segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O MEIO CIRCULANTE NO BRASIL HOLANDÊS


 O Meio Circulante no Brasil Holandês (1)



Fig.1 – Monograma da W.I.C – “West-Indische Compagnie” (Companhia das Índias Ocidentais) ou G.W.C – “Geoctroyeerde Westindische Compagnie” (Companhia Privilegiada das Índias Ocidentais), na parte inferior temos “XIX” referência ao “Conselho dos XIX”, órgão administrativo da Companhia. ”Algemeen Rijksarchief Den Haag”, a partir do texto de Johan van Hartskamp.

Reminiscências

           A presença holandesa no Novo Mundo deu-se através de uma companhia de comércio, a Companhia das Índias Ocidentais, conhecida como W.I.C, sigla em flamengo para “West-Indische Compagnie” ou, ainda, GWC (Geoctroyeerde Westindische Compagnie), Companhia Privilegiada das Índias Ocidentais.
         A W.I.C era uma associação de comerciantes de Amsterdã, Zelândia, Mosa e Groningen, concebida como um instrumento de guerra contra a Espanha de Felipe II, inserindo-se na luta de independência dos Países Baixos.
          A W.I.C foi formada em 1621 à semelhança e pelo sucesso da Companhia das Índias Orientais (VOC), esta estabelecida em 1602 e que possuía o monopólio comercial com o Oriente.
Concedeu-se à companhia o monopólio do tráfico e do comércio de escravos na América e África, mas o seu maior objetivo era a retomada do transporte e do comércio do açúcar produzido no nordeste brasileiro, dificultado em virtude da represália da Espanha à proclamação de independência, em 1581, da República das Províncias Unidas, com sede em Amsterdã.
        Nessa época, Portugal era governado por Felipe II da Espanha, em virtude da União Ibérica (1580 a 1640).
      Além da questão comercial, outros fatores teriam influenciado os holandeses a aventurarem-se na conquista das colônias espanholas e portuguesas, entre os quais podemos citar: o desejo de levar a guerra às colônias e a “irreprimível ânsia de expansão” do povo neerlandês.
           Em 1624, os holandeses invadiram Salvador, lá permanecendo apenas um ano.
Uma nova tentativa de estabelecimento se deu em 1630, em Pernambuco, onde eles conseguiram ficar por 24 anos.
         Submetidos a conflitos permanentes com a população local, ocupada em expulsá-los, por vezes se viam privados do fornecimento de numerário metálico proveniente da Metrópole (florins, soldos e xelins), passando, assim, por graves crises monetárias. Em resposta a essa necessidade, foram cunhadas as primeiras moedas no Brasil e, também, criadas as primeiras formas assemelhadas ao papel-moeda de que se tem notícia em nosso país.

Ordens de Pagamento e as Ordenanças
     (1636-1637, 1640 e 1644) (2)



Fig. 2 – Gravura do Século XVII (1655), do prédio da W.I.C (1621-1674), em Amsterdã.


          Segundo o historiador Hermann Wätjen (3), que se baseou em manuscritos do Arquivo dos Estados Gerais e da WIC (W.I.C.O.C) (4), as emissões realizadas pelos holandeses, no Brasil, foram de duas espécies: as “ordens de pagamento” e as “ordenanças”.
          As “ordens de pagamento” surgiram durante a primeira fase da dominação holandesa (1630-1637), conhecida como período da “Conquista”, que vai da tomada de Olinda até a chegada de Maurício de Nassau.
            Em junho de 1636, os Conselheiros informaram os Diretores da Companhia que haviam começado a emitir letras (sem qualquer autorização) sobre Amsterdã, por não haver mais dinheiro em caixa.
No Governo de Nassau, foi instaurada uma Comissão de Inquérito para apurar eventuais desatinos administrativos do antigo Governo. Essa Comissão constatou, entre outras irregularidades, que o Colégio dos Conselheiros Políticos, Órgão da Administração Superior da Conquista, havia emitido “ordens de pagamento” em número ilimitado, com base nas cifras das remessas de dinheiro que chegariam da Holanda a longo prazo, quando seriam resgatadas. Essas ordens continham as assinaturas dos Conselheiros, motivo pelo qual, também, ficaram conhecidas como “assinados”. Foram emitidas para a satisfação de dívidas e cobertura de gastos urgentes. No entanto, segundo ficou apurado, alguns Conselheiros não guardavam o devido decoro e viviam luxuosamente às custas dos acionistas.
Houve emissões em excesso, suplantando a cifra nominal das esperadas remessas de dinheiro que viriam da Metrópole.
         As “ordens de pagamento” ainda estavam sendo recolhidas em março de 1637, mediante a exibição de provas da correta aplicação e justa necessidade das somas nelas exaradas. Havia grande quantidade de ordens em circulação, sendo indeterminado seu número.
Emitiram-se ordens de valores avultados, de 8.000, 10.000, 16.000, 20.000 e até 25.000 florins.
As denominadas “ordenanças” apareceram mais tarde, já no Governo de Maurício de Nassau (1637-1644), diante da escassez de numerário e da ameaça da Armada Espanhola, que surgiu nas costas da Nova Holanda, em janeiro de 1640.
         Com o desaparecimento da moeda circulante, viu-se o Governo obrigado a emitir as chamadas “ordennatien”, ou seja, ordens de pagamento pelas rendas reais, em arrecadação, através de um decreto (Decreto de 1640) em que se determinava a aceitação obrigatória dessa espécie de “papel-moeda” em pagamento de qualquer transação. Como já havia acontecido com as “ordens de pagamento”, não foi respeitado o limite máximo de emissão, não tardando as ordenanças a inundar toda a região.
             Ao mesmo tempo em que circulavam as “ordenanças”, entraram em circulação vales, em troca de farinha de mandioca e carne, caindo rapidamente o câmbio das ordenanças.
Os especuladores adquiriam as ordenanças em grande quantidade, por preço vil, e com elas pagavam seus impostos e compravam, em leilões, escravos expostos à venda. Quando o Governo vetou a utilização dos vales de farinha e carne no pagamento dos tributos, as ordenanças caíram ainda mais, a ponto de perderem 33 1/3 por cento do seu valor original.
           Para conter a crise das ordenanças, foi decido pelos Diretores que as Câmaras da W.I.C fizessem remessas mais avultadas de moeda e, pouco a pouco, o Alto Conselho pôde resgatar o acervo existente de “ordenanças” e vales.
        A administração de Nassau terminou em maio de 1644 e novas crises financeiras se sucederam, levando novamente à emissão das “ordenanças”, diante do perigo de uma sublevação militar, que poderia pôr em perigo a dominação holandesa.
            Podemos tentar estabelecer uma diferenciação entre estas duas espécies. As ordens de pagamento foram emitidas sem autorização legal, enquanto que as ordenanças estavam amparadas pelo Decreto de 1640, dando-lhes curso legal e forçado. Em ambos os casos houve emissões exacerbadas, suplantando a expectativa de crédito.
          Não são conhecidos exemplares dessas primeiras manifestações, nem suas características, apenas que as ordens de pagamento continham as assinaturas dos Conselheiros holandeses e que foram emitidos os valores de 8.000, 10.000, 16.000, 20.000 e 25.000 florins, estes considerados avultados, dando a entender que havia bilhetes de valores menores. As “ordens de pagamento”,assim, tinham um valor determinado, diferindo dos da Real Extração dos Diamantes (5) que tinham um valor variável, conforme a quantidade de ouro apresentada. Das “ordenanças”, não encontramos maiores detalhes.
            A que tudo indica, esses bilhetes eram manuscritos diante da inexistência de impressores no Recife.
Sobre essas primeiras manifestações, temos os apontamentos de F. dos Santos Trigueiros. Vejamos:

