sábado, 22 de outubro de 2011

Emissões do Banco Austro-Húngaro e o Reaproveitamento das Estampas após a 1ª Guerra Mundial



Fig. 1 - Brasão Austríaco – Águia Bicéfala dos Habsbourgs, detalhe da cédula de 1 Krone (Coroa) de 1916.

                        Na matéria intitulada “Império Austro-Húngaro – Babel Lingüística e Numismática” publicada no Boletim da AFSC de março de 2006 (p.4 a 10), falávamos da incrível diversidade de línguas daquele Império e a sua presença nas cédulas do Banco Austro-Húngaro; nada menos de 10 línguas, na representação dos valores e da unidade monetária.
                        Falávamos, também, do desmantelamento daquele Império em virtude da 1ª Guerra Mundial e do reaproveitamento das estampas pelas novas unidades políticas surgidas daquela desagregação. Passamos aqui a análise destas emissões.
                        Como vimos, a união das coroas Austríaca e Húngara se deu em 1867. As primeiras emissões do Banco Austro-Húngaro são de 1880 (1.5.1880), em gulden (florins)[1]. As emissões em Krone (Coroa), o novo sistema monetário, se iniciaram em 1900.
                        As emissões para o Império Austro-Húngaro se prolongaram até 1918 (2.11.1918), ano da emissão da cédula de 10.000 Coroas, já sob os escombros do Império.     De 1880 a 1918 o Banco emitiu[2] o total de 25 estampas, sendo que as primeiras (n°1 a 5) são bilíngües[3] e não foram reaproveitadas (ver quadro). As emissões em Coroas (Kronen) seguem por ordem de emissão do n°4 ao 25, com a designação do valor e da moeda em 10 línguas (alemão, tcheco, polonês, ucraniano, italiano, esloveno, croata, sérvio, romeno e húngaro).
                         As estampas de n°6 a 25 foram todas reaproveitadas para novas emissões, com algumas exceções, são elas: as n° 7, 16, 18 e 22, estas apenas provas de estampa (proof).
                        Algumas destas estampas foram reaproveitadas por todas as novas unidades, são elas: a de n°8 (1000 Coroas), 12 (100 Coroas), 13 e 14 (20 Coroas) e 19 (10 Coroas).
                        Para melhor compreensão desta situação elaboramos um quadro[4] que passamos a nos referir.
                        A primeira coluna trata das cédulas emitidas pelo Banco Austro-Húngaro (n° 1 a 25), como vimos, as emissões entre 1880 e 1918. As demais colunas trazem as cédulas reaproveitadas, a partir de 1919.
                        Na segunda coluna temos as cédulas reaproveitadas para a Áustria (antes da formação da República da Áustria que se deu em 1922) de P[5].41 a 66. Neste período foram emitidas cédulas com:
- Superimpressões (Ovpt: Overprintig):
1ª (1919) - “Deutsch österreichP. 49 a 66.
2ª (1919) - “ECHT OESTERREICHISCH-UNGARISCHE BANK HAUPTANSTALT WIEN”, para as estampas de 1000 coroas (P.58) e para as de 10.000 coroas (P.63).
3ª (1920) - “Ausgegeben Nach dem 4. oktober 1920” P.41 a 48.
- Carimbos  (W/handstamp)
4ª (1919) - “note echt, stempel falsch” P.51b (não confirmado), 53b, 54b, 55b, 57b e 62b.
5ª (1919) - “note echt, stempel nicht konstatierbar” P. 55c e 57c

