quarta-feira, 17 de julho de 2013

WATERLOW & SONS

Waterlow & Sons[1] impressores de papel-moeda e outros documentos de segurança (1810-1961[2])


Fig. 1 – Propaganda da Waterlow & Sons, empresa inglesa de impressão de papel-moeda, selos postais, cheques, certificados de ações e outros documentos de segurança (cerca de 1850).


A empresa

            Waterlow & Sons, empresa gráfica e impressores de papel-moeda, selos postais, cheques, certificados de ações e outros documentos de segurança (1810-1961). Ainda fabricou prensas, cofres e máquinas de impressão.
            A empresa foi fundada em Londres em 1810 por James Waterlow. James era copista de leis para firmas jurídicas e, com o surgimento da litografia, técnica inventada por Alois Senefelder em 1796 na Alemanha, houve a possibilidade de substituir a cópia pela impressão litográfica.
            Assim foi criada a empresa Waterlow & Sons, utilizando-se a técnica da litografia para a reprodução de documentos jurídicos evitando-se com isso um trabalho árduo de compilação. A empresa contava com a participação dos filhos Alfred, Walter, Sydney e Albert.
            De acordo com a história oficial da família[3], temos:

“houve uma mudança na sorte deles quando conceberam a ideia de utilizar a litografia e a impressão como substitutos da cópia, sempre que se tornavam necessárias muitas cópias de documentos jurídicos, assim economizando tempo e despesas... Não obstante a objeção dos papeleiros, o Almirantado e o Juizado aprovaram a inovação. Nesse ínterim ele dera participação na sociedade aos filhos Alfred, Walter, Sydney e Albert...”

            Segundo a genealogia da família o primeiro Waterlow a chegar à Inglaterra foi Walran Waterlow, natural de Lille (França) que emigrou para Canterbury em 1625 fugindo da perseguição religiosa advinda da revogação do Edito de Nantes, que havia conferido aos huguenotes igualdade de direitos políticos em relação aos católicos. Mais tarde, transferiu-se para Londres para reunir-se com outros parentes vindos na mesma ocasião.
A empresa prosperou lentamente e em 1844 contava com vinte empregados. Com a maré da Revolução Industrial, Alfred vislumbrou uma formidável oportunidade. Juntamente com os irmãos, projetou maquinário adequado à impressão de horários e de bilhetes para as ferrovias. Além das ferrovias havia uma expansão geral dos negócios e em particular, dos bancos, das companhias de seguros, dos transportes marítimos, etc., todos estes consumidores vorazes de material impresso e de segurança. Neste período a empresa teve um grande desenvolvimento.



  Fig. 2– Prensa litográfica fabricada por Waterlow & Sons, cerca de 1855. Estas pequenas máquinas eram vendidas para a impressão de panfletos, anúncios, publicidade, etc.

Em 1877, após a morte do fundador, a empresa separou-se em duas sociedades.
O filho mais velho, Alfred, juntamente com os três filhos, Alfred Jr., Hebert e Walter, constituíram a firma Waterlow Brothers and Layton. Layton havia se associado à empresa em 1839. Esta firma ficou de posse da maioria das patentes e do material de impressão.
A outra firma, constituída por Sir Sidney Waterlow[4] e seus filhos, Philip, George e Charles, denominou-se Waterlow & Sons Ltda. Esta firma ficou com a impressão original do material ferroviário (que possibilitou o crescimento da empresa) e mais a impressão do papel-moeda estrangeiro e de selos que a empresa original havia iniciado em 1850.
Ambas as empresas progrediram separadamente e sem atritos até 1920, ano em que foram reunidas. A unificação das empresas está relacionada ao fato de que, o neto de Alfred[5], Willian Alfred Waterlon (1871 - 1931), haver notado que a impressão de papel-moeda era um negócio promissor. Ele, como diretor-gerente da Waterlow Brothers & Layton fez a empresa prosperar na impressão de papel-moeda com lucros maiores que a empresa dirigida pelos primos.
Em 1914, Willian Alfred Waterlow tornou-se presidente da Federation of Master Printers of Great Britain (Federação dos Mestres Impressores da Grã-Bretanha).
Naquele mesmo ano conseguiu obter uma encomenda do Tesouro Britânico, de cem milhões de libras em notas de uma libra (P.347), mediante a promessa de entregar os primeiros quatro milhões de cédulas dentro de cinco dias.
A encomenda emergencial foi realizada em 2 de agosto de 1914[6] e no dia 6 de agosto, quando os bancos reabriram, puderam contar com dois milhões e meio de libras em cédulas de um libra.[7] Estas cédulas foram impressas com papel destinado a selos postais, quebrando uma tradição de quase duzentos anos, eis que as cédulas do Banco da Inglaterra vinham sendo impressas desde 1724 em papel de linho.  
Além do papel, as novas cédulas eram menores do que as tradicionalmente emitidas e traziam a assinatura de Sir John Bradbury, secretário do Tesouro, passando a serem chamadas de “Bradburys”.