“No século XVII, os holandeses, instalados militarmente em parte do território brasileiro, estavam sujeitos aos ataques das tropas empenhadas em expulsá-los. Confinados na área ocupada, sem rápida assistência da Metrópole, sofreram várias crises monetárias. Para solucioná-las, emitiram “ordens de pagamento” que, circulando como moeda, permitiram saldar os compromissos urgentes, sobretudo os da tropa, nem sempre disposta a esperar. Essas ordens eram resgatadas quando chegavam as remessas de moeda da Holanda. Não bastasse as preocupações dos limites terrestres e das despesas militares, sobreveio, por volta de 1640, a ameaça de um ataque da Espanha, o que provocou o desaparecimento da moeda em giro, escondida por seus possuidores. Novas medidas impunham-se para conjugar essa crise. Emitiram-se, então, as “ordenanças”, com curso legal e forçado, em virtude da determinação de serem aceitas em qualquer obrigação comercial. A emissão exagerada destes bilhetes acarretou a alta da moeda metálica e dos gêneros de primeira necessidade, afetando, naturalmente, o custo de vida, pois, paralelamente, entraram também em circulação vales representativos de produtos de consumo. Em 1643, essas “ordenanças” voltaram a circular, deixando, automaticamente, de terem curso, tanto como os florins, com a expulsão dos holandeses de nosso território. Esses bilhetes marcaram a primeira manifestação de papel a circular como moeda. Por terem sido, entretanto, posto em giro por tropa de ocupação e em território muito limitado, não tem qualquer relação com os papéis mais tarde emitidos em nosso país.” (in, Dinheiro no Brasil. Rio de Janeiro: Leo Christiano Editorial, 2ª ed., 1987, p.65-66) (grifo nosso).

           Violo Ídolo Lissa, no seu excelente “Catálogo do Papel-Moeda no Brasil”, traz:

“Damos início ao presente trabalho com a emissão dos bilhetes da Real Extração dos Diamantes, Arraial do Tejuco, Capitania das Minas Gerais, autorizada pelo Regimento de 2 de agosto de 1771, embora a primeira manifestação da emissão de papel-moeda no Brasil tenha sido as “Ordenanças”, bilhetes emitidos pelos holandeses nos anos de 1640 e 1643, na área de ocupação de Recife, tendo curso forçado como moeda.” (in, Catálogo do Papel-Moeda no Brasil, 1771-1986, Emissões oficiais, bancárias e regionais. Brasília: Editora Gráfica Brasiliana Ltda, 1987, p. 13). (grifo nosso).

          Um outro aspecto interessante sobre essas emissões é que elas ocorreram no século XVII, quando nem mesmo o Banco Nacional Holandês havia sido organizado, sendo que este só veio a emitir seus primeiros bilhetes em 1814. No entanto, como podemos constatar os holandeses já faziam uso da moeda de papel, para suprir a falta de numerário metálico.
       Antes de terem início as emissões oficiais, os europeus utilizavam bilhetes manuscritos, contendo assinaturas, que depois seriam resgatados por moeda sonante. O Banco da Inglaterra emitiu seus primeiros bilhetes e certificados de depósitos em 1694 (no mesmo ano de sua fundação). Esses primeiros bilhetes eram manuscritos, sendo que, em 1696, o banco passou a utilizar bilhetes parcialmente impressos, ou seja, o valor, a numeração, a data de emissão, o beneficiário e as assinaturas eram manuscritos como um cheque.


Fig. 3 – O mais antigo bilhete manuscrito conhecido do Banco da Inglaterra, do ano de 1695. A partir de 1696, os bilhetes passaram a ser parcialmente impressos. Exemplar do Museu do Banco da Inglaterra, Londres.

          Se até mesmo o Banco da Inglaterra emitiu bilhetes manuscritos nos primeiros anos, podemos imaginar que as “ordens de pagamento” e as “ordenanças” emitidas pelos holandeses, no Brasil, seriam manuscritas e não impressas. A inexistência de imprensa no Recife vem corroborar com essa idéia, mas nos faltam informações mais precisas.
             Não encontramos referências, para efeito comparativo, de demais emissões que porventura teriam sido realizadas no período pela Administração Colonial Holandesa através da WIC, em outros territórios.
Em relação à sua congênere oriental, a Verenigde Oostindische Compagnie (VOC), ou seja, a Companhia das Índias Orientais, temos as emissões para as Índias Orientais Holandesas (6) a partir de 1703 – letras de crédito, em rijksdaalders. Temos, ainda, um curioso exemplar de 1805, 50 rijksdaalders (S120), com texto impresso em holandês e árabe, ostentando o monograma da companhia, vejamos: 


Fig. 4 – 50 rijksdaalders (S120), das Índias Orientais Holandesas de 1805. Texto bilíngüe, holandês e árabe. Na parte inferior esquerda, podemos visualizar o monograma da VOC, a congênere oriental da W.I.C.


              Teriam as “ordens de pagamento” e as “ordenanças” o monograma da W.I.C?
         Não se sabe, mas parece inacreditável que não tenham restado exemplares desses bilhetes, diante da quantidade de documentos da Companhia ainda existentes em arquivos na Holanda e no Brasil. Acreditamos que à medida que esses arquivos forem mais amplamente divulgados, teremos mais novidades sobre esses bilhetes, ou seja, as primeiras manifestações assemelhadas ao papel-moeda de que se tem notícia no Brasil.
             Além das primeiras manifestações de valores assemelhados ao papel-moeda naqueles anos (1636-37, 1640 e 1644 – as datas não são precisas), os holandeses cunharam, em 1645 e 1646, moedas de ouro nos valores de III, VI e XII florins e, em 1654, moedas de prata no valor de XII soldos.
             Essas foram as primeiras moedas cunhadas para o Brasil.

