca d’água (Símbolo do Sesquicentenário da Independência 1822-1972), fundo de segurança com moiré e impressão luminescente. Foram impressas pela Casa Moeda do Brasil que utilizou as seguintes cores e métodos de impressão: no anverso – verde sobre policromia, em calcografia e offset; no reverso – verde e policromia, em calcografia e offset. Através do Comunicado MECIR Nº 15, de 31 de julho de 1979, o Banco Central informou ao público que havia lançado em circulação a estampa “B” da cédula de Cr$ 500,00 (quinhentos cruzeiros), que guardava as mesmas características da estampa “A’, com algumas alterações., vejamos: “I – inclusão no anverso de linhas paralelas, impressas em offset, na cor verde, sobre faixa vertical branca situada na extremidade esquerda da cédula onde está moldada a filigrana ou marca d’água. Estas linhas verticais definirão, sob a ação da luz emergente, um perfeito registro (superposição) com as linhas verticais igualmente impressas no reverso, na cor marrom; II – inclusão, no anverso, de motivo especialmente desenhado em caracteres unidos, compondo formas geométricas planas, impresso em offset, com predominância da cor verde, sobre a faixa branca situada na extremidade esquerda (ângulo interno inferior) da cédula. Esse motivo definirá sob a ação da luz emergente, um perfeito registro (superposição) com motivo de formas idênticas igualmente impresso no reverso, na cor marrom alaranjado. O Banco Central nesse mesmo comunicado informou que as cédulas da estampa “A” continuariam a circular concomitantemente com a estampa “B”. Estas cédulas circularam no período de 1972 a 1987, quando foram desmonetizadas. O projeto gráfico foi realizado por Waldomiro Puntar e as gravuras manuais por José Maria das Neves. F. dos Santos Trigueiros nos informa que “Aloísio de Magalhães desenhou os valores em posições invertidas, primeiro passo para que pudesse defender a idéia do desenho de tipos invertidos, empregados nas notas posta em circulação, depois deste tipo.”[2]

                      Na seqüência de Cartas Histórico-Geográficas temos as seguintes estilizações da direita para a esquerda:

 - Descobrimento

Mapa “de Cantino” – de 1502: descoberto por Giuseppe Boni diretor da Biblioteca Estense de Módena em 1859. Existe um fac-símile na Mapoteca do Ministério das Relações Exteriores no Rio de Janeiro. O curioso achado deu-se quando o Sr. Boni entrou numa salsicharia e “enquanto esperava que o merceeiro o atendesse, passou a examinar uma planta da loja, cujo forro era feito de pergaminhos desenhados. Esquecido das salsichas, o Sr. Boni, diretor da Biblioteca Estense de Módena, pagou bom preço pelos pergaminhos. Verificou que se tratava da mais antiga carta conhecida onde aparecem o Brasil e a linha de Tordesilhas. Era a primeira vez que se incluíam estas informações, porque os reis portugueses proibiam sua divulgação. Para conseguir um mapa completo, Alberto Cantino, espião italiano, teve de subornar um cartógrafo de Lisboa, pagando-lhe 12 ducados de ouro, mas recebeu um bom trabalho. O artista anônimo que quase certamente pertenceria às oficinas reais, reproduziu todas as terras conhecidas por Portugal, chegando ao requinte de assinalar a ilha de Ascensão, de localização tão recente que seus descobridores ainda não haviam regressado. O “mapa de Cantino” (como ficou conhecido) data de 1502 e mede 105 cm x 220 cm. Mostra ainda a costa oriental da América do Norte, que só seria oficialmente descoberta dez anos mais tarde.”[3] Na cédula aparece apenas a porção da carta em que está a representação da costa brasileira, com árvores e pássaros e na parte inferior a inscrição latina “Pollus Antartiais”. No século XV, segundo a etimologia, a palavra antártico significava “oposto ao pólo ártico”, ou seja, designava a região oposta ao Pólo Norte e não necessariamente a região Antártida. Nota-se que as árvores representadas no mapa se parecem mais com pinheiros das regiões boreais do que árvores tropicais propriamente ditas, mas, contudo, trata-se de mapa de sumo interesse histórico para o Brasil.