  Fig. 3 – À esquerda temos 1 libra (P.347) de agosto de 1914 (127 X 63 mm) e à direita, 10 xelins (P.346) também de agosto de 1914 (127 X 63,5 mm), ambas unifaciais e impressas por Waterlow & Sons com papel destinado a selos postais ante a premência do tempo de guerra.

Na pressa para realizar a entrega, alguns maços de cédulas haviam sido empacotados com cintas inteiras das novas cédulas, fato este que seria imperdoável para um impressor de papel-moeda em condições normais, considerando que este material não repertoriado poderia ter sido utilizado de maneira indesejada, apesar de, ao que tudo indica, não conterem as chancelas e a numeração. No entanto as cédulas garantiram o funcionamento dos bancos.
            Algum tempo depois conseguiram uma encomenda de cédulas de 10 xelins que partilharam com a concorrente e futura adquirente Thomas de La Rue & Company (atualmente De La Rue plc).
            Com as novas encomendas de papel-moeda, a firma construiu uma nova fábrica de cédulas em Waterford. Nesta mesma época imprimiram também cédulas para bancos privados escoceses e ingleses, estes últimos perderam o privilégio de emissão em 1921.
            Em janeiro de 1919 Willian Alfred Waterlow foi agraciado com o título de Cavaleiro Comendador da Divisão Civil da Ordem do Império Britânico, por serviços prestados à Coroa durante a Guerra. Passava agora a ter um tratamento formal, Sir William Alfred Waterlow.
            A condecoração vinha pelos serviços prestados à Coroa durante a Grande Guerra, consistindo na impressão de papel-moeda acima aludido e ainda em determinados serviços para o British Secret Service (Serviço Secreto Britânico), ou seja, falsificações. Estes trabalhos para o Serviço Secreto foram: imitação de selos da Alemanha, da Áustria e da Baviera, que foram utilizados em envelopes com propaganda aliada e numa operação secreta em 1917, quando os gravadores de Waterlow prepararam matrizes para a falsificação de cédulas alemãs.
            A solicitação a Waterlow para realizar os trabalhos para o Serviço Secreto Britânico na verdade foi uma convocação[8], ou seja, ele não poderia declinar desta obrigação, digamos, patriótica.
            Como vimos, com a prosperidade obtida por Waterlow Brothers & Layton durante a Grande Guerra, já em princípios de 1919 foram iniciadas as conversações para a fusão das empresas o que veio a ocorrer em 21 de janeiro de 1920.
            O novo presidente da firma era Sir Philip Waterlow. O filho Edgar juntamente com Sir Willian Alfred Waterlow tornaram-se diretores-gerentes associados. Com a fusão, Sir Willian passou para uma posição secundária. O primo Edgar seria naturalmente o sucessor o que, surpreendentemente, não veio a ocorrer em virtude de uma ação judicial intentada pela Thomas de La Rue & Company.
            Thomas de La Rue & Company e Waterlow & Sons haviam celebrado um acordo secreto no sentido de não fazerem concorrência mútua na obtenção de contratos de impressão com o Governo Britânico. Assim, a empresa escolhida concederia a outra uma percentagem nos lucros. Os pagamentos haviam sido feitos várias vezes por ambas as empresas desde 1913, porém, durante os anos de 1919 e 1920, Sir Philip Waterlow se furtou ao pagamento e ainda pior, embolsou indevidamente os pagamentos realizados por Thomas de La Rue & Company.
            Desta forma, em 9 de novembro de 1923, Sir Willian Waterlow tornou-se Presidente e Diretor-Gerente associado de Waterlow & Sons, após o afastamento de Sir Philip[9] da Presidência.
            Sir Willian Waterlow deixou a empresa em 1927, assumindo a presidência o primo Sir Edgar Waterlow (filho de Sir Philip). Continuou, entretanto, no conselho diretor de empresa até 1928. O afastamento de Sir Willian da Presidência da empresa está relacionado à questão das cédulas portuguesas[10] que descreveremos mais adiante.
            A par dos assuntos da empresa, Sir Willian Waterlow pretendia ser Lord Mayor (Prefeito) de Londres, o que veio a ocorrer em 1929.
            Em 1934 a Waterlow & Sons possuía seis fábricas em Londres, uma em Watford e uma outra em Dunstable. Tinha cerca de 5000 empregados.
            No relatório da British Commerce and Industry – The Post-War Transition 1919-1934, de 1934, existe um interessante relato sobre o caso do navio SS Egype, que havia naufragado em 1924 com um carregamento de cédulas impressas pela Waterlow & Sons com destino a um país do leste europeu. As cédulas, após terem passado dez anos imersas, foram recuperadas em perfeito estado de conservação, depois de ter sido retirado o lodo que as envolvia.  As cédulas haviam sido impressas em marrom sobre papel branco e ainda não continham as assinaturas e nem a numeração.
            Em uma reportagem do The Times de 13 de junho de 1932 sobre estas cédulas, temos: “elas foram postas a secar, e secaram magnificamente, com as cores quase inalteradas depois de dez anos na água e aptas à utilização. Elas são uma esplêndida contribuição para demonstrar a qualidade de impressão dos Waterlows. As letras em preto estavam ainda perfeitamente claras, e não havia nem mesmo manchas entre uma cédula e outra”.
            Naquele mesmo relatório do British Commerce and Industry, temos a descrição dos trabalhos da empresa, vejamos: “Essencialmente, o trabalho dos Waterlows consiste na concepção e execução de impressão comercial de toda sorte. Cartazes, catálogos, brochuras, folders, propagandas, guias de viagens e etiquetas são produzidos em grande quantidade. (...) Existe um departamento especial destinado a publicações legais. Milhares de advogados dependem desta empresa para o aprovisionamento em artigos de papel, em livros de contas e formulários jurídicos. “The Solicitors’Diary[11]” foi publicado de forma ininterrupta por esta empresa durante oitenta e nove anos e “The Bankers’Magazine”, fundado em 1844, foi publicado regularmente depois desta data”.


Fig. 4 – Propaganda da Waterlow & Sons em formato de cédula (o que seria um reverso), no local destinado ao valor temos: “CHEQUES, DRAFTS”, “LETTERS OF CREDIT” “BILLS OF EXCHANGE”, “SHARE WARRANS” “BANK NOTE ENGRAVER AND PRINTERS” e “DEBENTURES GOVERNMENT, BONDS, POSTAGE STAMPS”, no centro “WATERLOW & SONS LIMITED”, abaixo o endereço no centro de Londres, “GREAT WINCHESTER STREET, LONDON, ENGLAND”.