1 A denominação em holandês era “Nieuw Holland”, ou seja, Nova Holanda, mas o termo mais corrente sempre foi Brasil Holandês, mesmo entre os holandeses.
2 As datas não são absolutas, sendo que estudos futuros podem vir a modificá-las.
3 WÄTJEN, Hermann. O domínio colonial holandês no Brasil: Um capítulo da história colonial do século XVII. Recife: Cia. Ed. de Pernambuco, 2004, p.291-343.
4 West-Indische Compagnie, Oude Compagnie”, ou seja, WIC, Companhia Velha (1621-1674).
5 Primeiros exemplares de que se tem prova material da circulação fiduciária no Brasil.
6 Hoje Indonésia.

Publicado originalmente no Boletim n˚ 60, da AFSC (Associação Filatélica e Numismática de Santa Catarina), agosto de 2009, p.4-9).


Damos início à segunda parte desta matéria tratando das moedas emitidas pelos holandeses durante sua permanência no Brasil e, na seqüência, dos demais componentes do meio circulante da época.

As primeiras moedas cunhadas no Brasil
(1645,1646 e 1654)


Fig.1 - Anverso da moeda de XII florins de ouro, cunhada pelos holandeses no Brasil com ouro proveniente da África. Abaixo do valor temos o monograma da Companhia GWC (Geoctroyeerde Westindische Compagnie). No reverso temos «ANNO BRASIL» seguido da data: 1645 ou 1646. (Museu Histórico Nacional – Rio de Janeiro).
Observação: A denominação mais comum é florim, mas os documentos de época mencionam “ducado”.

            Os holandeses cunharam, no Brasil, moedas de ouro no valor de III, VI e XII florins (ou ducados), com datas de 1645 e 1646 e moedas de prata no valor de XII stuivers (soldos), com data de 1654. A partir da metade do Século XIX, começaram a aparecer falsificações, tanto dos ducados como dos soldos (valores de X, XX, XXX e XXXX).
          As características dessas moedas chamam a atenção. Há alguns anos, vimos uma delas no Museu Britânico ao lado de um dobrão de Minas (algo mais representativo para a numismática brasileira?). Faltava, apenas, a Peça da Coroação.
         Moeda quadrada ou rombóide. No anverso, sob a cifra romana que exprime o valor, temos as iniciais da Companhia das Índias Ocidentais (GWC) entrelaçadas e, no reverso, a inscrição “ANNO BRASIL”, seguida do ano 1645 ou 1646. Alguns autores afirmam que o pequeno losango (depois um ponto e por fim sem nenhuma marca), após a palavra Brasil, é a abreviatura de BRASILIæ, termo em latim para “do Brasil”. Outros afirmam que se trata da marca da oficina monetária ou do cunhador.
           Essas moedas foram cunhadas em ouro proveniente da Costa da Guiné, território que depois passou a se chamar Costa do Ouro e, a partir de 1956, Gana. As moedas de prata de 1654 são unifaciais, apresentando a cifra romana (XII) e a iniciais da Companhia GWC, seguidas do ano 1654.
Teriam sido os holandeses os primeiros a bater moeda no Brasil?
              Vejamos o que nos informa Lupércio Gonçalves Ferreira, comentando os apontamentos de Affonso de E. Taunay e Solano de Barros:

“O Dr. Affonso de E. Taunay, que foi diretor da Revista Numismática, publicação oficial da Sociedade Numismática Brasileira, escreveu, no quarto número da mesma, em 1933, um artigo intitulado: “As primeiras moedas brasileiras e a primeira Casa da Moeda do Brasil”, do qual transcrevemos: “As primeiras moedas brasileiras de que há notícia documental foram de ouro, dizem-no as mais velhas referências numismáticas ao nosso dispor, os “São Vicente”, brasileiras, provavelmente fabricadas com o metal de Jaraguá, a bela montanha do planalto paulistano. Quais seriam os cunhos destes “São Vicente”? Ninguém o sabe; não existe hoje uma só peça de nossa numismática que se possa identificar como tal, atribuindo-lhe este nome com alguma segurança”. Por outro lado, o renomado numismata que foi Alfredo Solano de Barros, em extenso artigo publicado no Vol. IV dos “Anais do Museu Histórico Nacional (1943), intitulado “O Regimento do Conde de Óbidos Diante da História e da Legislação Monetária”, afirma que o que existiu em São Paulo, desde 1644, foi uma “Oficina Monetária”, cuja finalidade era marcar barras de ouro ou contramarcar moedas e que “... a primeira Casa Fundada no Brasil, somente teve lugar no Governo de D. Pedro II – Lei de 8 de março de 1694”.
(...)
Solano de Barros, no artigo acima mencionado, escreveu:
“... com referência ao numerário dos holandeses no Brasil, período de 1645 e 1646 – podemos assegurar ter sido Recife de Pernambuco o local em que foi batida a primeira moeda de ouro (florim) para circulação nas Capitanias sujeitas ao domínio da Companhia das Índias Ocidentais (sic) Geoctroyeerde Westindische Compagnie”. As primeiras moedas cunhadas no Brasil foram, portando, sem nenhuma dúvida, as obsidionais holandesas, nos anos de 1645, 1646 e 1654. (in: As Primeiras Moedas do Brasil. Recife: Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico de Pernambuco, 1987, p.13-15).