 - Comércio

Mapa “Terra Brasilis” – 1519: O mapa faz parte de uma coleção intitulada “Atlasde Miller” e pode ser encontrado na Biblioteca Nacional de Paris. Existi um fac-símile na Mapoteca do Ministério das Relações Exteriores do Rio de Janeiro -“...os mapas são de origem portuguesa, podendo ser atribuídos a Lopo Homem, cartógrafo oficial do Reino nas primeiras décadas do século XVI. “Terra Brasilis”, um mapa feito à mão sobre pergaminho, faz parte deste atlas e deve ter sido desenhado por volta de 1519, ainda sob o reinado de Dom Manuel. Detalhada nomenclatura (146 nomes) indica pontos da costa brasileira, do Maranhão à embocadura do Rio da Prata. Para o interior, o mapa mostra ilustrações realistas dos habitantes indígenas, alguns deles cuidando da extração do pau-brasil. As inscrições, como era hábito na época, são feitas em latim. E as bandeiras, uma ao norte (atual Guiana) e a outra ao sul (atual Argentina), assinalam os pontos extremos do avanço português. Antes de 1520, o Tratado de Tordesilhas, que limitava as terras de Santa Cruz com as possessões espanholas, já não era cumprido.”[4] Na cédula aparece a parte principal da carta, sendo que os 146 nomes não aparecem devido às suas pequenas proporções, sendo representados por linhas pontilhadas. Curioso notar a inscrição latina na parte superior esquerda da carta, apesar de reduzida, pode ser visualizada, através de uma boa lupa ou de ampliação, e diz o seguinte:

“Tabula hec regionis magni brasilis est, et ad partem occidentalem Antilias castelle regis obtinet. Gens vero eius negrescentis coloris fera et immanissima carnibus humanis vescitur. Hec eaden gens arcu et sagittis egregie utitur. Hic psytaci versicolores alie que innumere aves fereque monstruose et scymiarum plura genera reperintur pluriamaque arbor nascitur que brasil nuncupata vestibus purpereo colore tingedis opportuna censetur”.



Fig. 3 – Detalhe do reverso da cédula de 500 cruzeiros C149 (P.196b) contendo a inscrição latina, como consta no mapa original.

                         Em língua portuguesa temos: “Esta é a carta da região do grande Brasil, a qual toca, pela parte ocidental, com as Antilhas do Rei de Castela. Porém, a gente deste é de cor parda, brava e muito bárbara, e alimenta-se de carne humana. Esta mesma gente serve-se com suma habilidade do arco e flechas. Aqui se encontram papagaios versicolores, outras aves inúmeras, feras monstruosas, muitas espécies de macacos e nasce a árvore brasil, considerada boa para tingir as vestes de cor vermelha”.[5]



Fig. 4 – Detalhe do Mapa “Terra Brasilis” contendo a inscrição latina que foi reproduzida na cédula (Fig.3).

- Colonização

Mapa das “Capitanias Hereditárias” – 1574: “Em 1532, Dom João III dividiu o Brasil em capitanias, tentando incentivar o povoamento. A partir do litoral, a terra foi repartida em faixas paralelas e irregulares, doadas aos mais ilustres fidalgos da corte portuguesa. Muito tempo depois, em 1574, Luís Teixeira desenhava este mapa (hoje na Biblioteca da Ajuda, Portugal), em que aparecem as capitanias hereditárias com seus respectivos donatários (do norte para o sul): Rio Grande, Itamaracá, Pernambuco, Bahia, Ilhéus, Porto Seguro, Espírito Santo, Paraíba do Sul e São Vicente. A Bahia, considerada capitania de Sua Majestade, era a sede do governo-geral do Brasil. No mapa, a linha de Tordesilhas aparece deslocada dez graus para oeste, mas é provável que o erro seja proposital, pois favorecia aos portugueses, estendendo mais para ocidente as fronteiras da colônia brasileira.”[6] Existe uma cópia fotostática do referido mapa na Mapoteca do Ministério da Relações Exteriores. Na cédula se omite o nome da Capitania de Lopo de Souza (São Vicente) que se estendia até o estuário do Prata. Outra indicação omitida na cédula (apesar de constar algumas letras) é a denominação de “oceano meridional” no lado direito da carta. Notar o exagero cometido em relação à dimensões dos rios da Bacia do Paraná.