            Durante sua existência, a empresa imprimiu cédulas, selos postais, certificados de ações e outros documentos de segurança para diversos países, inclusive para o Brasil, sendo que pouquíssimas vezes conseguiu quebrar o monopólio quase completo da American Bank Note Company.
            Até 1925, ou seja, antes dos problemas advindos da impressão fraudulenta das cédulas portuguesas, a empresa encontrava-se numa posição privilegiada entre os maiores impressores de papeis de segurança. Desde o surgimento desta indústria de impressão até os anos 60 existiam cerca de 20 empresas neste ramo. Dentre elas, podemos citar: American Bank Note Company (ABNCo.), Bradbury, Wilkinson & Co. (BWC)[12], Thomas de La Rue & Company (TDLR)[13],  Waterlow & Sons Ltd. (W&S), Joh, Enschede en Zonen [14](JEZ) e Giesecke & Devrient[15] (G&D).
            Interessante notar que todas essas empresas forneceram cédulas para o Brasil.
            Em 1890 a Wartelow & Sons forneceu cédulas para o Banco do Brasil (S533-S535) e para o Banco Nacional do Brasil (S627-S630). Em 1906 imprimiu cédulas para a Caixa de Conversão (R169-R173; P.94-P.98) e para o Tesouro Nacional em 1936 (R130, R142, R153; P.59, P.71 e P.82).
            Entre os selos tivemos belos exemplares impressos por Waterlow & Sons, podemos citar a título de exemplo o de 200 e o de 2000 réis com uma bela imagem do Palácio Monroe e ainda outro de 10.000 réis com imagem do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.


Fig. 5 – Selo de 200 réis (Palácio Monroe – Rio de Janeiro), 1937 (Scott, A143), impresso por Waterlow & Sons.

            A Waterlow & Sons, depois de 1925, foi declinando nos negócios e em 1932 teve que pagar uma indenização de £ 610.392[16] ao Banco de Portugal, além das custas do processo, cerca £ 95.000. Pelo ocorrido e pelo declínio nos negócios, desapareceu como empresa impressora de papéis de segurança em 1961, adquirida pela antiga concorrente, a também inglesa, De La Rue plc., que é atualmente, segundo enunciado pela própria, a maior empresa de impressão neste ramo.


Fig. 6 – Imagem capturada de um vídeo produzido em 31/07/1960, cujo título é “Money Markes” (Fabricantes de Dinheiro). Trata-se, provavelmente, da fábrica de Waterlow & Sons recentemente adquirida, na época, por Thomas de La Rue & Company (De La Rue plc). Na imagem temos um funcionário realizando a gravação em chapa de aço amolecido em prensa de transferência. A prensa contém a marca de Waterlow & Sons. A cédula que aparece no cilindro é a de 50 cruzeiros da 2ª estampa do Tesouro Nacional de 1960 ou anterior, impressas pela Thomas de La Rue & Company.[17]

A questão das cédulas portuguesas[18]