         A par dessa discussão que nos parece superada e, a título de ilustração, temos as moedas de prata espanholas (real) contramarcadas em virtude do Alvará de 26 de fevereiro de 1643 e da Carta Régia de 22 de novembro de 1652. São os conhecidos carimbos coroados, considerados como moeda brasileira inclusive, eis que circularam também em Portugal. Os valores são: 60 réis (sobre 1 real), 120 réis (sobre 2 reales), 240 réis (sobre 4 reales) e, finalmente, 480 réis (sobre 8 reales). Essas moedas foram contramarcadas nas oficinas monetárias de Salvador, Pernambuco, São Vicente, Maranhão e Rio de Janeiro.
       Nesse caso, apesar de serem consideradas moedas pertencentes à coleção brasileira, receberam apenas uma punção (contramarca), ficando bem distantes do processo de fabricação de moedas empregado pelos holandeses, qual seja, a fundição do ouro, transformação em lâmina, corte, pesagem, definição do motivo, cunho...
      Assim sendo, nos parece não restar nenhuma dúvida de que as moedas cunhadas pelos holandeses foram as primeiras do gênero a serem cunhadas no Brasil, pelo menos das que se tem notícia.
Moedas obsidionais ou de necessidade? As moedas cunhadas pelos holandeses no Brasil, geralmente, são denominadas obsidionais, ou seja, moedas cunhadas sob cerco de tropas inimigas e com características diferentes das moedas correntes. As moedas de necessidade são aquelas emitidas em momentos de dificuldades financeiras ou de falta de numerário. No caso dos holandeses no Recife, ao que tudo indica, em um momento ou em outro, todas essas características estavam presentes.
     Obsidionais ou de necessidade, o fato é que são elas todas muito raras. Cláudio Schroeder, no Boletim da SNB n° 51, registra 73 exemplares conhecidos das moedas de ouro (1), considerando-se todos os valores. Das moedas de prata de XII soldos (que seriam as mais raras), menciona-se a existência de cinco, a saber: a da antiga Coleção Meili, a da Coleção Silva Ramos, a leiloada por Jacques Shulman de Amsterdã, em 1970 e, finalmente, outras duas, das quais não se conhecem as imagens, do Museu Nacional de Copenhaguen (Dinamarca) e da Universidade de Leiden (Holanda).
      Exemplares falsificados foram registrados já no século XIX, provenientes da Europa. No Brasil, temos o caso da Botija do Rio Formoso, “achada” em 1967, que veio a causar prejuízos a muita gente desavisada e avisada também. A literatura sobre o assunto é farta e curiosa.
        Em 1981, foi encontrado, próximo à ilha de Itaparica, o galeão holandês Utrecht, afundado em 1648 juntamente com a fragata portuguesa Nossa Senhora do Rosário, o que resultou no achado de moedas obsidionais, em quantidade não revelada por seus descobridores e que vêm, desde aquela época, aparecendo em leilões internacionais.
       O primeiro registro dessas moedas, fora das atas da companhia, apareceu no Livro do Tombo do Museu Nacional de Copenhague, na Dinamarca, para o ano de 1793. Kurt Prober nos informa, com exatidão, que existem na Coleção de Moedas do Museu Real de Copenhague, na Dinamarca, quatro que lá se encontram pelo menos desde 31.12.1793, data em que o arquivista Jens Jacob Weber fez, de próprio punho, o registro, na página 235, na Coleção Real de Moedas de Frederick III.
     Informa, ainda, que essas quatro moedas, XII - 1645, XII - 1646, VI – 1646 e III – 1646, foram descritas em folheto da Sra. Af.Kirsten Bendixen, Chefe da Seção de Numismática daquele Museu em 1971, contendo 7 páginas e com a ilustração de três peças, uma de cada valor, e que a aludida senhora informou ao numismata João Fernandes Penna, do Rio de Janeiro, que as moedas em questão foram ofertadas ao Rei Cristin IV pelo Conde de Nassau, juntamente com uma série de pinturas do Brasil de Albert Eckhout, que ainda se encontram no Departamento Etnográfico do Museu.

Fig.2 – Ilustração da moeda de XII soldos de prata, constante da “Histoire Métallique Des XVII Provinces Des Pays-Bas” de Gerard van Loon, publicada, em francês, entre 1732 e 1737.

          Em 1726, foram publicadas as primeiras imagens das moedas na obra de Gerard van Lonn, “História Metálica das XVII Províncias dos Países Baixos”, ou em holandês: Beschryving der Nederlandsche Historipenningen, ou ainda em francês “Histoire Métallique Des XVII Provinces Des Pays-Bas”, publicada entre 1732-37.
          O primeiro registro fotográfico apareceu em 1895, na obra de Julius Meili, "Die Münzen der Colonie Bresilien" (As Moedas da Colônia do Brasil) 1645-1822, Tabela I.

A emissão de 1645

      A primeira referência à necessidade de cunhar moedas no Brasil Holandês se encontra consubstanciada na ata do Alto e Secreto Conselho2 de 21 de julho de 1645.
    As razões apontadas eram a escassez de numerário e a necessidade de dinheiro para realizar, entre outras coisas, o pagamento da milícia. Para tanto, haviam tomado a decisão de retirar da caixa do ouro do navio Zeelandia, chegado da Costa da Guiné, a quantia de 360 marcos, para com eles cunhar dinheiro ou vendê-los.
      A decisão do Alto e Secreto Conselho de cunhar moedas foi tomada na sessão de 18 de agosto de 1645, diante da impossibilidade de obtenção de dinheiro.
       Já haviam vendido parte dos 360 marcos de ouro e decidiram, com o restante, cunhar moedas, mesmo sem autorização, diante da grande necessidade. Assim foi resolvido que seriam cunhadas moedas quadradas de 3, 6 e 12 florins, tendo em uma face o emblema da Companhia e, na outra, a data. Foi encarregado o Sr. Pieter Jansen Bas, membro do Alto e Secreto Conselho e anteriormente ourives, de fiscalizar a cunhagem.
      Estima-se que a cunhagem tenha começado imediatamente, eis que em 14 de setembro foram enviados exemplares de cada um dos valores ao Conselho dos XIX na Holanda, bem como as justificativas para tal procedimento. A cunhagem teria se estendido até o final de setembro.
      Vejamos uma interessante notícia veiculada no Diário ou Breve Discurso, de 1° de outubro de 1645, traduzido por José Hygino e citado pelo Prof. José Antônio Gonçalves de Mello:

“Há alguns dias que os Senhores do Supremo Conselho assentaram de fazer uma nova moeda, e já se cunhou uma grande soma em ouro, de 3, 6 e 12 florins, o que vem muitíssimo a propósito para contentar os militares e outras pessoas. Diz-se também, que serão cunhadas moedas de prata; o tempo o mostrará”. (in: Os Ducados Brasileiros de 1645 e 1646 e as moedas obsidionais cunhadas no Recife em 1654. Recife: Separata da Revista do Instituto Arqueológico e Geográfico de Pernambuco, 1976, p.189).