 - Independência

Mapa da época da Independência do Brasil - 1822, não localizamos qualquer denominação especial em relação ao mesmo. As fronteiras brasileiras antes mesmo da independência não eram ainda bem delimitadas, sendo que os mapas do período ainda apresentavam algumas imprecisões. O mapa, como os anteriores, não se mostra em sua integralidade, sendo assim uma estilização, tanto isto é verdade, que já em mapas do Século XVIII aparecem Capitanias na Região Norte, como a Capitania do Rio Negro e a Capitania do Grão Pará. Assim o território brasileiro, naquela época, já se estendia até a fronteira com o Peru (Rio Javari). Pode-se notar, na cédula, na parte superior do mapa, que as Guianas (Guiana Francesa e o Suriname) pretensamente faziam parte do território do Império recém criado. Não é verdade. A Corte Portuguesa transferiu-se para o Brasil em 1808 por causa da ocupação francesa e D. João VI declarou guerra a Napoleão e a todos os tratados realizados entre os dois países. Com o objetivo de retaliação e restabelecimento dos limites com a Guiana Francesa, estabelecidos no Tratado de Utrecht de 1713, D. João VI ordenou a conquista de Caiena através de uma expedição que partiu do Pará em direção ao norte. Com ajuda da Inglaterra (fragata inglesa – Confiance), os luso-brasileiros ocuparam a Guiana Francesa sem maiores perdas. A Guiana Francesa permaneceu sob domínio português até 1817, quando foi restituída aos franceses através de um acordo fixado entre a França e o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Tratou-se de uma ocupação provisória, sendo que a Guiana Francesa (até hoje território ultramarino da França) nunca fez parte do que viria a ser o Império do Brasil. Quanto ao Suriname (naquela época colônia holandesa) nunca fez parte do território brasileiro. Os Estados brasileiros, na época Províncias do Império também já começavam a se definir, com destaque ao fato do Estado de São Paulo ainda congregar em suas fronteiras o que viria a ser o Estado do Paraná em 1853. Outra curiosidade são os contornos da então Província de Santa Catarina, divisão esta já existente há quase um século (1738), naquele ano de 1822, acompanhando o traçado da Serra do Mar, onde estava restrita. O território onde se situava a antiga Colônia do Sacramento foi em 1821 incorporado ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves e transformando-se em Província do Império Brasileiro em 1824, com o nome de Província Cisplatina. Em 1825 teve início a luta separatista, sendo que em 1828 a Província Cisplatina conseguiu a independência com a criação da República Oriental do Uruguai. A linha de contorno da então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, atual Estado do Rio Grande do Sul, que aparece no mapa reproduzido na cédula, ao que tudo indica é referente ao Tratado de Santo Ildefonso de 1777. Talvez com a localização da procedência deste mapa se poderia analisar com mais precisão os dados aqui expostos.

 - Integração

Mapa que representa os atuais contornos do território nacional e simbolizava na época da confecção da estampa (1972) uma suposta integração norte-sul, que seria realizada através das rodovias que estavam sendo construídas, como a Transamazônica, a Perimetral Norte, a Cuiabá-PortoVelho-Manaus.


Nota: Em 22 de abril deste ano será lançada a Cédula Comemorativa dos 500 anos do Descobrimento do Brasil. Em leiaute provisório apresentado pelo Banco Central, além da figura de Pedro Álvares Cabral aparece novamente o mapa “Terra Brasilis” em uma nova estilização.

Referências Bibliográficas:

 – CASTRO, Renato Berbet de. As Cédulas do Banco Central do Brasil. Salvador: Editora Press Color Gráficos Especializados Ltda., 1989, 120p.
 – ICONOGRAFIA de Valores Impressos no Brasil. Banco Central do Brasil. Brasília: 1979, 313p.
 – MAPAS Históricos Brasileiros. Grandes Personagens da Nossa História. São Paulo: Abril Cultural, 1969, 58p.
 – RESENDE, Maria Efigênia Lage de. Atlas Histórico do Brasil, Belo Horizonte: Editora Vigília Ltda., 1987, 96p.
 – TRIGUEIROS, F. dos Santos. Dinheiro no Brasil. Rio de Janeiro: Léo Chistiano Editorial, 2ª Edição, 1987, 298p.

Autor: Marcio R. Sandoval (sterlingnumismatic@hotmail.com)

Obs.: Publicado no Boletim da AFSC - Associação Filatélica e Numismática deSanta Catarina, n° 47, agosto de 2000, p.8-13.

Republicado no Boletim da SNB (Sociedade Numismática Brasileira – São Paulo) n° 70 de 2013, p.55-61.



[1] Comunicados do Banco Central referente ao meio circulante.
[2] TRIGUEIROS, F. dos Santos. Dinheiro no Brasil. Rio de Janeiro: Léo Chistiano Editorial, 2ª Edição, 1987, p. 236.
[3] Grandes Personagens da Nossa História – Mapas Históricos Brasileiros, Abril Cultural, São Paulo,1969, p. 1
[4] Grandes Personagens da Nossa História – Mapas Históricos Brasileiros, Abril Cultural, São Paulo,1969, p.7.
[5] Iconografia de Valores Impressos do Brasil – Banco Central do Brasil, Brasília, 1979, p.81.
[6] Grandes Personagens da Nossa História – Mapas Históricos Brasileiros, Abril Cultural, São Paulo,1969, p.23