                        Além das superimpressões e carimbos que vieram marcar as diferenças com as emissões do período do Império, temos a substituição da “face húngara” em algumas cédulas, são elas: P.56 (100 Coroas), P.59 (1000 Coroas), P.60, P.61, P.64 e P.66.
                        A cédula de 1000 Coroas (P.59) causa estranheza, dando a entender que se trata de um erro de impressão, já que tanto o anverso como o reverso são praticamente iguais[6], ou seja, apresentam a mesma estampa. Trata-se de um engano, já que esta cédula é uma das mais comuns.
                        Essas emissões para a “Áustria” foram realizadas ainda pelo Banco Austro-Húngaro que continuou realizando emissões até 1922 (P.73 a 84), encerrando suas atividades com a criação do Banco Nacional Austríaco (Oesterreichische Nationalbank), com emissões a partir de 1924. Neste mesmo ano a moeda austríaca deixou de ser a Coroa passando ao Schilling, permanecendo até a sua substituição pelo Euro.
                        Das cédulas reaproveitadas para a Hungria (P.10 a 16 e P.18 a 32), as primeiras não apresentam superimpressão e podendo ser identificadas pela série. Estas cédulas foram impressas em Budapeste e apresentam diferenças em relação às impressas na Áustria.
                        As cédulas P.18 a 32 apresentam a superimpressão: MAGYARORSZAG e o brasão de armas. A superimpressão se localiza na “face húngara” apresentando diferenças na localização de cédula para cédula, apesar de ser uma superimpressão e não um carimbo.
                        As primeiras (P.10 a 16) foram emitidas em 1919 e as segundas (P.18 a 32) em 1920.
                        Além destas peculiaridades o World Paper Money menciona ainda a existência de carimbos adicionais em eslavo, romeno ou mesmo em alemão, além ainda das superimpressões por unidades militares (que não fazem parte do catálogo). Destas emissões não encontramos sequer vestígios.
                        Indica-se como órgão responsável por estas emissões o Banco Austro-Húngaro, mas imaginamos que houvesse a separação das atividades em relação à Viena e o Banco responsável por estas emissões teria sido o próprio Banco Nacional da Hungria (Magyar Nemzeti Bank), criado já em 1919, mas persiste a dúvida.
                        A Tchecoslováquia[7] surgida na extremidade norte do território, reaproveitou apenas 5 estampas (P.1 a 5). Todas apresentam um selo com uma superimpressão, os valores dos selos são respectivamente, 10, 20, 20 e 50 haleru e 1  e 10 Koruna (Coroas). Nas cédulas que visualizamos estes selos estavam sempre na “fase húngara”. O Catálogo informa que existem cédulas de 1000 Kroruna com selos na “fase alemã” mas que estas não teriam sido emitidas legitimamente. A cédula de 100 Kroruna (P.4b) apresenta perfuração no selo.
                        Além destas características, as cédulas ainda podem apresentar um carimbo adicional de cancelamento informando que os selos foram forjados.
                        Na seqüência temos a Romênia[8], com cédulas reaproveitadas (P.10 a 20 e P.10A a 20A). Todas elas apresentam um carimbo circular com a seguida legenda: “ROMANIA TIMBRU SPECIAL”. Da P.10 a 20 o carimbo encontra-se na “fase austríaca”, emissões para a Burkovina[9]. Estas cédulas podem apresentar ainda carimbos adicionais de unidades militares em húngaro e iugoslavo. Da P.10A a 20A temos o carimbo na “fase húngara”, emitidos para Siebenbérgen e Banat, também podendo apresentar carimbos adicionais de unidades militares em húngaro e iugoslavo.
                        Imaginamos, também, ante a falta de dados, que estas emissões estariam “desligadas” de Viena e teriam sido encampadas pelo Banco Nacional Romeno (Banca Nationala a Romaniei), com emissões desde 1880.
                        O Catálogo nomina a unidade monetária da P.10 a 20 de Kronen (em relação à “face alemã”) e da P.10A a 20A de Korona (em relação à “fase húngara”). Terá a Romênia preservado a Coroa nos territórios onde circulava? Ou havia um valor de câmbio desta moeda em relação à moeda nacional – “lei”. O que sabemos e que eram provisórias e foram substituídas posteriormente.
                        Para a Iugoslávia, surgida em 1918 e hoje já totalmente desmantelada, temos as primeiras emissões com cédulas provisórias (estas emitidas pelo Ministério das Finanças), P.1 a P.10 e P.1A a P.10B. A superimpressão é circular, texto em cirílico acompanhado de uma águia (P.1 a 5). Da P.6 a 10B, temos um selo e um carimbo que se apresenta em três (P.6 a 8) ou duas linguagens (P.9 a 9B). As de 100 Coroas apresentam perfuração nos selos. A de 1000 Coroas apresenta o carimbo em sérvio (P.10, letras cirílicas), em croata (P.10A) e em esloveno (P.10B). Além disso, estas cédulas apresentam uma série de outras carimbos e selos que dificultam sobremaneira a classificação. Desconhecemos a existência de uma catalogação específica sobre estas variantes com os selos e carimbos que foram aplicados. Notamos, entretanto, que pela maneira como foi realizado o reaproveitamento das estampas, cada cédula, neste caso, se reveste de características individuais que muitas vezes as tornam únicas.
                        Para finalizarmos temos Fiume, cidade portuária do Adriático, hoje na Croácia. Na época do desmantelamento do Império Austro-Húngaro houve a tentativa por parte da Itália de promover a emancipação da cidade para depois incorporá-la, em virtude do idioma italiano também ser falado naquela região.
                        Houve o aproveitamento de boa parte das estampas do Império com poucas exceções. Existem 2 tipos de superimpressões e 2 tipos de carimbos, com as seguintes designações:
Tipo I – “CITTA DE FIUME” (carimbo circular)
Tipo II – “CITTA DE FIUME” (superimpressão)
Tipo III – Brasão da Savoia[10] (carimbo).
Tipo IV – “INSTITUTO DI CREDITO CONSIGLIO NATIONALE, CITTA DE FIUME” (superimpressão retangular).
                        Existem exemplares que apresentam uma superimpressão e um carimbo, estes não foram catalogados, e ainda verificamos a existência de uma cédula de 1000 coroas (P.66) da Hungria, com um carimbo (Tipo I), verdadeira ou falsificada?
                        As 25 estampas do Império Austro-Húngaro resultaram em 158 variantes[11] de cédulas para os 6 novos “países”, sendo 35 para a Áustria, 24 para a Hungria, 7 para Tchecoslováquia, 22 para a Romênia, 16 para a Iugoslávia e 54 para Fiume.
                        Este número pode ser ainda aumentado a partir de novos estudos que incluam as variações de impressão, os carimbos das unidades militares e outros detalhes que ainda desconhecemos.
                        Alguns exemplos de superimpressões e carimbos utilizados para o reaproveitamento das estampas:


[1] Analisamos nesta matéria apenas as emissões realizadas pelo Banco Austro-Húngaro, excluindo-se destas as emissões do “Kassenschein der Oesterreich-ungarischen Bank”, P.29 a 40 para a Áustria e P.4 a 9 para a Hungria, as emissões do “Kriegsdarlehenskasse Kassenschein”, P.26 a 28 para Áustria e P.1 a 3 para Hungria e as emissões de notgelds que utilizaram cédulas diversas da tratadas aqui.
[2] Algumas não foram emitidas, sendo apenas prova de estampa (proof).
[3] Alemão e húngaro.
[4] Ver páginas finais da matéria.
[5] “P” de Pick, do editor do Standard Catalog of  World Paper Money, Albert Pick.
[6] Com exceção da superimpressão e da numeração.
[7] Atualmente dividida em República Tcheca e Eslováquia, ambos membros da União Européia.
[8] Novo membro da União Européia a partir de 2007.
[9] A Burkovina, a Dobroudja, a Transilvânia e Banat foram territórios atribuídos à Romênia após a 1ª Gerra Mundial.
[10] A Casa da Savoia , reinou na Itália de 1860 à 1946.
[11] Todos as cédulas catalogadas, menos as que não foram confirmadas.


Fig. 2 “Deutsch österreich”; Fig. 3 MAGYARORSZAG; Fig. 4“ROMANIA TIMBRU SPECIAL”; Fig. 5 “CITTA DE FIUME”; Fig. 6 e 7 a serem identificados; Fig. 8 Iuguslávia; Fig. 9 “INSTITUTO DI CREDITO CONSIGLIO NATIONALE, CITTA DE  FIUME”;Fig. 10 “INSTITUTO DI CREDITO CONSIGLIO NATIONALE, CITTA DE  FIUME” e “CITTA DE FIUME” (não catalogada) e Fig. 11. “CITTA DE FIUME” em cédula de 1000 korona da Hungria (não catalogada).

Bibliografia:

- Atlaséco 2004. Mediaobs, France, 322 p., 2004.
- Dictionnaire de Numismatique, Michel Amandry, Larousse, 630 p., 2006.
- Dinheiro no Brasil, F. dos Santos Trigueiros, Léo Cristiano Editorial, Rio de Janeiro, 2ª edição, 297p., 1987.
- Encyclopedie Eletronic Encarta, France, 1999.
- Géographie de L´Europe, F.Schrader et Galloédec, France, 2ª édition, 438 p, 1896.
- Le Petit Larousse - Grand Format 2003, Larousse, France, 1885 p., 2003.
- MRI Bankers´ Guide to Foreigh Currecy, USA, 43rd Edition, 256 p. , 2002.
- Standard Catalog of World Paper Money. Albert Pick. Krause Publications, USA, 9ª Edition, General Issues (1368 – 1960), 1178 p., 2000.
- Standart Catalog of World Paper Money, Geoge S. Cuhaj, 10° edition, Specialized issues, Vol. I, USA, 1170p., 2005.
- Vom Gulden zum Euro - Geschichte der österreichischen Banknoten, Barbara Aulinger, Böhlau Verlag Wien - Köln – Weimar, 299 p., 2000.


Fig.12 Brasão Húngaro – detalhe da cédula de 1 Coroa de 1916.

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Obs.: Fizemos nesta matéria uma distinção entre “superimpressão” e “carimbo”, acompanhando a expressões inglesas, Overprintig e handstamp. Esta distinção não encontra ressonância no Brasil, eis que são usados os termos “carimbo” e “superimpressão” indistintamente. A superimpressão é a impressão realizada posteriormente à confecção da cédula, normalmente para reaproveitá-la. Isto aconteceu no Brasil, por exemplo, com algumas cédulas do mil-réis que foram reaproveitadas para as primeiras emissões do cruzeiro em 1942. Aquela impressão foi realizada através de maquinário apropriado, a impressão neste caso, apresenta-se com um índice de regularidade considerável. O carimbo é também uma impressão, mas realizada manualmente, podendo apresentar irregularidades na impressão e se apresentar em qualquer lugar da cédula, além de ser de qualidade inferior tendo-se em vista o método empregado. No Brasil foram utilizados “carimbos” nesta acepção, como elementos distintos das características das cédulas, como por exemplo: “INUTILIZADA”, “AMOSTRA”, “FALSA”, “SPECIMEN”, “MODELO”..., estes aplicados manualmente, considerando as falhas de impressão e se encontrarem em locais distintos em cada cédula.