       Somente em 10 de outubro de 1645 foi baixada a Instrução pela qual o Sr. Pieter Jansen Bas deveria reger-se na cunhagem das moedas para a Companhia das Índias Ocidentais. Vejamos, na íntegra, a tradução dessa instrução realizada pelo Prof. José Antônio Gonçalves de Mello:

“Em primeiro lugar, como fiscal da moeda da parte da Companhia das Índias Ocidentais e por ordem dos Nobres Senhores Altos e Secretos Conselheiros no Brasil, deverá mandar cunhar um moeda de ouro quadrada, tendo de um lado o emblema comum da Companhia das Índias Ocidentais e do outro lado em letras a palavra BRASIL e ano 1645. Esta moeda será denominada Ducado Brasileiro e terá três valores, dos quais o valor maior terá 32 peças por marco de peso troy, com tolerância de 1 e ½ engels e será recebido pelo valor de 12 florins, de 40 grossos flamengos o florim, tanto pela Companhia quanto por quem quer que seja, mas somente no Brasil.
“O segundo valor do mesmo Ducado terá, por marco de peso troy, 64 peças, com tolerância de 2 engels de peso troy, e terá curso de 6 florins, de 40 grossos flamengos o florim.
“O terceiro tipo do supracitado Ducado terá 128 peças por marco de peso troy, com tolerância de 2 e ½ engels troy e terá curso a valor de 3 florins, de 40 grossos flamengos o florim. “O mencionado Ducado Brasileiro com seus valores deverá ser feito do ouro proveniente da Guiné, das Índias Ocidentais ou de qualquer outra procedência, o qual será fornecido para cunhagem pelos Nobres Senhores Altos e Secretos Conselheiros, pelo que o fiscal da moeda a nenhuma responsabilidade será sujeito pela fatura desse dinheiro, tanto aqui quanto em qualquer outra parte, devendo o dinheiro ser aceito como se apresentar, já que neste pais atualmente nenhuma ferramenta, materiais e outras cousas necessárias aos ensaios podem ser obtidas ou encontradas,e também porque não é possível que variedades diversas e diferentes quilates possam ser transformados em massa da qual se possam obter quilates ou feituras uniformes, de modo que o ouro tal como é lançado no cadinho será transformado em lâminas, e deverá ser cortado e cunhado sem quaisquer outras considerações.
“A perda que houver ficará a cargo dos mestres, mas a responsabilidade por tudo que diz respeito às moedas e ao que ainda vier a ser cunhado será dos Altos e Secretos Conselheiros. “Pelo trabalho de fazer do ouro bruto a moeda, de tal modo que possa ser aceite, perceberá oito por cento para pagamento de cerca de 14 a 20 trabalhadores que serão necessários ao serviço.
“Ainda ficarão por conta da Companhia todas as despesas com carvão, luz, tiçoeiros e tesouras próprias e tudo o mais que se fizer necessário à cunhagem e respectivo trabalho.
“Também o fiscal da referida moeda fará jus a retribuição ou gratificação a ser estabelecida e fixada dentro de poucos dias, sujeita à concordância e aprovação dos nossos superiores na Pátria. “Desses foram feitas três vias iguais, por nós, Altos e Secretos Conselheiros, e assinamos aos 10 de outubro de 1645 no Recife de Pernambuco. A. Hamel, A. van Bullestrate, Pieter Jansens Bas” (op. cit., p. 189-191).

          Devemos fazer três observações sobre essa ata. A primeira refere-se ao termo “Ducado Brasileiro”, que seria o nome “oficial” da moeda, como ficou consignado na ata. A questão é que se trata de uma tradução, o que comporta interpretação, evidentemente. Segundo o Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa, o gentílico brasileiro (relativo ao Brasil e aos brasileiros) foi datado pela primeira vez em 1706 na obra de José Soares da Silva intitulada – Gazeta em forma de Carta, Tomo I (1701-1709), Biblioteca Nacional de Lisboa, 1933. O termo anteriormente utilizado, com o mesmo sentido, é brasiliense, datado de 1618.
        Desta forma, o termo “Ducado Brasileiro”, para o Século XVII, significa que a moeda foi cunhada nas terras do Brasil, sob domínio holandês, e não brasileiro na acepção moderna. Também, pensamos que não deve ser afastada a denominação florim, eis que ela consta diversas vezes na ata.
        Outra questão interessante é sobre a qualidade das moedas, mesmo a ata mencionando a ausência de instrumentos e outras dificuldades para a realização da cunhagem, o fato é que essas moedas foram cunhadas por mestres competentes e com bom resultado. A liga de ouro utilizada tem título superior a 20 quilates e, segundo Gastão Dessart, “em média o título encontrado tem sido de 22 quilates”.
       Em relação à quantidade de ouro cunhada, existem apenas estimativas e se supõe que as duas cunhagens (1645 e 1646) sejam aproximadamente equivalentes.

A emissão de 1646

      A emissão de 1645 foi insuficiente, tanto que no mês de novembro já havia falta de dinheiro. No primeiro semestre de 1646, havia falta de víveres, além da escassez de dinheiro. Em 21 de março de 1646, chegaram da Costa da Mina e de São Tomé, em escala no Recife, os navios (do mesmo nome) Eendracht da Câmara de Amsterdã e o Eendracht de Enkhuisen, com 1604 marcos de ouro (quase 395 quilos). No dia seguinte ficou consignado na ata:

“Em conseqüência desta guerra e por tardar o socorro da Pátria, sendo indispensável algum dinheiro de que a Companhia se possa servir, tanto para custeio das fortificações e compra de diversos gêneros, dos quais não se pode prescindir, quanto para prover o soldo de alimentação dos empregados da Companhia e em qualquer emergência podermo-nos socorrer dos armazéns; e, por outro lado, como não conseguimos mais dinheiro a risco para a Companhia, por não termos paubrasil em depósito; e como a falta de numerário pode acarretar-nos graves dificuldades, resolveu-se, para evitar, na medida do possível, tais dificuldades, especialmente as que possam sobrevir em ocasião inesperada, e que, por meio de dinheiro, possam ser evitadas, retirar da caixa-forte que acaba de chegar da Guiné com o Sr. Ruychaver, para benefício desta conquista, 360 marcos de ouro e verificar, por intermédio dos corretores, o preço por que podem ser vendidos (já que não nos é possível, por falta de cadinhos e do necessário para medidas poder cunhar moedas), para alcançar a melhor oferta possível” (op. cit. p. 198-199).

        Esse ouro retirado dos navios foi todo vendido, não resultando cunhagem. Em agosto de 1646, uma nova penúria de numerário restou consignada em uma missiva endereçada ao Conselho dos XIX (26 de agosto de 1646). Vejamos:

“Não tivemos outra solução senão recorrer ao ouro da Guiné e dele retirar, para subsídio de caixa, 405 marcos, dos quais vendemos em leilão 25 a 39 florins a onça e 25 a 40 florins e o restante guardamos com intenção de faze-lo cunhar”. (op. cit. p.199)