            De acordo com o Art. 14 da lei de 29 de julho de 1887 que trata da constituição do Banco de Portugal, o mesmo tinha a licença exclusiva para emitir papel-moeda no país até o limite de duas vezes o capital realizado.
            Em 1924, com o intuito de atender necessidades governamentais, o banco havia emitido papel-moeda na proporção de cem vezes o seu capital, e sempre que havia necessidade o Governo recorria ao banco, pedindo a emissão de mais dinheiro. Este expediente não era uma exclusividade de Portugal sendo uma prática corrente em muitos países europeus no pós-guerra.
            A partir de 1891, as cédulas portuguesas não eram conversíveis em ouro ou prata e a única despesa para sua emissão era o custo da impressão. Em 1918, 8 escudos valiam 1 libra e em 1923 eram necessários 105 escudos para comprar a mesma libra.
            O Banco de Portugal havia sido organizado nos moldes do ancestral de todos os bancos centrais, que é o Banco da Inglaterra. O banco inglês no que diz respeito ao recolhimento das cédulas de papel-moeda, procedia da seguinte forma: quando lhe era devolvida uma cédula, em qualquer estado de conservação, registrava-se o número de série e a mesma era retirada de circulação e incinerada. O banco português tinha uma prática um pouco diferente: recebia as cédulas, estas eram lavadas e repassadas e em seguida classificadas por série e número para uma nova utilização.
            Uma das explicações para esta prática é que as cédulas utilizadas pelo banco eram impressas no exterior, sendo uma fonte de evasão de divisas. Na época o fornecimento de cédulas para Portugal era garantido por Waterlow & Sons e principalmente por Bradbury, Wilkinson & Co., subsidiaria autônoma  da American Bank Note Company desde 1903, como vimos.
            A impressão de papel-moeda permaneceu, praticamente, como monopólio das empresas[19] que detinham a tecnologia até em meados da década de 60, depois desta época, por questões de economia e de segurança, muitos países passaram a fabricantes.
            Em 4 de dezembro de 1924 um negociante holandês chamado Karel Marang  dirigiu-se ao estabelecimento principal do grande império tipográfico dos Waterlows, situado na Great Winchester Street, em Londres. Nas proximidades estava o Banco da Inglaterra, a Bolsa de Valores e a sede das principais companhias de seguros. Neste dia fatídico, Karel Marang apresentou o contrato que viria dar causa, anos mais tarde, ao desaparecimento da empresa enquanto impressora de papel-moeda. Vinha acompanhado de alguns documentos: um cartão de visita que o identificava como Cônsul Geral da Pérsia em Haia, de uma carta do ministro português, também de Haia, de uma carta de apresentação de uma tradicional empresa de impressão holandesa, situada em Haarlem, a Joh. Enschedé en Zonen e ainda de um contrato mirabolante entre um sindicato holandês e o Banco de Portugal para ajudar a combalida Angola, então colônia portuguesa.
            Marang apresentou-se ao diretor da empresa, Sir Willian Waterlow, que apesar de ser uma pessoa experimentada no campo dos negócios, acabou aceitando a encomenda de 200.000 cédulas de 500 escudos do Banco de Portugal, tipo Vasco da Gama (P.130), dando início a uma das maiores fraudes conhecidas contra a moeda.


Fig. 7Anverso da cédula de 500 escudos (P.130)[20], inicialmente impressas para o Banco de Portugal em 1922, por Waterlow & Sons num total de 600.000 cédulas e depois impressas novamente por este impressor mediante fraude praticada por  Artur Virgilio Alves Reis.

