domingo, 14 de outubro de 2012

AS SETE MARAVILHAS DO MUNDO ANTIGO E O PALATINUS 398



Fig. 1 – Pagina inicial do documento que descreve As Sete Maravilhas do Mundo, atribuído a Philon de Bizâncio, contido no PALATINUS 398 (56v: Philo Byzantius, De septem orbis spectaculis, ca. Séc. X d.C). Manuscrito pertencente à Biblioteca da Universidade de Heidelberg na Alemanha.

No decorrer de suas viagens, um certo Philon de Bizâncio (ca. 280 a.C -  ca. 220 a.C) realiza uma lista de sete monumentos “Péri tôn hépta théamatôn” [A propósito das sete maravilhas], como sendo os mais remarcáveis de sua época. A lista primitiva continha os seguintes monumentos:

  1. A Pirâmide de Quéops (atual Egito)
  2. Os Jardins Suspensos da Babilônia (atual Iraque)
  3. As Muralhas da Babilônia (atual Iraque)
  4. A Estátua de Zeus em Olímpia (atual Grécia)
  5. O Templo de Artêmis em Éfeso (Ásia Menor – atual Turquia)
  6. A Tumba de Mausolo ou Mausoléu de Halicarnasso (Ásia Menor – atual Turquia)
  7. O Colosso de Rhodes (atual Grécia)
Com o passar dos séculos e de diversas outras listas, chegou-se a que conhecemos hoje, que inclui o Farol de Alexandria (Atual Egito), substituindo as Muralhas da Babilônia.

As Sete Maravilhas do Mundo é uma designação dada pelos gregos aos sete monumentos considerados entre os mais remarcáveis da antiguidade. O número sete foi escolhido em virtude do seu significado místico, a perfeição. As origens da lista são mal conhecidas e o assunto é controverso. Dentre muitas listas e muitas explicações, a que nos parece mais plausível é a do engenheiro grego Philon de Bizâncio (290 a.C. ou no início deste século), que foi corroborada por Antipater de Sidon, poeta grego do fim do século 2 a.C.

O poema de Antipater: “Eu vi as muralhas da soberba Babilônia onde podem correr as bigas, a estátua de Zeus no Olimpo, os Jardins suspensos, o Colosso de Hélios, o enorme trabalho das altas pirâmides, a opulenta tumba de Mausolo; mas quando vi o templo de Artemis que se lança até as nuvens, todo o resto foi eclipsado, e eu disse: a par do sublime Olimpo, do olho de Hélios, jamais vi coisa parecida”.  (Antologia Palatina, IX, 58)

A obra atribuída a Philon de Bizâncio De septem orbis spectaculis (As Setes Maravilhas do Mundo) foi traduzida do grego para o latim, pela primeira vez, por Léon Allatius e publicada em Roma em 1640. Sua importância esta ligada ao fato de ter sido a primeira narrativa de viagem que se tem conhecimento.


A história do manuscrito[1]: Trata-se de um documento em cópia única, que data, certamente do Séc. X d.C., segundo exame do pergaminho e da caligrafia, mas não posterior a primeira metade deste século. Sua presença foi atestada em um dos monastérios do Monte Atos (Grécia) onde ele deveria estar entre os séculos XIV e XV, um pouco antes da época em que se supõe que deu entrada na Biblioteca da Universidade de Heidelberg (Biblioteca Palatina), provavelmente por intermédio do Abade de Sponheim, fornecedor habitual destes manuscritos.

Em 1623, durante a Guerra do Palatinato, a cidade de Heidelberg, centro protestante, foi capturada por Maximiliano I, chefe da Liga Católica. O Papa, conhecedor esclarecido, aproveitou-se da oportunidade para transportar (com grande despesa) a Biblioteca Palatina para Roma. Leo Allatius (Leone Allaci), bibliotecário do Vaticano que acompanhou a transferência da biblioteca ficou incumbido de realizar um catálogo detalhado das obras. Ele estava em posição privilegiada para ser o primeiro a descobrir a importância do documento de Philon, texto pertencente ao intitulado “Palatinus 398”.

Allatius publicou em 1640, pela primeira vez, a tradução latina do documento, sendo esta a “Editio Princeps”, ou seja, a primeira edição, que foi considerada pelos especialistas como medíocre.
Em 1661 é publicada uma segunda tradução pelo francês Boessius, um helenista, que no decorrer de uma missão diplomática a Santa-Sé teve contato com o texto. A publicação, no entanto, veio acompanhada de um grande número de falhas de impressão tornando o texto ininteligível.

Em 1797, a França revolucionária, vence o exército pontifício e importa como butim quinhentos manuscritos. Por um curioso acaso, o Palatinus 398 chega a Paris. Um erudito de nome F.J. Bast examina o Codex e encontra o famoso texto de Philon, e publica notas críticas interessantes sobre o texto. Em 1816, após o exílio de Napoleão, no momento do ajuste de contas entre vencedor e vencido, a Santa-Sé reclama as obras de arte e parte de sua biblioteca, que haviam sido levadas. De sua parte, a Universidade de Heildelberg também demanda a restituição dos volumes que haviam sido levados pelo Vaticano. Finalmente o Palatinus 398 retorna à Universidade alemã onde se encontra nos dias de hoje.

O texto tem por título – “A propósito das Sete Maravilhas” sendo um conjunto de seis folhas, um prólogo e para cada maravilha um parágrafo. A última frase do sexto parágrafo (sobre o Templo de Artemis) esta incompleta e falta ainda o texto sobre o Mausoléu de Halicarnasso, anunciado no documento.  




Fig. 2 – Estátua colossal que pertencia ao Mausoléu de Halicarnasso (cerca de 350 a.C), Museu Britânico – Londres.



Fig. 3 – Moeda cunhada em Elis, no reverso temos Zeus no Olimpo, única imagem conhecida da Estatua de Zeus de Olímpia. (ca. De 43 a.C a 217 d.C.). (in, The Coins of Elis. Percy Gardner. Londres, 1879, p. XII).



Fig. 4 – Moeda de Elis (ilustração). (in, Projeto Gutenberg de História da Arte).

Bibliografia

 - Les Sept Merveilles du Monde. Jean Pierre Adam & Nicole Blanc. Perrin, 1989.

 - The Coins of Elis. Reprinted from the Numismatic Chronicle. 
Percy Gardner. Londres, 1879.


Autor: Marcio R. Sandoval (sterlingnumismatic@hotmail.com)



[1] Trata-se de uma compilação realizada durante a Idade Média provavelmente de fonte mais antiga, sendo esta a única conhecida.