       O Prof. José Antônio Gonçalves de Mello, na obra já citada, deixou consignado sobre a emissão de 1646: “Com relação a esta emissão de 1646, e ao contrário da de 1645, chegou até nós o registro pormenorizado e as contas desta cunhagem, os quais aqui traduzimos pela primeira vez. Foi encarregado da direção e fiscalização dos trabalhos o ex-Alto Conselheiro Pieter Jansen Bas, servindo-lhe de regimento a mesma “Instrução” de 10 de outubro de 1645, da cunhagem anterior. Os ourives por ele convocados teriam sido os que realizaram o mesmo trabalho um ano antes, e eram: Andries Ketelaer, Hendrick Bruynsvelt, Johannes Courtenius e Pieter Verbeecq. A 27 de agosto Bas recebeu do Tesoureiro Alrichs a primeira quantidade de ouro da Guiné, seguindo-se as demais nas datas abaixo:
1646    agosto  27............... 80 marcos
setembro   5 ............    80     “
outubro  4 ..............    80     “
outubro 12...........    115     “
Total................................ 355 marcos

           Este total corresponde ao que foi retirado, em 25 de agosto, da caixa de ouro da Guiné, isto é, 405 marcos, menos 50 marcos que foram vendidos aos comerciantes do Recife, como ficou indicado antes.
      No mesmo dia, 27 de agosto, começou o trabalho de cunhagem; trabalho nada fácil, pela má qualidade e pequena capacidade dos cadinhos...” (op. cit. p. 199- 200)
Na obra do Prof. Antônio Gonçalves de Mello, existem mais detalhes sobre a cunhagem e sobre os cunhos utilizados, matéria que não será abordada nestas breves linhas.
         A quantidade de moedas em relação às duas emissões ainda resta a ser estabelecida, eis que não consta nos documentos oficiais. Gerard van Loon estimou em 700 dúzias ou 8.400 moedas, número não aceito pelos estudiosos da matéria. O Prof. José Antonio fez uma projeção de mais de 18.000 moedas para os três valores.

A emissão de 1654

       No próprio dia da capitulação e entrega do Recife, 26 de janeiro de 1654, a ata da reunião do Alto Governo deixou registrado:

“O Coletor-geral Jacob Alrichs, tendo exposto que a caixa estava totalmente desprovida de dinheiro e que nem mesmo as dívidas mais pequenas podiam ser pagas, posse em deliberação se não podiam ser cunhadas algumas moedas de prata em obras, com as quais se atendesse a essa emergência [extremiteit] e mais tarde fossem recolhidas. Para isso os Senhores Schonenborch e Haccxs ofereceram-se para entregar a pouca prata da baixela de suas casas, no que não tiveram seguidores. Entretanto, para começar, foram tomadas pelo Coletor-geral, a qual deverá ser entregue ao Sr. Henrik Brunsvelt, que com ela cunhará moedas quadradas, a saber:
uma moeda de 8 engels [= 12gr30 a 12g35] que valerá 2 florins; uma moeda de 4 engels [= 6gr15 a 6g17] que valerá 1 florim; uma moeda de 2 engels [= 3gr07 a 3g08] que valerá 10 stuivers3.” (op. cit. p. 219).

          Na ata de 31 de janeiro de 1654, consta que o Mestre de Campo General Francisco Barreto de Menezes mandou suspender os trabalhos, tendo a cunhagem durado apenas seis dias.
Como vimos, os valores autorizados, pela ata, eram 2, 1 e ½ florim, isto é, correspondentes a 40, 20 e 10 stuivers ou soldos (sistema decimal).
        O fato é que, contrariando a ata, o valor que sempre foi considerado como efetivamente cunhado é o de XII stuivers (sistema duodecimal) ou mesmo florins, já que não se tem certeza se o que se quis fazer foi mesmo uma moeda de 12 stuivers, ou peças com um valor apenas representativo do 12 florins de ouro, para que depois pudessem ser resgatadas.
            Como disse Kurt Prober, durante pelo menos 200 anos só se conhecia um único nominal das moedas de 1654 que era o de XII, ilustrado por Julius Meili n° 5, pesando 5 gramas, peça da qual se conheciam 2 ou 3 exemplares, todos batidos com o mesmo cunho.
            Disse mais: essa tranqüilidade manteve-se até 1870, quando do aparecimento do “Catalogue Descriptif des Monnaies Obsidinales et de Necessité”, de autoria de Prosper Mailliet, de Bruxelas, na Bélgica.
           Realmente, nesse catálogo, Prosper Mailliet relaciona, além dos valores tradicionais, 12, 6 e 3 florins de ouro, moedas de prata e até uma de cobre.
Vejamos:

“Continuation de la guerre contre les Portugais, em 1654.
4. 40 sols. Arg. Catalogue Callenfels, n°364.
5. 30 sols. Arg. Catalogue Munnicks van Cleeff, n°263.
6. 20 sols. Cuivre. Semblable au n°7, mais avec la valeur XX.Catalogue Callenfels, n° 365.
7. 12 sols. Arg. Uniface, carrée. Dans le champ, sous le nombre XII qui indique la valeur, les lettres: GWC entrelacées, Au-dessous, le millésime 1654.Van Loon, t.II, p.369. Duby, pl. XVI, n°8.
8. 10 sols. Arg. Catalogue Munnicks van Cleeff, n° 269.» (in, Catalogue Descriptif des Monnaies Obsidinales et de Necessité, Bruxelles, 1870, p. 67-68) (grifo nosso).

         Em 1886, desta vez em Paris, aparece sendo leiloada a Coleção de Mailliet “Monnaies Obsidionales et de Necessité”, onde são relacionados apenas dois exemplares destas moedas, um de 6 florins de ouro e um “20 soldos de 1654 de cobre”. Este último provavelmente ele não tenha conseguido “passar” a diante.  
      Agora, voltando às verdadeiras, para sedimentar a autenticidade da moeda de XII stuivers, basta mencionar que somente ela aparece na literatura anterior a 1870, o que consta na monumental obra de Gerard van Lonn, “Histoire Métallique Des XVII Provinces Des Pays-Bas”, editada pela primeira vez em 1726, em holandês, e reeditada em francês, em 1732-374, como já havíamos mencionado. Todas as cinco moedas autênticas de XII possuem o mesmo cunho. Os demais valores de prata existentes são todos de origem duvidosa, quando não flagrantemente falsas, tanto pelo cunho grosseiro ou pelo valor.
         Um bom exemplo disto é a moeda de “XXXX stuivers” do Museu Histórico Nacional (5) que insistem em apresentar como verdadeira, poderiam ao menos dizer que esta “sob análise”. Em relação a esta moeda, Kurt Prober afirma que a mesma veio da Coleção Pedro Massena e que foi vendida ao Museu em 1921, ele apresenta esta moeda na Prancha “T” – Falsificações surgidas depois de 1860.
        F. A. Varnhagem em seu livro “História das Lutas com os holandeses no Brasil” publicado em Viena em 1871, não faz menção às moedas ditas da série decimal, ilustra as moedas de ouro nos valores de 3, 6 e 12 florins e o 12 stuivers de 1654.