            Para compreender o caso, devemos conhecer Artur Virgilio Alves Reis, ou seja, aquele que planejou e executou todo o plano para a impressão fraudulenta das cédulas de 500 escudos, impressas pela empresa Warterlow & Sons em 1925.
            Nascido em 1896, Reis chegou a Angola em 1916. Conseguiu um emprego no Departamento de Obras Públicas com a apresentação de um diploma falso de engenheiro da Universidade de Oxford, de uma escola inexistente a “Polytechnic School of Engineering”.
            Inteligente e habilidoso, sendo o único “engenheiro” de Oxford em Angola, conseguiu trabalho na Companhia de Estradas de Ferro. Chegou logo ao controle desta companhia e efetuou manipulações ilegais na bolsa com as ações da empresa.
            Quando de retorno a Lisboa, as suas ações foram descobertas, ficando dois meses preso. Na prisão, concebe um plano para a fabricação de dinheiro.
            O primeiro passo foi falsificar um documento pelo qual um grupo de financistas holandeses emprestaria à colônia portuguesa de Angola a soma de um milhão de libras. Em compensação ser-lhes-ia conferido o direito de emitir papel-moeda para a Colônia em valor equivalente (cerca de 100 milhões de escudos portugueses). O contrato era ambíguo eis que o valor da emissão era o mesmo do empréstimo, não havendo nenhuma vantagem visível para a realização do negócio. Além do mais era inconcebível a ideia de que um governo soberano permitisse a um grupo estrangeiro de emitir sua própria moeda.      
            O passo seguinte foi reunir um grupo de cúmplices, de modo que nenhum deles tivesse conhecimento global do projeto. Um deles Karel Marang ficou incumbido de se aproximar de uma companhia impressora de papel-moeda. Nos planos iniciais pensava-se em uma empresa alemã para a realização da impressão das cédulas e nunca as próprias impressoras do Banco de Portugal, na época Waterlow & Sons e Bradbury, Wilkinson & Co., todas as duas situadas em Londres.
            As cédulas a serem impressas seriam a de 500 escudos (P.129), que trazia a imagem do poeta João de Deus Ramos e a de 1000 escudos (P.126)[21] com a imagem de Luis de Camões. Estas duas cédulas foram impressas por Bradbury, Wilkinson & Co., mas não apresentavam na margem branca a marca do impressor.
            Como a impressão das cédulas na Alemanha se mostrou de difícil realização, Karel Marang procurou inicialmente o impressor holandês de papel-moeda Joh. Enschedé en Zonen de Haarlem, Holanda. Este impressor explicou-lhe que não poderia reproduzir o trabalho do outro impressor e indagou-lhe por que não recorria à própria firma que realizou a impressão.
            Verificando as cédulas que estavam anexas ao contrato, a de 500 e 1000 escudos acima referidas, constatou que não havia, na margem branca, o nome da empresa impressora. Optou, assim, por outra cédula de 500 escudos (P.130), que possuía na margem branca o nome do impressor, qual seja, Waterlow & Sons de Londres.               
            Karel Marang era uma pessoa bem convincente, conseguiu ainda uma carta de apresentação da empresa Joh. Enschedé en Zonen, fundada em 1703, para ser entregue a Sir Willian Waterlow, presidente da Waterlow & Sons.
            Como descrevemos acima, Karel Marang dirigiu-se a Waterlow & Sons em Londres e apresentou toda a documentação à Sir Willian Waterlow e explicou-lhe que seu sindicato prontificava-se a adiantar a Angola um milhão de libras esterlinas e que em restituição, o Banco de Portugal lhe concederia o privilégio de uma emissão especial de papel-moeda. As cédulas de 500 escudos (P.130), tipo Vasco da Gama, que já haviam sido impressas para Portugal pela Wartelow & Sons seriam utilizadas para uma emissão especial em Angola e receberiam um carimbo “Angola” logo que chegassem à Colônia. Explicou ainda que, por motivos políticos, esta emissão deveria permanecer secreta e que um vazamento de informações causaria sérias implicações.
            Sir Willian Waterlow aceitou a negociação, sem mesmo comunicar aos demais colegas administradores. Tratava-se de mais uma oportunidade de fornecer papel-moeda a Portugal, já que a maioria dos contratos ia para a firma concorrente Bradbury, Wilkinson & Co.
            Alves Reis ainda falsificou mais duas cartas do Banco de Portugal, aprovando a transação.
            No inicio de 1925, 200.000 cédulas de 500 escudos foram impressas a um custo de £ 1500.
            Neste meio tempo, Alves Reis havia fundado um banco, o Banco Angola e Metrópole, com estabelecimentos em Lisboa e Porto que eram financiados pelas cédulas duplicadas. O Banco se desenvolveu bem, oferecendo dinheiro a taxas mais baixas do que os concorrentes.
            Com o desenvolvimento dos negócios é passada nova comanda de cédulas a Waterlow, agora 380.000 cédulas.
            Para cobrir os traços destas operações ilegais com papel-moeda, Alves Reis começou a comprar as ações do Banco de Portugal para se tornar acionário majoritário e com isso tornar impossível aos oficiais do banco lançar uma enquete sobre as cédulas duplicadas.
            Para trocar as cédulas de 500 escudos eram realizadas operações de câmbio, principalmente na cidade do Porto, onde havia os exportadores de vinho. Com o aumento do meio circulante, houve muitos rumores de falsificação, mas quando eram examinadas as cédulas, constatava-se que eram verdadeiras.
            Tudo ia bem, quando um contador do Porto resolveu informar ao Banco de Portugal que o proprietário da Casa de Câmbio onde ele trabalhava não realizava a devida escrituração das cédulas provenientes do Banco Angola e Metrópole e que o segredo da prosperidade daquele banco era justamente que as cédulas que distribuía eram falsas. Na verdade nada sabia o contador sobre as cédulas, ele apenas seguiu a opinião geral de que havia algo estranho com aquela prosperidade do banco.
            Uma denúncia era tudo que precisava o Banco de Portugal para fazer investigar o Banco de Angola e Metrópole, o que acabou acontecendo.
             Na investigação constatou-se que o banco possuía uma grande quantidade de cédulas de 500 escudos (P.130), todas verdadeiras. Em uma análise mais aprofundada, verificou-se que existiam cédulas com numeração duplicada e que não era possível dizer qual delas era a verdadeira.
            Quando a notícia foi divulgada o pânico se instalou. Todos queriam trocar as cédulas de 500 escudos (P.130), tipo Vasco da Gama. Diante do pânico e não havendo formas de distinguir as cédulas falsas das verdadeiras, o Banco de Portugal recolheu todas as cédulas de 500 escudos (P.130), o que fez vacilar toda a economia portuguesa.
            Havia algumas diferenças entre as cédulas do Banco de Portugal e as da emissão de Alves Reis, mesmo estas sendo provenientes do mesmo impressor.
            Na emissão verdadeira o número das séries não ia além de 1AN. O Banco de Portugal nunca usava duas vogais juntas, de maneira que 1AE e 1AI foram impressas pela emissão de Alves Reis. As letras W e Y, não deveriam existir por não fazerem parte do alfabeto português.
            Após o recolhimento, Waterlow & Sons informou a existência de dois detalhes que diferenciavam as emissões: as cédulas emitidas para Alves Reis apresentavam letras em micro-caracteres, de “I a P” junto à flor-de-lis do canto inferior esquerdo do anverso e, na margem branca, o nome do fabricante vinha acompanhado de uma vírgula suplementar, Waterlow & Sons, limited, Londres e não Waterlow & Sons Limited, Londres como aparece na original.