Demais componentes do Meio Circulante da época

    No território assenhoreado pelos holandeses no Brasil circulavam, além das moedas acima mencionadas, moedas vindas da Holanda, quais sejam, os florins, os soldos e os xelins.
    Além dessas moedas, encontramos menção a moedas portuguesas, “os portugueses” de ouro. Vejamos o que nos informa Edgar de Araújo Romero:

“Em princípios de 1642, navios chegados de Amsterdã descarregaram avultado número de caixas repletas de moedas de ouro, conhecidas sob o nome de Portugalezas, de D. Manoel e D.João III, de ouro de 23 ¾ de quilate, então ainda em circulação). Pelo desejo do Conselho do XIX, deviam ser postas em circulação com o valor cambial de 75 florins, por peça. Sendo, porém, semelhante valor demasiado alto para o Brasil, e não se achando absolutamente em relação ao preço cotado para as pistolas e os 8 reales de prata, o governo recifense fez um  reajustamento, baixando as Portugalezas para 60 florins e as pistolas dobrões para 9 florins e 10 soldos’. (in: O Meio Circulante no Brasil Holandês. Rio de Janeiro: Anais do Museu Histórico Nacional, Imprensa Nacional, Vol.II, 1940, p.25).

        Do texto acima se depreende que os holandeses também faziam uso das moedas de prata provenientes da América Espanhola, pistolas e os 8 reales. Isso era comum, mesmo entre os portugueses. O fato é que a falta de dinheiro amoedado era tanta, que utilizaram todos os meios possíveis para combater a crise monetária e conter uma possível sublevação militar.
          Em fevereiro de 1645, o Alto Conselho chegou a propor o pagamento de parte do soldo aos oficias e às guarnições com vinho espanhol ou em aguardente. Fizeram também empréstimos mercantis e depois tentaram o reconhecimento desses títulos junto aos Diretores da Companhia.
         Assim se constituía o meio circulante da época. Além das moedas cunhadas pelos holandeses, circulavam moedas provenientes da Holanda, moedas portuguesas e espanholas, e ainda outros expedientes úteis que se apresentaram naquele momento.
      No tocante às moedas provenientes da Holanda e que circulavam no Brasil, pensamos que uma análise dos achados arqueológicos seria de grande utilidade.
           Um pouco mais difícil seria o estudo das moedas portuguesas e espanholas que circulavam entre os holandeses, pois essas continuaram a circular naquele território por muito mais tempo que as moedas holandesas.


Fig.3 - Anverso da moeda de 2 stuivers de 1619 – encontrada no Forte Orange em Itamaracá, originária da Província de Overyssel na Holanda.

Conclusão
        As emissões holandesas em seu conjunto (ordens de pagamento, ordenanças e moedas obsidionais) circularam no território do Domínio Holandês e, na maioria das vezes, em períodos de extrema necessidade ou de cerco. Sua utilização em outras áreas poderia ser tomada como alta traição. No tocante à precariedade do Meio Circulante da época, F. dos Santos Trigueiros faz interessantes comentários e transcreve uma passagem do Padre Antônio Vieira. Vejamos:

«No Maranhão, o dinheiro praticamente não existia, desempenhando papel de moeda nas trocas o açucar, o cacau e o algodão em fio e em tecido, motivando a alusão feita pelo Padre Antônio Vieira num sermão da quaresma em 1653 na Cidade de São Luis: “O dinheiro desta terra é pano de algodão e o preço ordinário por que servem os índios, e servirão cada mês, são duas varas deste pano que valem dois tostões. Donde se segue que por menos de sete réis de cobre servirá um índio cada dia”»6.

           Neste mesmo sentido, Lupércio Gonçalves Ferreira 7, citando o Prof. José Antônio Gonçalves de Mello no livro “A rendição dos holandeses no Recife”, nos traz:

“No Recife consta que a Senhora Schkoppe foi à Casa dos Conselheiros no domingo 8 de fevereiro de 1654, às 8 horas da noite, para dizer que era devedora de grande soma de dinheiro a diversas pessoas e que não aceitaria partir daqui sem primeiro satisfazer os seus credores. E que não tinha meios para fazê-lo, por estar o Governo a dever a seu marido muitos meses de soldo. Além de o soldo ser pago aqui em moeda desvalorizada, pedia que se lhe pagassem seis meses dele no valor do dinheiro da Holanda, e como insistia por isso, o Governo ficou de ver como poderia satisfazê-la, embora “não haja qualquer dinheiro em caixa”.

           A legislação e os principais documentos dos holandeses, pertinentes a essas emissões, são:

- Decreto de 1640 - estabeleceu as ordenanças ou ordens de pagamento, garantidas pelas rendas reais provenientes das arrecadações.
- Ata de 21 de julho de 1645 O órgão supremo da administração – o Alto e Secreto Conselho toma a decisão de retirar do navio Zeelandia, recentemente chegado da Guiné, a quantia de 360 marcos de ouro, para vender ou cunhar moeda, diante da escassez de numerário para o pagamento da milícia. Resolveram então cunhar moedas de ouro nos valores de 12, 6 e 3 florins (as primeiras moedas cunhadas no Brasil), tendo de um lado o símbolo da companhia e do outro a data, dando-lhes um aumento em torno de 20% a 30% no valor do ouro, sobre as de igual representatividade das cunhadas na Holanda, a fim de que as mesmas não saíssem do país e pudessem ser recolhidas no futuro.
- Decisão de 18 de agosto de 1645
Do Alto e Secreto Conselho de cunhar moedas. O Conselheiro da Companhia, Pieter Janssen Bas, foi o encarregado da produção das moedas, mediante concessão formal e isento de qualquer acusação futura. Primeiramente, foram cunhados exemplares de cada moeda para serem enviados ao Conselho dos XIX na Holanda, cuja remessa foi realizada em 14 de setembro de 1645. Em 10 de outubro de 1645 foi dada a ordem para o início da cunhagem das moedas para circulação local.
- Instrução de 10 de outubro de 1645
– Instrução pela qual Sr. Pieter Jansen Bas deveria reger-se na cunhagem das moedas.
- Ata de 26 de janeiro de 1654 – Ata da reunião do Alto Governo, autorizando a cunhagem de moedas de prata de emergência de três valores, X, XX e XXXX soldos.
            Existem bons apontamentos sobre as moedas cunhadas pelos holandeses durante o período da “Nieuw Holanda”, principalmente sobre as de ouro. Pouco ou nada existe sobre as Ordens de Pagamento e as Ordenanças.

Fig.4 - Monograma da W.I.C.



Bibliografia:
- ANGELINI, Cláudio Marcos. Os Holandeses no Brasil e as obsidionais. São Paulo: texto publicado na página da Revista Acervus Cultura e Arte - Belo Horizonte, MG.
- COLIN, Oswaldo. Brasil através da moeda. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, 1995, 64p.
- CUHAJ, Geoger S. (editor) Standard Catalog of World Paper Money, Specialized Issues, Volume One. East State Street – Iola: Kp Books, USA, 2005.
- FERREIRA, Lupércio Gonçalves. As primeiras Moedas do Brasil. Recife: Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco, 1987.
- GONÇALVES, Cleber Baptista. Casa da Moeda do Brasil, 290 anos de história, 1694-1984. Rio de Janeiro: Casa da Moedas do Brasil, 1985.
- GONÇALVES, Cleber Baptista. Casa da Moeda do Brasil. Rio de Janeiro: Casa da Moeda do Brasil, 2 edição, 1989, 937p.
- GONSALVES DE MELLO, José Antônio. Os Ducados Brasileiros de 1645 e 1646 e as moedas obsidionais cunhadas no Recife em 1654. Recife: Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco, V.48, p.185-227.
- HERKENHOFF, Paulo (organizador). O Brasil e os Holandeses 1630-1654. Rio de Janeiro: GMT Editores Ltda. 1999.
- LISSA, Violo Idolo. Catálogo do Papel-Moeda do Brasil 1771-1986. Emissões oficiais, bancárias e regionais, Brasília: Ed. Gráfica Brasiliana, 3 edição, 1987.
- MAGALHÃES, Augusto F.R. de. Os Bancos Centrais e sua função Reguladora da Moeda e do Crédito. Rio de Janeiro: A Casa do Livro. 1971, 487p.
- NETSCHER, P.M.   Les Hollandais au Brésil, notice historique sur les Pays-Bas et le Brésil au XVII siècle.Le Haye (Den Haag): Belinfante Frères, 1853.
- PROBER, Kurt. Catálogo de Moedas Brasileiras. Rio de Janeiro: 1ª edição, 1960.
- PROBER, Kurt. “Obsidionais” As primeiras Moedas do Brasil. Rio de Janeiro: Paquetá, Monografias Numismáticas – XIII, 1987.
- RIZZINI, Carlos. O Livro, o Jornal e a Tipografia no Brasil, 1500-1822, com breve estudo geral sobre a informação. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, Ed. fac-similar, 1988.
- SANDRONI, Paulo. (organização e supervisão) Novíssimo Dicionário de Economia. Editora Best Seller, 1999.
- SANTOS LEITÃO. Catálago de moedas brasileiras, de 1943 a 1965. Rio de Janeiro: Santos Leitão & Cia. Ltda, 10 edição, 1965, 205p.
- SHOROEDER, Cláudio. O Ducado Brasileiro (1645-1646), Boletim da SNB, Ed. 51.
- TRIGUEIROS, F. dos Santos. Dinheiro no Brasil. Rio de Janeiro: Léo Cristiano Editorial, 2ª edição, 1987.
- VAN DER WEE, H. (org.). La Banque en Occident. Genève: Union Bancaire Privée, Fonds Mercator Anvers, 1994.
- VARNHAGEN, Francisco Adolpho de. História da Lutas com osHollandezes no Brazil desde 1624 A 1654.Viena: 1871.
- WÄTJEN, Hermann. O domínio colonial holandês no Brasil: Um capítulo da história colonial do século XVII. Recife: Cia. Ed. de Pernambuco, 2004, p.291-343.

NOTAS
1 Este número pode ter aumentado.
2 Denominação oficial do órgão supremo da administração do Domínio Holandês no Brasil.
3 Alfredo de Carvalho havia traduzido por engano «tien stuvers» por doze stuivers, ou soldos,
enquanto o correto é 10 stuivers ou soldos. Gastão Dessart parece ter acompanhado o erro, mas
Kurt Prober, apesar de transcrever sua tradução, considera em seus apontamentos 10 stuivers.
4 A primeira parte dessa obra está disponível on-line no site da Biblioteca Nacional da Bélgica.
5 Existe um interessante estudo sobre essa moeda na Revista Brasileira de Arqueologia,
Restauração e Conservação, V.1, n°6, p.296-300.
6 Dinheiro no Brasil. Rio de Janeiro: Léo Christiano Editorial Ltda, 2ª edição, 1987.
7 As Primeiras Moedas do Brasil. Recife: Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco, 1987, p.39.

Anexo I - Quadro Geral das Emissões dos holandeses no Brasil

Ordens de Pagamento e Ordenanças
(as primeiras formas assemelhadas ao papel-moeda do Brasil)

Ordens de Pagamento 1636 – 1637
Valores                      Quantidade                        Emissão: sem autorização legal, em junho de 1636.
(…) florins             indeterminada                       Recolhimento: ainda estavam sendo recolhidos em
8.000 florins                     «                                    março de 1637.
10.000 florins                   «                                    Provavelmente manuscritas.
16.000 florins                   «                                    Valores possivelmente definidos
20.000 florins                   «                                    (informações baseadas em documentos da época por
25.000 florins                   «                                    Hermann Wätjen, em O Domínio Colonial Holandês
no Brasil).

Ordenanças 1640 e 1644

Valores                     Quantidade         Emissão: com autorização legal – Decreto de 1640
(...) florins              indeterminada       Provavelmente manuscritas.

Moedas
(as primeiras moedas cunhadas no Brasil)

Florins ou Ducados – cunhados com aumento de 20% a 30% sobre os da Holanda, a fim de
que não saíssem do Brasil e pudessem mais tarde ser recolhidos.

1645
Valores Peso (oficial)                           Quantidade indeterminada
III florins 1,93 a 1,90 grs.                                        «
VI florins 3,86 a 3,79 grs.                                        «
XII florins 7,72 a 7,57 grs.                                      «
1646
Valores                                                   Quantidade indeterminada
III florins 1,93 a 1,90 grs.                                      «
VI florins 3,86 a 3,79 grs.                                      «
XII florins 7,72 a 7,57 grs                                      «

1654
Valor
XII soldos 5,00 grs.                                               «



Anexo II - Imagens do Catálogo Kurt Prober – Catálogo de Moedas Brasileiras de 1960



Agradecimentos: Aos colegas da AFSC e em especial a Milton Milazzo Jr, Ernani Santos Rebello e Luis Cláudio Fritzen, ao numismata Alberto Paashaus, à Fundação Joaquim Nabuco, na pessoa do Sr. Lino Madureira e a todos que direta ou indiretamente colaboraram na elaboração deste trabalho.

Autor: Marcio R. Sandoval (sterlingnumismatic@hotmail.com)

Publicado originalmente no Boletimn˚ 61, da AFSC (Associação Filatélica e Numismática de Santa Catarina), março de 2010, p.4-19).