Fig. 8Detalhe da margem branca da cédula de 500 escudos (P.130), contendo o nome do impressor Waterlow & Sons, Limited, Londres, impressa com erro, o certo seria Waterlow & Sons Limited, Londres, sem a vírgula entre o nome e Limited. Esta seria uma das características das cédulas emitidas pelo grupo de Alves Reis, no entanto, é provável que algumas cédulas legitimamente emitidas tenham esta característica.

            Alves Reis foi detido quando retornava de Angola não oferecendo nenhuma resistência, sendo que teve oportunidade de fugir.
            Depois de um processo complicado, Alves Reis foi condenado a 20 anos de prisão. Karel Marang foi processado na Holanda e condenado a uma pena ínfima. Em seguida, mudou-se para Cannes, lá passando o resto de seus dias, muito rico. 
            O Banco de Portugal acionou Waterlow & Sons em Londres, obtendo em 1932 uma indenização equivalente a £ 650 000.
            Interessante notar a atuação dos tribunais ingleses e o valor da indenização. Quando da apuração de responsabilidades e da indenização demandada à White Star Line, proprietária do Titanic, que pertencia ao grupo americano International Mercantile Maritime Company, cujo principal acionista era J.P. Morgan, o valor repartido entre os familiares das vítimas chegou a $ 663 000. Esta sentença foi data em 1916 pelos tribunais ingleses, que concluíram ainda pela ausência de discriminação em relação aos passageiros da 3ª classe, embora tenha sido constatado que o número de mortos naquela classe tenha sido muitas vezes superior ao da 1ª classe, mesmo entre as crianças.
Em relação ao Banco de Portugal a indenização foi exemplar, concluindo pela total responsabilidade do impressor, compreendendo todo o montante das cédulas resgatadas. No entanto, acreditamos que os tribunais ingleses tenham sido muito mais rigorosos em relação à Waterlow & Sons do que em relação ao grupo J.P. Morgan no que diz respeito às indenizações.

Bibliografia
 - BLOOM, Murray Teigh. O Homem que Roubou Portugal. Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1966.
 - Grace’s Guide – British Industrial History -  Waterlow and Sons: 1934 Review - British Commerce and Industry 1934.
 - INNES, BRIAN. Fakes & Forgeries: the true crime stories of history’s greatest deceptions: the criminals, the scams, and the victims. Reader’s Digest, London, 2006.
 - CUHAJ, George S. Standart Catalog of World Paper Money – General Issues (1368-1960), Krause Publications, 12th edition, Iola, 2008.
- CUHAJ, George S. Standart Catalog of World Paper Money – Modern Issues (1961-Present), Krause Publication, 15th edition, Iola, 2009.
TITANIC, 100e anniversaire. Le magazine hors série. Montreal, 2012.
TRIGUEIROS, F. dos Santos. Dinheiro no Brasil. Léo Christiano Editorial, Rio de Janeiro, 2ª edição, 1987.



[1] Inicialmente tínhamos a intenção de escrever uma matéria sobre a questão das cédulas portuguesas de 500 escudos (P.130), tipo Vasco da Gama, que foram impressas pela Waterlow & Sons mediante fraude praticada por Artur Virgílio Alves dos Reis, constituindo-se em um dos maiores crimes contra a moeda jamais descoberto. Verificando a existência de diversas matérias sobre esta questão, optamos, além de descrever o ocorrido, enfocar em primeiro plano a história da empresa impressora.
[2] As datas são concernentes ao estabelecimento da empresa e a sua extinção como fabricante de papel-moeda, adquirida que foi, na parte de impressão de valores, pela De La Rue Company Limited (Thomas de La Rue & Company Limited , atual De La Rue plc), antiga concorrente. A outra parcela da empresa continuou em atividade até sua extinção completa em meados de 2004.
[3] Under Six Reigns, the House of Waterlow (A Empresa Waterlow durante Seis Reinados), por John Boon, editado em 1925 para comemorar os 114 anos da empresa e o 300° aniversário da chegada do primeiro Waterlow à Inglaterra.
[4] Foi Xerife, Vereador e Prefeito da City de Londres e depois membro do Parlamento.
[5] Dirigente da empresa Waterlow Brothers and Layton.
[6] Dia em que a Alemanha declarou guerra à Rússia
[7] Foram também impressas cédulas de 10 xelins (P.346) na mesma oportunidade ou pouco depois neste mesmo mês de agosto de 1914, desconhecemos a quantidade.
[8] Situação semelhante ocorreu com Thomas de La Rue & Company durante a 2ª Guerra Mundial, no caso das cédulas da Tailândia, em que foram obrigados pelo Governo Britânico a imprimir cédulas tailandesas sem autorização daquele governo que se encontrava sob a esfera japonesa. Estas cédulas não chegaram a circular, eis que, “por sorte” o avião misteriosamente caiu, nunca chegando ao seu destino.
[9] Em 1923, no momento da « aposentadoria » ele contava com 60 anos de atividade na empresa.
[10] Caso conhecido como “Angola e Metrópole”.
[11] O Diário dos Procuradores.
[12] Foi adquirida pela americana ABNCo. em 1903 e vendida posteriormente (1986) para a De La Rue plc (antiga Thomas de La Rue & Company).
[13] A partir de 1991 passou a se chamar De La Rue plc (DLR).
[14] Empresa holandesa, umas das mais antigas existentes.
[15] Empresa alemã.
[16] Em valores da época, correspondendo ao total das cédulas impressas menos a que foram recuperadas.
[17] O vídeo pode ser visualizado em Britispathe e outras informações podem ser obtidas neste blog.
[18] O assunto é complexo e não abordaremos todos os detalhes deste caso, já que o objetivo maior aqui é contar um pouco da história do impressor Waterlow & Sons. Recomendamos a bibliografia anexa e o Fórum de Numismática, para maiores detalhes e discussões sobre este assunto.
[19] Situadas na Europa e nos Estados Unidos.
[20] Imagem obtida na internet.
[21] Desta cédula são conhecidos apenas dois exemplares, um encontra-se na Fundação Cupertino de Miranda e o outro foi vendido na Inglaterra, em 2008, por cerca de 15.000 EUR.

Autor: Marcio R. Sandoval (sterlingnumismatic@hotmail.com) – agosto 2012

Obs.: Publicado originalmente no Boletim da AFSC - Associação Filatélica e Numismática de Santa Catarina, n° 66, agosto de 2012, p.4-15.